Isso não é uma banqueta

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O que acontece depois que se realiza um sonho? Para a designer Ju Amora - que no seu ateliê cultiva, em neon, a frase: “Seu real dever é salvar o seu sonho” - essa questão veio à tona em 2019. Nos últimos sete anos, a designer se dedicou 24 horas (literalmente) ao trabalho, guiada pelo sonhar. Até que, um esgotamento físico e mental resultou num diagnóstico de burnout e a fez compreender que SIM, é possível viver do seu fazer manual, mas NÃO é possível repetir um ritmo acelerado de produção que muitos ainda esperam de um pequeno empreendedor.

“Comecei a me forçar a virar uma fábrica. No começo, atender sob demanda fazia sentido porque eu fazia 10 ou 20 peças, mas depois comecei a atender um mercado muito maior. Um mercado tradicional do qual eu não faço parte”, conta. Além de Ju Amora, outros empreendedores da cultura feita à mão passam pelo mesmo dilema: demanda X tempo para criação. Como dar limites ao mercado que deseja consumir um produto feito à mão? Ou melhor, como explicar que o fazer manual não segue a velocidade de criação/produção de uma indústria?

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Não respeitar meu processo e não fazer com que essa empresa entenda meu processo: eu estava chegando nesse ponto


Para encontrar essa resposta, Ju decidiu parar. Vendeu toda a coleção que ainda tinha em seu ateliê (em apenas dois dias todo estoque foi arrematado) no bairro de Perdizes, e viajou para Paris. Lá onde sua história no fazer manual começou (leia a matéria), ela fechou um ciclo. De volta a São Paulo, no final de junho ela reabriu o ateliê com novidades.

Na casa de dois andares, o piso de cima ganhou uma parceria com o Festa de Brincar, onde as crianças podem celebrar o aniversário com uma oficina de pintura de banquinhos e outras atividades manuais. No térreo, o espaço Ju Amorinha, de objetos e móveis voltados para os pequenos, ficou maior e ganhou novos produtos de designers colaboradores. Também no térreo, as novas criações da Ju Amora saúdam os visitantes já na vitrine.

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Colada na parede do ateliê, a frase Ceci n’est pas une banquette alerta: “Isso não é uma banqueta. A frase aponta para a nova coleção, na qual a artista propõe outros usos para este suporte que ela chama de “objeto afetivo”. Para além da pintura, e longe da multiplicação de um catálogo de desenhos, a artista cria banquetas que são vaso de flores, luminárias e espelhos.

Além disso, ela abriu uma nova janela para a inventividade. Dessa vez, Ju convida, periodicamente, um novo designer para participar do projeto Efêmero. Uma coleção limitada de apenas quatro peças feita a quatro mãos. Quem estreia a parceria é a artesã Andreza Magalhães do estúdio Drê Magalhães.

Nesta entrevista, Ju Amora fala sobre essa nova fase e como foi dizer SIM ao próprio tempo. “Acho que dá para fazer de outro jeito e é esse jeito que estou tentando descobrir.”

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O que te levou a repensar o formato do seu negócio?
Já tenho sete anos de ateliê. Antes eu morava em cima e tinha um ateliê embaixo, na verdade eu tinha um quarto e o resto era ateliê. Fui obrigada a sair de lá porque uma empreiteira comprou e fui obrigada a sair de lá depois de muita energia empregada ali, ter reformado, criado um negócio ali. Isso foi muito custoso para mim emocionalmente. Mas tudo bem, vamos lá, achei que tinha que dar esse passo até de não morar na minha empresa. Só que eu fui para a distorção disso. Comecei a me forçar a virar uma fábrica. No começo, atender sob demanda fazia sentido porque eu fazia 10, 20 peças. Depois, comecei a atender um mercado muito maior. Um mercado tradicional do qual eu não faço parte. Eu sou do mercado da criação, do fazer manual. Ou seja, não adianta uma empresa me pedir 600 bancos pintados à mão para entregar em um mês e eu atender isso e não me respeitar. Não respeitar meu processo e não fazer com que essa empresa entenda meu processo: eu estava chegando nesse ponto.

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Quando você começou a notar este problema de demanda e tempo de criação?
Depois de profissionalizar meu processo, eu quis atender demandas como se eu fosse uma empresa de médio porte. Hoje eu tenho uma assistente de produção e uma assistente para questões burocráticas. Mas eu precisei ter um burnout e parar numa UTI para entender isso. Eu entrei em parafuso: comecei a pegar várias encomendas, dormia duas horas por dia, fiquei viciada em trabalho e percebi que estava doente depois de ficar 48 horas sem dormir. Parecia que eu ia infartar, cheia de adrenalina. Fui parar no hospital. O médico me falou que aquilo ia me matar. Achei um exagero. E é difícil aceitar que trabalhar demais é algo ruim, porque o excesso de trabalho é premiado. Algo que também é uma cultura das empresas tradicionais: quanto mais você produz, mais valor você tem. Só que eu levei esse pensamento para dentro do meu trabalho. Isso aconteceu em 2017 e eu não me tratei. Aí percebi que viciei nessa rotina de loucura. E se eu passasse por um período de calmaria eu ficava louca, surtada.


É difícil aceitar que trabalhar demais é algo ruim, porque o excesso de trabalho é premiado


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Foi aí que você decidiu dar um tempo do ateliê?
Não. O ápice foi depois. Me mudei do antigo ateliê para cá. Também estava me mudando para um apartamento e, mesmo assim, peguei essa encomenda dos 600 bancos (no começo deste ano). Isso que eu estava prestes a abrir o novo ateliê. E eu achando que tudo estava indo bem. Tinha certeza que ia dar tudo certo. Foi até uma coisa de vaidade, mexeu com outros lugares em mim. Até que um dia eu estava trabalhando, tentei reclamar de uma dor nas costas e não me veio ar. Em cinco horas entrei num estado gravíssimo. Fui parar no hospital com uma pneumonia bilateral. Eu tinha só 50% de oxigênio no organismo, sendo que o mínimo aceitável é de 80%. Havia riscos de sequelas em movimento e fala. Foi punk. Nos dias que fiquei no hospital não entendia que eu estava passando por aquilo e que era um exagero dos médicos. Eu sai de lá, inaugurei o ateliê, mas um sino badalava na minha cabeça. Eu escutava: “Retoma seus propósitos”.

Como foi perceber que você estava indo para outro caminho?
Para mim, retomar esses propósitos era retroceder. Mas fui seguindo em frente. Foi louco porque consegui romper com essa ideia. Comprei uma passagem e fui para Itália e Paris. Visitei cemitério Père-Lachaise, onde estava o papel com a mensagem “O seu real dever é salvar seu sonho”. Devolvi o mesmo papel e o deixei lá. Para mim foi um fechamento de ciclo. Quando voltei percebi que eu tinha que romper um padrão mesmo sabendo que estava dando tudo “certo”. Não vou mais fazer bancos da forma que eu fazia. Pensei: O que me motivava? E a palavra que surgiu era liberdade. Algo que eu não tenho presa na segurança e no que as pessoas acham. Não sei no que vai dar, mas este é um símbolo de resistência para mim e para outras pessoas que estão no fazer manual. E o fazer manual é algo muito pessoal, que demanda tempo. Você tira aquilo da sua alma, não dá para reproduzir em série. Há um tempo de produção. E hoje decidi que vou trabalhar como uma empreendedora criativa.


Acho que a mensagem principal quando falo do efêmero é que as pessoas repensem todas as relações delas


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E agora, Ju? Que criações estão surgindo dessa nova fase?

A faceta lúdica do meu trabalho está aqui no térreo do ateliê, mas também no andar de cima. Eu precisava fazer esse resgate do lúdico que foi como eu comecei meu projeto. Eu vim do teatro e só escolhi ser atriz porque eu poderia ser quem eu quisesse. E o banco, para mim, é como o teatro. Ele pode ser o que ele quiser. Minha brincadeira agora é isso: não é mais ficar reproduzindo catálogo porque uma empresa grande me pediu. Eu quero agora fazer o “banco teatro”, o banco que pode ser o que você quiser. Banqueta que é um vaso, que é luminária ou espelho. Quero que a pessoas tenham essa relação com os objetos também. Quero sair da coisa da massificação que eu sempre fui contra e que depois me vi dentro, ainda que em mínima escala. Também tem uma coleção que é em parceria com outros designers e que batizei como Efêmera. São apenas quatro peças feitas a quatro mãos: uma diferente da outra. Esta primeira eu fiz com a Drê Magalhães. Então são dois processos: ela com as cordas e eu dos bancos. Quero chamar outros colaboradores para este projeto que é muito especial para mim. Acho que a mensagem principal quando falo do efêmero é que as pessoas repensem todas as relações delas. A forma como elas consomem, a forma como elas lidam com quem faz um trabalho manual, pessoas que são a base deste país, porque nós somos um país muito manual e a gente simplesmente não respeita, nem entende isso. Pode ser utopia da minha parte, mas eu acho que esse é o caminho.

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Eu vim do teatro e só escolhi ser atriz porque eu poderia ser quem eu quisesse. E o banco, para mim, é como o teatro


Texto: Maju Duarte
Fotos: Ju Amora e Maju Duarte