Uma vila pra chamar de nossa

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Já pensou num mundo em que empresas, indivíduos e instituições tivessem um propósito evolutivo? Se fossem livres para expressar todo o potencial e para colaborar e construir um impacto positivo na sociedade? Essas questões levantadas pelo francês Frederic Laloux no livro Reiventando as Organizações - Um guia para criar organizações inspiradas no próximo passo da consciência humana (Editora Voo, 2017) são refletidas diariamente pelo Allma Hub Criativo, em São Paulo.

Criado há um ano pela publicitária Ana Paula Dugaich, o Allma Hub cria pontes e faz conexões com diferentes negócios buscando algo além da velha concepção de empresa, consumidor e produto. Voltado para a geração de impactos benéficos para a sociedade, o Allma está realizando um trabalho inovador com o Hortifruti Natural da Terra do bairro Vila Madalena, na capital paulista. O resultado? Na primeira semana de agosto, eles inauguraram a Vila da Terra dentro deste mercado de orgânicos e de alimentos naturais. Na cobertura do local, este novo espaço tem vocação para o aprendizado, o lazer, a troca de experiências, brincadeiras e fomento de pequenos produtores. Tudo integrado num fluxo orgânico.

É neste lugar de trocas e de consumo consciente que o MERCADO MANUAL realizou sua 20ª edição, dias 2, 3 e 4/8, com o nome MANUAL DA TERRA. “O Mercado Manual cortou a fita e inaugurou esse espaço que queremos que seja para troca de conhecimentos e de ideias sobre agrofloresta, permacultura, educação, arte... Um local para reflexões e conexões. Um espaço de encontro e para se encontrar”, descreve Ana.

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A TERRA

Essa história começou quando as bandeiras Hortifruti e Natural da Terra foram adquiridas pelo fundo suíço Partners Group (PG) no final de 2017. Um dos sócios do grupo teve uma melhoria na saúde depois de mudança na alimentação ao conhecer os sucos do guru Dada Shivananda e a comida sáttvika, servida nos templos da Índia. Foi aí que ele olhou para esse lugar da comida como um ponto de transformação e de inovação. Mas foi em 2018 que o Allma Hub entrou neste enredo para realinhar a empresa com esse propósito.

“O que poderíamos fazer já que a loja, quando foi comprada e construída, não propôs nenhum diálogo com o bairro?”, questionou Ana, na época. No começo, a empreendedora, que também mora próximo ao Natural da Terra, recorda quão desgastante foi para a vizinhança a construção do mercado. Um lugar gigante que não dialogava com os anseios dos moradores. “Existia ainda um prédio fechado (onde hoje será a Vila da Terra) para o qual havia a pretensão de se fazer um mini shopping, algo que não tem nada a ver com as necessidades do bairro.”

 
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A SEMENTE

O primeiro passo do Allma Hub foi recomendar que o arquiteto Marko Brajovic fizesse o projeto daquela cobertura desocupada no Natural da Terra. “Nós acreditamos que os corpos atuantes num projeto sejam aqueles que estão vivendo as questões daquele espaço. E o Marko, além de ser um grande pensador da arquitetura, e de ter grande sinergia com a proposta, é um vizinho do local”, conta Ana.

Diretor criativo do Ateliê Marko Brajovic, o arquiteto se dedica a implementar conceitos da arquitetura e design inspirados na natureza (biomimética) “Concebemos o projeto da Vila da Terra como um organismo que se integra de forma sinergética e dinâmica com o ecossistema natural e cultural do bairro. Esperamos uma arquitetura metabólica e regenerativa, uma arquitetura permeável e multi-sensorial em simbioses com o seu entorno. Chamamos isso de Permarquitetura”, define.

Junto a Brajovic, também foi convidada a arquiteta e paisagista Daniela Ruiz. “Projetar a Vila da Terra sempre foi ter um olhar permeável com o edifício, consciente da necessidade vital de nossa cidade em espaço contemplativos, livres e acolhedores. Nosso maior desafio era restituir um elo com o bairro”, destaca.

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O CULTIVO

Antes de Brajovic e Ruiz se debruçarem sobre o projeto, outro passo foi fundamental. “Afinal de contas, seria importante chamar as pessoas da comunidade para fazermos juntos e entender juntos a vocação do lugar, sem impor nada”, lembra Ana. Para isso, em janeiro de 2019, os moradores da região foram convidados a participar de rodas de conversa sobre o destino que seria dado àquele espaço e como ele deveria ser. “Foi uma processo de muita escuta, muito debruçar e muitas e muitas trocas. Uma arquitetura que promove a vitalidade, que respeita os ciclos energéticos, biológicos e consequentemente de todos os seres. Permarquitetura é manter o olhar amplificado. Construir dinâmicas espaciais maleáveis, fluidas e regenerativas”, explica a arquiteta e paisagista.

Depois de alguns encontros, e de exercícios de co-criação e prototipação do projeto, a Vila da Terra foi se desenhando. “Um demanda foi que o espaço não fosse suntuoso. Daí surgiu o projeto de ocupar o espaço. E uma arquitetura de ocupação é mais econômica pois reutiliza o material que já havia anteriormente no prédio. Mas também derrubamos muros e criamos rampas”, descreve Ana.

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A COLHEITA

Na reta final das obras para a inauguração no dia 2 de agosto com o MANUAL DA TERRA, já é possível imaginar como vai ser o espaço para talks, o parque do Erê Lab para a criançada, o futuro cinema ao ar livre, bem como o café e o restaurante plant based que serão comandados pelos sócios do Le Manjue. Quem ainda ganha um espaço é o Fechado para Jantar, onde realizará oficinas que desmistificam a cozinha e comida saudável. Também estará presente uma suqueria com as receitas do guru Dada Shivananda, que deram origem a toda essa história.

Outro cantinho muito importante é a Escola da Terra, outro projeto que ocupará a Vila da Terra com atividades voltadas principalmente para crianças e jovens vivenciarem o ciclo de vida de frutas, verduras, flores, legumes e temperos que habitarão a horta que está sendo cultivada no local. Uma escola onde também aprenderão sobre biomas, alimentação e o destino certo dos resíduos orgânicos e não orgânicos que produzimos em nossas casas.

Além disso, a Vila da Terra tem um espaço de coworking, uma grande varanda para desfrutar a vista da Praça das Corujas e um mercadinho onde pequenos produtores e artesãos da vizinhança poderão expor. “Este nosso projeto é beta. Ou seja, vamos testar e aprender juntos. Quando fizemos nossa imersão, eu pensei: quero que depois de cinco anos o que fique seja a imagem de um espaço que foi muito utilizado: por onde muita gente passou e se articulou. Um espaço que deixa um legado”, sonha Ana.

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Texto: Maju Duarte
Fotos e Videos: Daniel Wood / Casa Dobra