Eu te <3 você

EEBB21EB-C027-4EB6-AE5A-3DD88EEA96E1.JPG
 

Pertencer à cidade não é passar distraído por suas linhas retas ou tortas. Tem algo além… Algo de garimpar com os olhos as diferentes expressões artísticas que vestem o espaço urbano. Mensagens, símbolos, desenhos. Algo de se permitir vagar distraidamente o olhar por um lambe-lambe, grafite, estêncil. Deixar seu percurso mudar e ser afetado pela leitura de uma frase como “eu te amo você”, bordada com um tecido rosa-choque nas grades verdes de um elevado da capital paulista. Simples assim, a intervenção (ou declaração de amor) do Coletivo meiofio nos devolve um afeto pelo concreto.

C0266DF0-7109-47D4-A93D-D9D9B484ADDD.JPG

Criado em 2015 por sete mulheres, o grupo cria narrativas poéticas com o suporte do fazer manual (tricô, crochês, bordados) para ressignificar espaços públicos. “Através de fios imaginários e reais, ligamos presente, passado, pessoas e memórias. Buscamos o valor de elementos ignorados e esquecidos da cidade com o objetivo de construir um futuro viável, acolhedor e convidativo”, definem.

Na última quarta-feira de junho, foi a vez de levarem estas narrativas poéticas para o bairro do Bixiga. Mais precisamente para o Canteiro Aberto da Vila Itororó, um centro cultural temporário onde o meiofio recebeu o convite para fazer um “grafite de fios” ou, como o coletivo apelidou, um “gra.fio”. Em vez de desenhos em spray, quadrados de crochê são “pixels” a serem colados na parede para compor uma figura.

Desta ação participaram duas integrantes do grupo: Nara Rosetto, que teve contato com saberes manuais aos oito anos de idade, e Carol Stoppa, que foi aprender a manusear agulhas e linhas um ano antes de entrar no coletivo. Ambas também são arquitetas e deixaram os escritórios para se dedicar 100% aos projetos do grupo. Movidas pela vontade de interferir na forma como pertencemos e habitamos a cidade.

Na Vila Itororó, munidas de tubos de cola e de centenas de quadradinhos de crochê em diferentes tons de vermelho, rosa e amarelo, a dupla mostrou que uma parede vazia da biblioteca poder ter outro sentido. Guiadas pelo projeto Vulva, o nascer para transformações, que propõe uma investigação têxtil de como a mulher se relaciona com seu corpo e com a cidade, elas criaram um gra.fio de duas vulvas distintas, “porque cada uma de nós é singular”, reforça Carol.

IMG_8264.JPG

Através de fios imaginários e reais, ligamos presente, passado, pessoas e memórias


2075B156-5E13-45C8-BD9D-519C52D9684A.JPG

Cobrir para descobrir

No mesmo dia, as artesãs realizaram outra intervenção a aproximadamente 800 metros do espaço cultural. Desta vez, na Rua Pedroso, num elevado de onde avistamos a movimentada avenida 23 de Maio. Em pouco mais de meia hora, outro “eu te amo você” encontra um local para morar e roubar o olhar de transeuntes. “Brincamos de cobrir e descobrir. Ou seja, cobrimos um espaço da cidade de um fazer manual para que as pessoas o descubram”, conta a artesã.

DE3532EF-840D-48C4-9491-B3C61D1CFCF5.JPG

A técnica que o coletivo desenvolveu permite que pessoas menos experientes também possam participar dos bordados urbanos, um dos objetivos do grupo. “Até chegarmos nessa técnica, a primeira vez que fizemos uma frase de poucas palavras, nós levamos um dia inteiro”, lembra Nara. O verso do poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi o primeiro. Pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro foi alinhavado em dezembro de 2016. “Experimentamos o ponto cruz, passamos por um custo absurdo de material até desenvolvermos o bordado urbano com o ponto cheio e encontramos um material acessível”, ressalta Carol.

Na Pedroso, enquanto criam letra por letra, algumas famílias, jovens e crianças curiosas param. “O que raios aquelas mulheres fazem ali?”. Como se a cidade merecesse ser cuidada e elas estivessem a escovar-lhe os cabelos. Como se as grandes vogais e consoantes nas grades sinalizassem que ali também há vida. Uma provocação feita à mão que nos convida a desacelerar e prestar atenção a lugares esquecidos. “É que as intervenções geram uma curiosidade e maior permanência e presença na cidade. Já reparou?”, questiona Nara.

E mesmo quando outros desfazem versos e desenhos do coletivo, as artesãs acreditam que, ainda assim, cumpriu-se um objetivo. “A gente sabe que está, de alguma forma, provocando reações. Estamos provocando afeto, no sentido de carinho, ou afetando, nesse sentido de causar incômodo.”

15A6B94F-7174-4FB2-8B21-6746D1D953A7.JPG

cobrimos um espaço da cidade de um fazer manual para que as pessoas o descubram


Bombardeio de fios

Movimento mundial do começo do século 21, o Yarn Bombing manifesta a necessidade de devolver algo manual, afetivo e orgânico às metrópoles, no contra-fluxo do industrial, distante e mecânico que as habitam. Na cidade italiana de Trivento, o coletivo Un Filo Che Unisce realizará o Yarn Bombing Day (9 e 10 de agosto) e já convidou o coletivo meiofio e outros representantes de São Paulo, do Brasil e do mundo para se juntar. Motivo pelo qual o grupo já organizou uma vaquinha virtual para levar uma de suas integrantes que irá montar a estrutura de 15 metros de crochê para ocupar essa cidade medieval.

“Nosso projeto é levar um padrão que fazíamos há algum tempo: a calçada de São Paulo, desenho criado por Mirthes Bernardes em 1965. Dessa forma, ainda contamos a história desta importante artista que não foi reconhecida por esse trabalho”, conta Carol. Além da vaquinha, outra forma de contribuir é enviar os quadrados de crochê (o grupo ensina num vídeo tutorial) que irão compor essa calçada tipicamente paulistana.

72F0EAE0-E060-4E17-84CB-58E64A184F9A.jpg

Além do meiofio, outros coletivos como o naLã (parceiro da MANUAL) e artesãs como Cris Bertoluci dedicam-se ao bombardeio de fios em São Paulo. Cada qual com sua assinatura e técnica. “Somos todos amigos e trocamos experiências, mas cada um tem uma abordagem. Nascemos da vontade de criar narrativas urbanas próprias, de lançar um olhar diferente sobre as técnicas e encontrar a nossa linguagem”, explica Nara.


A gente sabe que está, de alguma forma, provocando reações


IMG_8263.JPG

Entra na roda

De 2015 para cá, Nara Rosetto, Carol Stoppa, Ieda Yamasaki, Fernanda Damigo, Renata Laureano, Raquel Carrara e Raquel Santiago seguem costurando conexões com as pessoas e a cidade. Seja em projetos financiados por empresas e instituições ou em ações para o terceiro setor. Bibliotecas e escolas também são alvo de oficinas e intervenções do coletivo. Para isso, recebem doações de fios ou reaproveitam o material de trabalhos finalizados e cujo destino seria um aterro.

Nestes últimos meses, o coletivo andou espalhando gorros em diferentes (e sinalizados) pontos da capital para uma campanha de inverno voltada, principalmente, às pessoas em situação de rua. Iniciativas que se somam (e que se fortalecem) pelo número de colaboradoras e colaboradores que participam de um encontro aberto promovido todas as terça-feiras, às 18h30, no café Por um Punhado de Dólares, no Centro de São Paulo. Momento em que o meiofio tece novas relações, tricota projetos, boas ações e quem sabe, prepara a próxima declaração de amor à cidade.

Texto: Maju Duarte
Fotos: Coletivo Meio Fio, Maju Duarte e Camila Visentainer

 
ARTEDani Scartezini