Tati Abreu é fotógrafa. Depois de um curso de comissária de bordo, percebeu que podia viajar o mundo de muitas outras formas. Trabalhou como produtora executiva, quase se casou. Largou tudo e foi estudar fotografia em Barcelona. Na volta, tornou-se mãe de Tito e Maria. Encontrou no universo infantil e das festas íntimas o principal tema do seu trabalho. Capta sempre o detalhe singelo dos acontecimentos cotidianos. Seu olhar emociona. Sua fotografia é poesia.

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“Fotopoesia”. Assim me foi descrito o  olhar da Tati Abreu. Uma fotógrafa que consegue captar e revelar um certo tipo de afeto que, talvez, só exista durante a infância. Seja quando ainda somos crianças ou, mais tarde, quando nos tornamos pais.

Passei a noite olhando as fotos no site do estúdio Barbarella e no blog Tito e Maria todo dia (dedicado aos dois filhos dela), encantada com o olhar delicado, amoroso e, de fato, tão poético. Procurei entender de onde vinha a nostalgia que eu sentia ao olhar para elas… Seria dos grãos? Do amarelado? Por que aquelas fotos me pareciam tanto as fotos familiares da década de 80, feitas por aquele alguém íntimo, cujo olhar era especial?

Vi que a Tati, muitas vezes, optava por usar filme no lugar do equipamento digital e isso sem dúvida fazia parte da magia, mas era mais… O fazer da Tati produz as imagens de festas infantis mais especiais que já vi. Não está na sintaxe, mas na semântica. Está na sensibilidade para captar o detalhe da vida que acontece diante dela, na capacidade de acessar por meio da câmera a própria infância e dialogar com as nossas. Não por acaso, soube mais tarde, foi a maternidade que revelou seu grande talento, esse olhar de quem está tão perto das crianças, completamente envolvida, se divertindo junto a cada descoberta.

A conheci na festa de aniversário do filho de uma amiga. Já a encontrei trabalhando. Não nos falamos. Um tanto sem graça, com receio de atrapalhar, fui seguindo a Tati pela festa, olhando e clicando. Ela é praticamente invisível quando está com a câmera e é assim que ela consegue registrar tão bem a espontaneidade, a atmosfera das festas. Ela olha, ela sorri, ela clica, ela olha, ela sorri…

É sempre bem revelador presenciar outro fotógrafo em ação, mas minha curiosidade continuava. Marcarmos um novo encontro e pude finalmente olhar nos olhos dela. Conversamos por horas sem ver o tempo passar. Fotografia, partos, filhos, escolas, escolhas profissionais… Muita coisa para trocar. Até tentei captar esse papo em vídeo, mas vou poupá-los do resultado (desculpa, Tati, a maternidade me fez desenvolver polegar opositor no pé, mas não fui capaz de te entrevistar, fotografar,  filmar e cuidar do som simultaneamente de forma decente).

Conheci uma mulher corajosa e persistente, capaz de deixar emprego, carreira, um companheiro (hoje marido) e ir para outro país em busca do sonho de ser fotógrafa. Com o dinheiro do trabalho de produtora executiva numa agência de marketing, foi estudar em Barcelona, decidida a tornar a fotografia sua profissão e não apenas tê-la como um hobby.

Quando perguntei quando havia nascido sua paixão pela fotografia, Tati contou que foi no contato com o trabalho de fotógrafos. Um pouco mais de conversa e foi fácil perceber que sua fotopoesia nasceu bem antes. Veio da convivência com seus pais, irmãos, primos e avó. Veio do sonho insistente de viajar o mundo e de uma vida inteira de afeto.

É, Tati, sua prima estava certa: você já era fotógrafa e não sabia.

Conheça a história de Tati Abreu

Das minhas lembranças de infância, guardo os retratos que meu pai fazia, registrando nosso crescimento. Naquela época, sonhava ser comissária de bordo para viajar pelo mundo. Já crescida,  fui atrás desse sonho, mas depois de finalizar o curso, descobri que poderia viajar o mundo sem precisar ser comissária. Segui outros rumos.

A primeira câmera foi presente de aniversário da minha mãe. Eu fotografava as viagens que fazia, mas não eram boas fotos. A fotografia se tornou meu caminho profissional quando decidi deixar o trabalho como produtora executiva em uma agência de marketing para estudar em Barcelona.

Na verdade, comecei a estudar aqui no Brasil, mas percebi que se continuasse aqui trabalhando e estudando, a fotografia seria um hobby, não minha profissão.

Foi um longo caminho até tornar-me profissional de fotografia. Deixei uma profissão formada para aprender outra sem ganhar nenhum dinheiro, investi em conhecimento. Mas, para mim, foi como escutar um chamado.

Na última viagem que fiz, antes de ir à Barcelona estudar, fotografei minha prima, a quem sou muito ligada, com meu afilhado. Ela só revelou o filme quando eu já estava lá e me mandou com uma frase: “ A Tati já era fotógrafa e não sabia”. Me emociono quando lembro.

Mas, a verdade é que tinha muito a aprender.  A primeira dificuldade foi o enquandramento. Andava a todo minuto com minha câmera na bolsa procurando um enquadre interessante, se não fosse incrível eu nem tirava a máquina da bolsa. Morei um ano em Barcelona e tenho poucas fotos.

Mas, aquela cidade foi minha maior mestra. A arquitetura, as cores de lá, a vida das ruas, essa foi minha maior escola.  Quando voltei ao Brasil, fiz estágio em alguns estúdios de fotografia, moda, still, mas nada tocava meu coração. Até que tive uma filha e muitos sobrinhos… Comecei a ver beleza no coditiano deles.

E é isso o que ainda mais me encanta, deixar registrado a delicadeza dos dias, a vida em movimento. O que busco expressar com minha fotografia é a a vida. As pessoas vivendo, cada uma do seu jeito, cada dia diferente do outro e também todo dia igual. O café da manhã, o almoço e o jantar, mas sendo cada momento um minuto que não volta. A vida acontecendo, com beleza, com sentimento, com emoção.

Acho que a principal característica do meu trabalho está justamente nos detalhes dessa vida em movimento. Um pé descalço, um sorriso espontâneo, um olhar único. Não fui eu propriamente que escolhi retratar o universo infantil. Foi ele que me escolheu. As atitudes das crianças, a espontaneidade delas… Chama minha atenção o jeito que desvendam o mundo. E com elas consigo ficar invisível. Não me enxergam, não olham pra mim, e eu fico observando e registrando.

Fotografar esse universo em festa foi ideia de uma amiga, diretora de criação da primeira agência que trabalhei. Ela acompanhou todo meu processo e sempre via as fotos que eu fazia dos meus sobrinhos. Um dia, me chamou para fotografar a festa da filha de cinco anos. Foi ela quem descobriu o que sei fazer de melhor.

O conceito de fotopoesia, que é como defino hoje minha linguagem fotográfica, também foi criado por ela, a Ana Paula Dugaich, essa amiga querida que sempre escrevia assim quando falava de mim pra alguém. Eu aderi.

É o registro do momento que não volta mais que me importa. Não perco a cena. Movida, desfocada. E isso é justamente o que acho que atrai as pessoas que buscam meu olhar: a espontaneidade registrada com emoção, com poesia.

Minha grande inspiração é observar o crescimento dos meus filhos. É um grande previlégio poder trabalhar e cuidar deles de perto.  Resolvi empreender porque quero ser uma mãe que eles se orgulhem, uma mãe que eles olhem pra trás e digam: ela fez, isso, isso, aquilo…além de me dar amor todos os dias.

Esse amor fica também registrado no blog Tito e Maria Todo Dia, que é um diário fotográfico que faço da infância dos dois. Um presente que quero deixar para eles. Transformar o blog em livro/álbum é uma meta minha, porque o blog é uma ferramenta que ajuda a organizar os momentos. Mas, é preciso imprimir as fotos.

Um sonho em relação à fotografia é descobrir outro olhar.  Gosto de pesquisar livros antigos de arte, tenho pouco tempo para ir ao cinema, mas se vou fico muito atenta aos enquadres, às cores. Mas, não sei se tenho um processo criativo… Acho que vou captando de tudo um pouquinho. A fotografia para mim é alegria. Volto para casa de um trabalho repleta de energia, me sentindo feliz e é isso o que amo tanto nesse meu fazer.

“A fotografia para mim é alegria. Volto para casa de um trabalho repleta de energia, me sentindo feliz e é isso o que amo tanto nesse meu fazer.”

Texto Gleice Bueno Fotos Tati Gleice Bueno