“Ser manual é ser livre. Tudo o que sou e acredito está nesse gesto”

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Água e farinha. Estes são os principais ingredientes do pão, alimento que nasceu na Mesopotâmia e ganhou no Egito antigo uma forma parecida com a que conhecemos hoje: macia e fermentada. Vitoria Dworecka leva para a cozinha toda a responsabilidade de produzir, com as próprias mãos, um alimento que faz parte da história do homem ao nutrir tantas civilizações. Desde 2002, ela doa a força de trabalho e o próprio nome à Vitoria Pães Artesanais, um projeto que vende pães frescos de altíssima qualidade, por assinatura. O preferido dos clientes é o feito 100% com farinha integral, mas a gama de opções é grande: tem de ervas, de nozes, de especiarias e de castanhas.

A paixão de Vitoria pela cozinha é coisa de família. Desde pequena ela entendeu que a comida conecta as pessoas. “Sempre cozinhei”, orgulha-se. Em 1980, seu primeiro filho, Marcelo, começou a comer pão e, como não encontrava opções de boa qualidade no mercado, a mãe de primeira viagem decidiu colocar a mão na massa. Garimpou ingredientes naturais e desenvolveu uma receita para alimentar a família, inspirada em uma fórmula indiana. Aos poucos, a psicóloga virou padeira e o que era coisa de família se transformou em um negócio. “Não fundei o projeto. Comecei quase de brincadeira e fui sendo enredada”, conta.

Ela diz que o empreendimento caseiro se desenvolveu de um jeito orgânico, sempre na busca por atender a demanda das pessoas por um alimento fresco, natural. “Nasceu o pão por assinatura e passamos a contar com um portador na equipe para fazer as entregas.” Aos poucos, as delícias feitas por Vitoria entraram na casa de clientes, adaptando-se aos horários e preferências. Hoje o projeto conta ainda com a ajuda de três pessoas na cozinha e entrega. Além do próprio pão, geleias e queijos feitos por outros pequenos produtores estão na lista.

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

CRESCER COM CALMA (E ALMA)

A própria Vitoria passou a fazer um novo produto, a Ghee, manteiga clarificada que também foi desenvolvida primeiro ao lado dos filhos, praticantes de ioga, e depois ganhou espaço com outros clientes e famílias. “Começamos a vender na escola em que eles praticavam, depois em outra bem maior e, mais tarde, fomos convidados por um empório para oferecer nosso produto ali.” Com a evolução do projeto, Vitoria percebeu que a paixão dela não está somente em fazer pães, mas na busca constante por refinar sabores, buscar sempre algo mais especial, mais sutil:

 

“É um fazer amoroso. É a curiosidade, a paixão, o deslumbramento que me movem. Quero o sabor mais incrível, a textura mais especial e a melhor harmonia para mim e, principalmente, para o outro”


 

Ela acredita na força que suas receitas têm de criar momentos em que as pessoas estão juntas, compartilhando e cultivando boas histórias. A partir dos dois produtos que vende hoje e da longa história até aqui, Vitoria percebe potencial para crescer, desenvolver novos sabores e chegar a mais pessoas. Ainda que a proporção aumente, ela não abre mão de seguir fiel ao que a trouxe até o presente: o fazer artesanal.

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

 

“Ser manual é ser livre. É trazer para as minhas mãos a possibilidade, a realização. Tudo o que sou e acredito está nesse gesto”


 

Ela diz que o seu fazer é sempre um processo de introspecção. Por isso, a pressa e a ansiedade ficam fora da cozinha. “Não se faz um bom pão rapidinho. Não se faz um bom ghee sem muita calma, muita paz. Talvez um restinho daquela Vitoria que escolheu ser psicóloga está nessa cozinha pequena e no prazer que eu tenho de atender a cada um”, diz, reconhecendo-se no negócio que construiu de forma tão natural, fiel à própria verdade.


Foto Vitoria Dworecka para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Rede Manual e Casa Dobra

 
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