“Ser manual é se encantar com a transformação”

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Trabalhar com cerâmica é encarar, todo dia, a possibilidade de criar algo novo. Transformar barro e água em uma peça útil, bonita. É justamente este enorme potencial de mudança que atraiu o olhar de Patrícia Carvalho e Renata Levi. A advogada e a arquiteta se conheceram durante um curso de cerâmica. Se tornaram amigas ao reconhecerem uma na outra a paixão por aquele processo e o desejo crescente de fazer do trabalho manual o principal fazer e fonte de renda.

Decidiram se juntar, formando uma dupla para trocar ideias e compartilhar o processo criativo, ainda que mantenham produções separadas, mas que conversam entre si. “Unimos gostos, estéticas e técnicas”, diz Renata. É uma simbiose. O trabalho colaborativo acalenta incertezas e serve de impulso para que as artesãs deem novos passos, conforme conta Patrícia:


 

“Quando nós duas decidimos começar a vender o nosso trabalho em bazares e mercados foi muito importante ter uma parceria. Isso traz segurança na hora de pisar em um novo terreno.”

 

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

HÁ DESAFIOS, MAS HÁ RECOMPENSAS

O apoio mútuo é essencial dentro do projeto das duas de mudar de carreira, tornando a cerâmica a principal atividade. Elas contam que o processo não é simples, mas estão determinadas a fazer dar certo. “Percebo que o feito à mão é cada vez mais valorizado, mas ainda não é totalmente reconhecido. É um sonho, uma paixão, mas é difícil de pagar todas as contas. Por isso, inverti as coisas: hoje sou uma ceramista que faz bicos como arquiteta”, brinca Renata, contando que já virou a chave para se concentrar mais no ateliê.

Patrícia está em momento parecido: mantém alguns clientes de carreira como advogada, mas está mais presente em seu fazer manual. “Hoje 80% do meu tempo é dedicado à cerâmica”, conta. Ela começou a desenvolver sua técnica como hobby e lembra que, aos poucos, foi despertando para a nova possibilidade. “São 20 anos de maturação”, brinca, lembrando que, pouco a pouco, o processo de transformar argila em objetos passou a ficar mais e mais presenta na vida dela.

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

Além do desafio financeiro, Patrícia percebe outra questão importante para os artesãos. “É difícil determinar o tamanho que você quer ter. Mesmo com o feito à mão, é possível ser micro, pequeno ou um pouco maior, com uma equipe”, diz. A opção dela foi por fazer tudo sozinha. “Há um limite na minha produção, mas a minha escolha é cuidar de todos os processos”, conta. Há cada nova etapa da cerâmica, há uma série de possibilidades e escolhas que se abrem. A delícia, diz Patrícia, está em desfrutar cada uma delas. Renata atua da mesma maneira, como conta:

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra


“Não é só fazer as peças. Tem o trabalho pesado de reciclar o barro, que exige esforço físico, e a alquimia que envolve o desenvolvimento dos esmaltes. Preciso estar presente no todo”


Quando desenvolve um novo produto, ela usa o olhar refinado de arquiteta: “É tudo muito envolvente. As formas surgem naturalmente para mim. É uma construção”.

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

SER MANUAL É SE DESLUMBRAR COM A CRIAÇÃO

Para Patrícia, o seu fazer manual está relacionado com a capacidade de se deslumbrar. “Ser manual é ter o encantamento pela transformação. O que mais me fascina é a possibilidade de criar alguma coisa do nada, fazer algo que me surpreende e que vai encantar outras pessoas”, diz. Para ela, o maior valor de seu trabalho não está na conversão financeira, mas nas outras trocas que ele pode gerar. “É quase como uma doação. Entrego para o mundo as minhas criações e, nos mercados, recebo a curiosidade das pessoas que vêm olhar, me perguntar, conversar sobre as ideias e necessidades delas.

Renata concorda. Ela acredita que a amizade e a colaboração estão entre os fatores que enriquecem seu trabalho individual. “Ser manual é trabalhar coletivamente, pelo bem comum. Não é fazer só pelo dinheiro, mas seguir aquele caminho porque é o que realmente acreditamos.”

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto Patrícia Carvalho e Renata Levi para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Floristas e Casa Dobra