“Precisamos de histórias que olhem além do lucro, que se baseiem na nossa verdade”

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Há cinco anos Ligia Meneghel começou a Okan sem uma ideia muito clara de onde a marca a levaria. O projeto nasceu em parceria com uma amiga, Tania Sidokpohou, que tinha parentes de Benim, na África, e um dia propôs de as duas organizarem um evento temático e venderem algumas roupas do acervo familiar. “Tudo era tão interessante, com misturas inusitadas de cores. As modelagens eram bem típicas de lá, então desconstruímos peças, transformamos em vestidos”, conta Ligia. A festa despretensiosa, ali no jardim da casa dela, foi um sucesso e o embrião da marca.

“Começamos a pesquisar tecidos, comprar lá e trazer para o Brasil. Aqui criamos peças com a nossa linguagem e jeito de vestir”, conta. Ela ainda trabalhava em uma empresa de roupas quando começou com o projeto em paralelo. Meses depois a companhia em que era funcionária saiu do Brasil e as coisas pareceram se ajustar: com mais tempo deu para concentrar esforços na Okan, fazer o negócio virar.

Aos poucos colocou em prática o conhecimento que adquiriu no curso de modelagem e criou uma variedade de peças. Ao mesmo tempo, conta, começaram a proliferar eventos de pequenos produtores, como o Mercado Manual, e a Okan ficou mais próxima do público, que se encantava pelas roupas diferentes, cheias de cores. Ligia confessa, no entanto, que planejar nunca foi seu forte.

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra


 

“Fui fazendo parcerias, colaborações com marcas e artistas e tudo aconteceu de um jeito bem natural. Nunca tive um plano de negócio e até hoje a minha planilha financeira é confusa”

 

PAIXÃO PELOS TECIDOS

Em cinco anos de Okan, além de encontrar o público para a marca, Ligia conseguiu algo ainda mais recompensador: descobrir e se apaixonar por uma nova cultura. Ela diz que a África foi uma das surpresas mais incríveis que ela teve em todo o processo. “Quando cheguei no Senegal pela primeira vez passei uma semana tentando me situar. Nada tinha relação com os estereótipos que eu carregava. Foi uma ruptura”, conta. Ao deixar de lado os conceitos equivocados, ela abriu espaço para entender a cultura local. 

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno


“Os tecidos contam histórias através do tempo e mostram outra relação com a roupa. Não há lojas com um monte de peças prontas, reproduzidas em grande escala. Você compra o tecido, decide entre algumas modelagens tradicionais e a roupa é cortada e costurada sob medida”


Ela trouxe este conceito para a Okan. Todos os tecidos chegam em pequenas quantidades, o que permite a produção de apenas algumas peças. Se a cliente preferir, pode escolher primeiro a estampa e selecionar entre as modelagens disponíveis para que a produção seja feita sob medida. “Mantemos sempre os nossos modelos básicos. A novidade está nas estampas. Em paralelo apresentamos coleções cápsula”, conta. No inverno, por exemplo, ela produziu peças de tecidos mais pesados, feitos em teares manuais. A marca também prepara o lançamento de roupas infantis que reaproveitam retalhos de tecido para fazer colagens e apliques de figuras.

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

SOBRE LUCRO E VERDADE

A identificação com a cultura em que a Okan se baseia foi tanta que Ligia virou estudiosa dos panos africanos. Primeiro ganhou um edital do governo e foi até o continente pesquisar a produção industrial e artesanal dos tecidos. Depois decidiu se aprofundar e transformar o estudo em sua tese de mestrado em Estética e História da Arte, que está em curso.


 

“Ser Manual é não fazer só pelo lucro, mas construir uma história que se baseie na minha verdade, naquilo que me atravessa emocionalmente.”

 

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

Ao longo da trajetória da Okan, Ligia ficou sozinha na marca. Uma mulher branca à frente de uma empresa cheia de inspiração negra. A sócia dela, de ascendência africana, foi morar no Marrocos. Diante da efervescente discussão sobre apropriação cultural, ela faz questão de se posicionar. Para ela, há uma diferença importante entre se apropriar de um momento comercial, lucrar com uma tendência, e desenvolver uma pesquisa aprofundada justamente para valorizar e difundir uma cultura.

“Me chamaram para dar aula de moda africana recentemente e eu recusei por saber que aquele espaço não era meu. Não sou de lá e o que faço não é moda africana, mas moda brasileira com tecidos trazidos de lá.” Assim, cheia de respeito e verdade, ela também trabalha como divulgadora do que aprende. Um dos meios para isso são as oficinas que oferece em diversos lugares, incluindo unidades do Sesc, em CEUs e no próprio Mercado Manual. Tudo para espalhar uma imagem da África mais distante dos estereótipos e próxima do que ela mesma encontrou ao ir para lá.

 Foto: Estúdio Barbarella

Foto: Estúdio Barbarella

Foto Ligia Meneghel para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Rede Manual e Casa Dobra