“O meu fazer é sobre curar a fome da alma. Isso é ser manual”

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Amor e Axé. Estes são os principais ingredientes dos incensos e banhos naturais que a Primeira Folha oferece. Tem também muitas ervas, raízes, folhas e, principalmente, as mãos e intenções de João Diel, o fundador da marca. Filho de santo, ele faz cada produto seguindo preceitos da pureza ritual do candomblé. “É como uma farmácia, mas no lugar de cuidar dos males do corpo, dou alimento para curar as angústias da alma”, diz ele, que se orgulha de ter um fazer ligado à própria fé. “É sobre fome, sobre sanar a fome que as pessoas têm”, acredita, garantindo que esta é a sua forma de ser manual.

Fundado em 2010, depois que João se apaixonou e se iniciou no candomblé, o projeto cresceu com o aumento dos mercados de artesãos e pequenos produtores. Formado em letras, com mestrado em educação, desde o começo da Primeira Folha, ele colocou toda a sua fé ali. De tanto acreditar e fazer, os caminhos se abriram. “Comecei em Campinas, participando de algumas feiras, passei a vender também na internet e me mudei para São Paulo em 2013. Passei a estar presente em todos os eventos que conseguia e tive o desafio de aumentar a minha produção”, conta.

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

SOBRE AMADURECER

No começo era ele quem fazia tudo: da produção do incenso à colagem de etiquetas. Com o tempo, precisou amadurecer o negócio, aprendeu a delegar. Hoje a irmã ajuda nas embalagens e o Estúdio Cestari é responsável pelo design que tanto valoriza os produtos feitos pela marca. “É um parceiro muito importante para a Primeira Folha, que me ajudou a enfrentar essa luta de entender o valor do que a gente faz. Esse é um processo muito difícil para o pequeno produtor.” Tem coisas, no entanto, que ele não pode delegar, como a reponsabilidade espiritual que carrega do candomblé e usa para fazer cada produto. “Tem que ter a minha mão, empresto ela para a transformação das ervas em incensos.”

Seu maior desafio, diz, é lidar com a burocracia que permeia qualquer negócio, até os mais criativos. “Essa organização administrativa é terrível para mim. Sou muito enrolado”, diz. Ele entende que estas funções desencorajam até os empreendedores mais apaixonados.


 

“É muito difícil colocar aquilo que fazemos com o coração e com a alma em uma estrutura burocrática, que respeite e conviva com o nosso tempo”

 

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Ainda assim, João vive do seu fazer desde que começou. Coloca ali a sua alma e, em troca, tem seu sustento. “É um orgulho imenso, é muito gratificante”, diz com a simpatia e simplicidade com que trata todo mundo que chega no espaço da marca para conhecer os produtos em cada Mercado Manual. Antes de se dedicar ao projeto, foi professor de inglês e teve uma editora, a Império do Livro, que publicava histórias de mistério, mas “não tinha muito tino comercial”, admite. Era um fazer movido pelo amor de João pelo tema – algo que se repete na Primeira Folha.

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

 Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto: Leonardo Sang / Casa Dobra

O PROCESSO CRIATIVO É TAMBÉM ESPIRITUAL

Cada criação da Primeira Folha nasce de cuidadoso processo de escuta dos anseios e angústias que João carrega dentro de si e também das necessidades que as pessoas expressam. “É sobre ouvir, entender o que cada um carrega no coração e pensar em produtos que possam ajudar neste processo”, conta. “A tradição é de uma riqueza infinita. Toda erva, toda grama, toda folha é santa e tem seu mistério. Tudo pertence à Katendê”, diz, citando o senhor das florestas, tão presente em seu fazer.

A fé de João tem um tanto de luta e resistência, assim como a de tantas pessoas fiéis a religiões de matriz africana. Ele cita a ação do Ministério Público do Rio Grande do Sul, proibindo o abate de animais nos rituais de oferenda aos orixás, algo tradicional no candomblé, julgada e suspensa no começo de agosto. “Se apropriar do discurso de proteção aos animais e usá-lo contra terreiros, contra uma religião de tradição preta, é perseguição institucional”, diz, lembrando que estas tradições sempre foram alvo de preconceito no Brasil, grande parte disso, entende ele, como expressão do racismo.

Por outro lado, ver a Primeira Folha dar certo tem significado maior para João. Ele entende que não essa vitória não é só da marca, mas de toda a tradição que ela carrega. “Tem uma reza que cantamos em dia de festa”, diz, cantarolando a letra que quer dizer: “eu era uma árvore pequena que não fazia sombra para ninguém. Hoje sou uma árvore grande e posso proteger os meus irmãos”. É assim que João diz se sentir. “Ter o privilégio de ocupar este espaço também significa que posso fazer sombra para que outros projetos com raízes tradicionais surjam, trazendo a força do axé.”

 Foto: Gleice Bueno

Foto: Gleice Bueno

Foto João Diel para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Floristas e Casa Dobra