“A diferença entre o manual e o industrializado está na qualidade das relações humanas”

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Água, malte, lúpulo, levedura e tempo. Dessa simples mistura e suas sutis variações surgem as imensas possibilidades da cerveja, com diferentes cores, sabores, teores alcoólicos e nutrientes. Há nove anos Fred Ming mergulhou neste universo ao fundar a Capitu, cervejaria que começou na cozinha da casa dele e ganhou força, prêmios e consumidores pela qualidade. “No começo todo mundo achava que fazer cerveja era algo impossível, que só as grandes indústrias conseguiam. A verdade é que a bebida foi criada há 10 mil anos na Suméria, em paralelo com o desenvolvimento da agricultura. Nunca precisou de muita tecnologia e as melhores, inclusive, são feitas de forma artesanal”, conta.

Ele diz que o mais importante é ser generoso nos ingredientes, investindo em matéria-prima de qualidade, e dar tempo para que a magia aconteça, unindo na bebida as qualidades do que antes estava isolado. São, em média, quatro semanas até que o primeiro copo possa ser consumido em um processo natural, que não conta com elementos adicionais para acelerar a fermentação. Fred diz que a honestidade no processo garante que a bebida se transforme em alimento, com enzimas, aminoácidos e propriedades antioxidantes, se for consumida com moderação.


 

“A boa cerveja é muito parecida com o bom vinho em suas propriedades.”

 

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O FIM DE UM CICLO, O COMEÇO DE OUTRO

Antes de ser cervejeiro, Fred se formou em arquitetura e montou um coletivo de artes visuais. Eram arquitetos que construíam mundos: ambientes virtuais, cenários, artes plásticas, e mixagem de artes visuais ao vivo como VJs. “Acreditávamos na arte para mostrar recortes, dialogar sobre as urgências da cidade ou, o contrário, apontar as coisas que ninguém enxerga”, lembra. Com 10 profissionais, logo o grupo esbarrou no dilema entre a pura expressão artística e o desafio de ganhar a vida. “Acho que todo mundo que trilha esse caminho passa por algo parecido. Nós acabamos nos aproximando do mercado de publicidade, desenvolvendo trabalhos para agências.”

Este desvio na rota foi a solução financeira que precisavam naquele momento, mas acabou levando Fred para um terreno em que ele não se sentia tão confortável. “Não queria usar o meu conhecimento e a minha linguagem para convencer pessoas a comprar o que elas não precisavam”, diz. Assim, o grupo foi se desintegrando e ele aproveitou o fim do ciclo para fazer uma viagem de férias e pensar em qual rumo seguir a partir dali.

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Foi visitar uma amiga que estava estudando na Alemanha. Ela vivia em um squat, ocupação de artistas comum em Berlim. “Era em um vagão de trem abandonado e tivemos que consertar o teto para que ele suportasse o inverno. Um dia o Hans, um alemão que conheci lá, viu uma flor do lado de fora e pediu que eu pegasse para ele. Era o lúpulo que ele precisava para fazer cerveja”, conta. Assim, Fred estendeu a viagem e aprendeu com Hans o processo. Voltou para São Paulo inspirado a tentar em casa. Se juntou ao amigo Marcelo Holl Cury, testaram as primeiras receitas e a coisa foi deslanchando. Hoje seguem sócios na Capitu.

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A DOR E A DELÍCIA DE UM NEGÓCIO ARTESANAL

Com a Capitu, a busca de Fred sempre foi por desenvolver cervejas autênticas, com enorme respeito ao processo natural. “Conheço cada bolha da minha bebida e respeito as variações inevitáveis do processo e do produto natural.” Ele alerta, no entanto, que nem sempre um projeto artesanal vive no próprio ritmo.

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“Existe a parte artística e manual, mas existe também o desafio de administrar o negócio e viver acelerado para cuidar dos processos, da logística, dos custos. É um sonho, mas ele não se resume apenas à parte boa.”


Os desafios são grandes: a legislação brasileira cobra imposto maior de pequenos cervejeiros, que chegam a pagar 65% em tributos, enquanto as grandes indústrias recolhem 35%. É preciso disposição para ganhar espaço em um terreno de gigantes, que largam com enorme vantagem, mas Fred encara a missão convicto de que o maior privilégio está do lado dele. “A grande diferença entre o manual e o industrializado é a qualidade das relações humanas. O que me move são as histórias. O mais legal de fazer cerveja não é produzir uma garrafa, mas tomar ela com outras pessoas e ouvir as histórias e as vivências que nascem a partir disso.”

Ele complementa: O termômetro de sucesso do que é feito à mão está nas histórias que o produto traz. Foi assim que, há três anos, ele encarou o desafio de produzir uma Capitu sem glúten, adequada para celíacos. “A minha mãe desenvolveu uma alergia e não podia mais provar o que eu fazia. Para mim, criar algo sem glúten não foi apenas fazer mais uma cerveja, mas desenvolver uma bebida que resolve a exclusão alimentar que uma série de pessoas enfrenta”, conta.

Se a busca é por reunir pessoas, ele está certo de que a Capitu tem mais potencial do que qualquer cervejaria enorme. “Uma indústria emprega dois funcionários a cada 200 litros produzidos, nós reunimos oito pessoas a cada 500 litros”, diz. Para Fred, a cerveja verdadeira é feita de troca: desde a mistura dos ingredientes até a boca de quem degusta.

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Foto Fred Ming para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Floristas e Casa Dobra