Moda sustentável da ONG Reviva leva água, educação e esperança para brasileiros e africanos

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Beatriz Marcelino, 23 anos, faz parte da maior geração jovens que já houve na história. Uma faixa etária que, de acordo a Organização das Nações Unidas (ONU), tem nas mãos a chave para uma mudança positiva no mundo. Com esse intuito, em 2013, a ativista e empreendedora social fundou com os pais, Camila Marcelino e Alexander Lopes, além do amigo Bruno Silvestre, a Organização Não Governamental Reviva em São Paulo.

No começo, a ONG se dedicou exclusivamente ao trabalho com moradores de rua e usuários de drogas em São Bernardo do Campo (SP). Mas desde 2015, a organização provê água para crianças e mulheres em áreas remotas de Moçambique. Dois anos depois, ergueram uma escola em Nampula, norte do país africano. No ano passado, construíram uma creche para meninos e meninas de quatro a seis anos do Jardim Gramacho, bairro do município de Duque de Caxias (RJ), que já foi o maior lixão da América Latina entre 1976 e 2012.

Além de doações financeiras recebidas, uma das principais fontes para a realização trabalho da ONG é a venda de roupas confeccionadas por costureiras que são parceiras da Reviva. São camisetas com mensagens como: “Amor sempre vence” ou “Basta ser gente para outra gente”, frase que Bia leva consigo, tatuada no dorso da mão direita. Uma coleção que permanece como carro-chefe da organização e que foi, inclusive, um dos destaques no Mercado Manual de 2017 e de 2018.

Ao perceberem que a moda poderia impulsionar e dar continuidade a todos esses projetos, os sócios-fundadores da ONG decidiram criar uma marca de roupas em meados de 2018. Um acervo de saias, macacões, vestidos, blusas e outras peças costuradas pela equipe da Reviva a partir da capulana (tecido típico moçambicano) comprada diretamente de feirantes em Moçambique. Assim nasceu a Voz, um empreendimento econômico solidário que pertence à Reviva e que visa dar protagonismo a cada um dos responsáveis por essa cadeia sustentável. Atualmente, cada produto vendido proporciona acesso a água potável, alimento e educação tanto no Brasil quanto na África.

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Em entrevista, a jovem ativista e empreendedora social fala sobre como nasceu a ONG, de que forma a moda possibilitou o desdobramento de novas ações da organização, inclusive a abertura, em dezembro de 2018, da Casa Reviva, em São Paulo. Um espaço para oficinas de saberes manuais e venda de produtos de pequenos artesãos de vários estados do Brasil.

O que motivou a criação de uma organização não-governamental com apenas 17 anos de idade?

Sempre tive vontade de ajudar as pessoas e cresci num lar bem militante, onde meu avô era de movimento sindical. Cresci com essa semente da justiça: se eu tenho dois o outro também tem que ter dois. Aos 17, criei com meu amigo Bruno a ONG Reviva. Na época não podíamos abrir por sermos menores de idade e meus pais entraram como sócios-fundadores também, além de outros amigos. No começo, éramos 11. Nosso primeiro trabalho foi com moradores de rua em São Bernardo. Como eu sempre quis ir para a África, quando fiz 18, me inscrevi para um trabalho voluntário e consegui ir para Moçambique em 2013. Me apaixonei por lá. Descobri que minha vida não cabe numa sala de aula ou numa corporação. Foram somente 20 dias, mas o suficiente para mudar minha vida.

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O que mais impressionou nessa viagem à África?

Lá eu fui abrindo mão de tudo. Doando roupas, sapatos... Visitávamos comunidades distantes, trabalhávamos com crianças, levávamos material escolar e treinávamos algumas pessoas para serem educadores. Me envolvi muito com a Madalena, que cozinhava para toda a equipe de voluntariados. Quando me perguntam se temos uma África no Brasil, respondo: Não mesmo. Meu parâmetro de pesquisa foi a higiene básica. Há mulheres sem acesso à absorvente, desodorante, shampoo. Em Moçambique também não tem escola pública ou programas sociais de governo. Para se ter uma ideia, há mulheres que se prostituem para comprar um lápis pra escrever. Quando voltei para o Brasil, demorei um ano para me reequilibrar. Minha família e o Bruno acabaram se envolvendo nessa história comigo. Vimos que nosso trabalho era ajudar essas comunidades.

Depois desse trabalho como voluntária, como foi esse retorno para lá?

Em 2015, fui para Nampula, em Moçambique, para instalar o primeiro purificador de água do local, enviado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A doação era um teste que já estava sendo feito em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foi nessa época, inclusive, que conheci e eu adotei Faisao, um menino com vários problemas de saúde. No ano seguinte, instalamos o segundo purificador. Foi quando a gente criou um programa voltado para jovens que não conseguem permanecer na escola. O objetivo é que participassem de um curso de capacitação para ser auxiliares de professores nessas escolas comunitárias que existem em regiões remotas de Moçambique. Como não tinha como pagá-los, criamos uma forma de voluntários no Brasil ajudarem com uma doação mensal para esses jovens estudarem.

Hoje qual a realidade desses jovens que a ONG conseguiu atender com as doações?

Hoje temos universitários. Gente que vai se formar dentista, médico ou professor por causa de R$ 100 reais/mês. Aqui, no Brasil, se olharmos de maneira geral, temos meios e programas de governo que nos ajudam de alguma forma. Lá não tem nada. Já em 2017, erguemos um escola chamada Pipela, “verde” na língua macua, falada na região norte de Moçambique. Uma escola verde numa comunidade a pouco mais de 100 quilômetros de Nampula, onde as crianças não esquecessem de onde são e valorizassem suas raízes. A cultura africana conscientemente ou inconscientemente é menosprezada. E eles sabem disso. Por isso a ideia nunca foi levar nosso mundo daqui para lá.

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Cresci com essa semente da justiça: se eu tenho dois
o outro também tem que ter dois


 

De onde vem tanta energia e coragem para trabalhar em locais de tanta miséria e, inclusive, sob o comando do tráfico de drogas, no caso do Jardim Gramacho?

Não tenho medo. Sempre quis trabalhar em lugares de guerra, troca de tiro. Daí fui parar no Rio de Janeiro, onde se morre mais do que em conflitos armados da Síria. No caso do Jardim Gramacho, consegui entrar com a ajuda de ONGs que toparam me ajudar e, claro, com a permissão dos traficantes. Eu estava na África há anos e achei que nada mais fosse me chocar, mas me chocou. Lá as pessoas constroem suas casas com o resto do lixo. O caminhão de frutas e verduras que passa por lá, joga a xepa das feiras sobre o lixo. Muita gente foi trabalhar lá numa época em que o analfabetismo era enorme, e lá criaram seus filhos, que também não foram para a escola e ajudam os pais a catar lixo. A água de lá é liberada uma vez por semana de um único duto. Quem tem bomba tira água, quem não tem aluga e enche seus barris, aguardando a próxima vez. Crianças com chicungunha e dengue é normal, que nem resfriado. E a maioria das pessoas é usuária de drogas.

E como foi o trabalho realizado com os moradores?

Quando chegamos lá, fizemos um questionário enorme e batemos de casa em casa para saber cada uma das dificuldades e demandas de lá. Descobrimos que há 50 ONGs ali e o lugar permanece o mesmo há mais de 20 anos. Por que? Porque as pessoas só fazem caridade. Ninguém pensa em criar uma empresa ali e empregar os moradores, capacitá-los, dar a eles uma oportunidade. Doam roupas, mas as pessoas nem tem água para lavá-las. Dão geladeira, mas eles não têm energia. Ninguém tem a dignidade de comprar sua própria geladeira ou de construir sua casa de cimento. Era isso que eu queria fazer. Aí conheci a Claudia, que tem uma igreja, mas que abre o espaço para todos por ser o único lugar com água, onde as pessoas podem sentar para conversar com ela, ou desabafar. Na hora pensei, vou trabalhar com a Claudia. Ela já teve um barraco e construiu um galpão. Por isso, sugeri que a gente erguesse uma escola lá dentro. Voltei em fevereiro de 2018 para construirmos.

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A ONG já está colhendo resultados positivos dessa ação social?

Hoje são atendidas 45 crianças, todas de quatro a seis anos. Funciona como uma creche para as mães que precisam trabalhar e não tem com quem deixar os filhos. Lá as crianças estudam, mas a prioridade é que se alimentem e tomem banho. É a Claudia quem cuida desse time todo, mais três voluntárias.Também demos oficinas para que algumas crianças que já começavam a ser “olheiras” de tráfico para aprender a fazer biscoitos, porque sabemos que essas atividades manuais também curam. Com isso, as crianças podem vender os biscoitos e levar esse dinheiro para casa. E nós já conseguimos alguns pontos de venda para que eles não voltem para o tráfico.

Além de doações, de que forma as camisetas confeccionadas arrecadaram mais recursos para os projetos da Reviva?

Começamos a vender camisetas pelo nosso Instagram. Até hoje elas são nosso “pão francês”. As camisetas nos ajudam a manter os projetos que realizamos no Brasil, a exemplo de São Bernardo e do Jardim Gramacho no Rio de Janeiro, bem como na África. Foi por causa da camiseta, aliás, que conhecemos, também na rede social, a Rede Manual. Mandei um e-mail e nem acreditei quando me responderam. As sócias da Rede acreditaram no nosso propósito e em 2017, participamos, pela primeira vez, do Mercado Manual. Na época, só tínhamos as camisetas e algumas fotografias das ações da ONG. Percebemos que precisávamos de mais produtos para expor. Então, fizemos uma parceria com a Acolá que criou bolsas com retalhos de sobras de capulanas que trouxemos de Moçambique. Aquela foi nossa primeira coleção de moda. Com o dinheiro que ganhamos das venda no Mercado Manual, conseguimos pagar nossas costureiras, compramos mais tecidos e fizemos um festival de música autoral com parceiros em São Bernardo, no qual participou a cantora Ana Cañas e outros artistas. Por causa deste festival, um amigo nos ajudou a abrir nossa primeira loja no Golden Square Shopping. Hoje meu pai cuida dessa loja, além de trabalhar com os moradores de rua da cidade.

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Nossas peças são o resultado da valorização e da voz de cada um dos protagonistas desta cadeia sustentável


 

Depois dessa coleção feita de sobras de capulana, como tiveram a ideia de ampliar o uso deste tecido?

Entre final de 2017 e 2018, voluntários da ONG e eu começamos a trazer tecidos vendidos em Moçambique, cujas estampas são do sul da África. Lá eu descobri que a maioria dos tecidos não são mais confeccionados no continente africano e sim na Índia, que viu o poder deste tecido que os africanos compram para fazer roupas, toalha de mesa, sling, absorvente, fralda para o filho, bolsa para colher frutas, carregar lenha, roupa, etc. Tudo gira entorno das capulanas. Mas nós compramos os tecidos dos africanos que formam suas barracas nas ruas e, dessa forma, fomentamos essa economia local. Muita gente de lá sabe que eu volto para comprar diretamente deles. Esse ano, devo ir pra lá três vezes. Normalmente, trago uma tonelada por viagem. Compramos esses tecidos com o dinheiro que conseguimos ganhar com as vendas de camisetas e fotografias na loja do shopping em São Bernardo.

De que forma surgiu a marca de moda sustentável Voz?

Criamos a Voz em agosto de 2018. Ela é um empreendimento que pertence à Reviva, porque a Reviva, como ONG, não pode vender. Nossa intenção é ter controle da cadeia produtiva a partir da chegada do tecido aqui no Brasil. Temos uma equipe de costureiras para as quais eu pago R$ 38 por saia, por exemplo. Um valor que se formos pesquisar no mercado da moda é de R$ 0,50 por calça jeans. Ou seja, nossas peças são o resultado da valorização e da voz de cada um dos protagonistas desta cadeia sustentável. Nossas costureiras são da periferia de São Bernardo e também vestem o propósito da Reviva.

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E como funciona a Casa Reviva, recém-inaugurada no bairro de Pinheiros, em São Paulo?

Ela surgiu de maneira orgânica, fruto de todo esse trabalho. Ninguém almeja ser rico aqui, mas manter nossos projetos. E aqui na capital paulista há outro poder aquisitivo. Na Casa Reviva abrimos também espaço para outras marcas de pequenos produtores que não têm loja física. Mas não ofereci a eles somente o espaço para vender seus produtos. Todos que estão aqui compartilham do nosso propósito. Então aqui oferecemos para a sua marca a possibilidade de que ela também possa doar água potável e acesso à educação estando aqui. Assim chegamos a 38 marcas. A maioria é de fora de São Paulo. Temos artesãos da Bahia, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro, entre outros estados. Alugamos um dos espaços da casa para o café O Filho da Mãe, e lá atrás, na edícula, vamos abrir um armazém. No andar de cima, acontecerão oficinas de saberes manuais, além de aulas de yoga. Meu pai e o Eliseu, pedreiro que é nosso amigo e parceiro, conseguiram erguer a Reviva em 45 dias. No dia 8 de dezembro de 2018, abrimos as portas.

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Qual a sua expectativa em relação a esse novo projeto?

Comprar aqui do pequeno produtor, consumir peças que têm um propósito social é completamente diferente. Tem outro valor. Como uma coleção da Voz feita com tecidos que levamos para mulheres refugiadas de Maratane, também em Moçambique. Demos uma oficina de estamparia manual para elas e com folhas que caíam das árvores, mergulhadas em tintas que também foram doadas por voluntários, estamparam as camisetas. Agora elas vão receber o dinheiro da mão de obra, e com o lucro da venda dessas peças, queremos erguer uma segunda escola, dessa vez, no campo de refugiados de Maratane.


Basta ser gente para outra gente




Fotos: @victorbalde @carolrighetti @o_felipegomes
Texto e Edição: Maju Duarte

 
EntrevistaDani ScarteziniReviva, Ong