Agustina Comas reflete sobre o valor do descarte e os próximos passos do upcycling

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Uma cor ou textura fora dos padrões. Algo de extraordinário tido como “lixo” desperta a curiosidade da estilista Agustina Comas. Quando criança, ela adorava varrer com os olhos as referências que encontrava atiradas pelo caminho. Uma a uma, ela as recolhia: caixas, papeis, embalagens… De objetos a tecidos, aquele interesse contornou o tempo e levou Agustina à graduação em Desenho Industrial, com habilitação em Têxtil e Moda, no Uruguai.

No Brasil, onde mora há 15 anos, ela lapidou esse olhar sobre o descarte. Trabalhou junto ao estilista Jum Nakao - que também questionou a indústria da moda sobre perenidade com o desfile A Costura do Invisível (2004) - entre outros criadores. Até gerir, em 2015, a Comas: uma marca autoral, enraizada no conceito e método upcycling. “Tinha isso na cabeça: trabalhar com resíduos. Afinal de contas, eu não queria fazer design para encher o mundo com mais produtos”, conta Agustina que, no dia 14 de fevereiro, participa de um talk sobre moda sustentável e lança a coleção-cápsula Linha Comas Circular, fruto de uma parceria com a empresa Cotton Move e a fábrica Souza e Cambos, na CASA MANUAL.

Nessa entrevista, a estilista fala sobre os próximos passos do upcycling, e sobre o desafio de criar uma coleção em grande escala apoiada na sustentabilidade e na economia circular - duas tendências que, segundo a plataforma de moda e comportamento Modefica, devem ganhar ainda mais espaço em 2019.

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No começo, era lixo

Me formei no Uruguai e me mudei para o Brasil em 2004. Sempre guardei e colecionei “lixo”, embalagem, papel celofane, etc, desde pequena. Quando entrei na faculdade de Desenho Industrial, com habilitação em Têxtil Moda, tinha isso na cabeça: trabalhar o resíduo. Afinal de contas, eu não queria fazer design para encher o mundo com mais produtos. No Brasil, trabalhei com o Jum Nakao e em 2007, com a Ana Piriz, uma grande amiga. Começamos a conversar sobre as roupas que sobravam no ciclo do varejo. Ana e eu pensamos em fazer algo a respeito. Na faculdade, eu já tinha transformado roupas em outras roupas. Tanto com o Jum, quanto com a Ana, fiz esse exercício de criação. Começamos a inventar em 2008. Na época, a gente não sabia o que era upcycling. Foi quando Ana e eu criamos a marca In.Use, que existiu até 2011, em paralelo a outros trabalhos. Em 2013, sai da Daslu para fazer algo sozinha.


peça da peça da peça

Precisava colocar minha visão completa em algo. Fiz vários cursos de empreendedorismo e nasceu a ideia da Comas: transformar camisas masculinas em novas peças de roupa femininas. Isso foi no final de 2014, quando eu também conheci Isabel Castro, que havia estudado comigo na mesma faculdade, no Uruguai, mas não nos conhecíamos até ela vir a São Paulo. Uma professora da faculdade nos conectou. A Isa trabalha comigo na Comas, na área de desenvolvimento de produto e produção. No começo, as pessoas olhavam feio para as peças feitas a partir de camisas com defeito, camisas descartadas. Me perguntavam: “Mas se tinha defeito, por quê é tão cara?” Porque há outro valor sobre aquele novo produto. Todo processo é importante: o acabamento, o tecido que a gente escolhe. Quero que as pessoas não percebam que uma peça da Comas tenha sido criada a partir de outra peça como matéria-prima. E que ao perceber que aquilo é upcycling, surpreendam-se.

 

O que fazemos é uma criação, uma transformação. Não customização


 
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Upcycling de fábrica?

A linha Comas Circular nasceu do contato que retomei com o José Guilherme, que desenvolveu o tecido chamado Cotton Move, nome também da empresa. Conheço José desde que cheguei ao Brasil. Trabalhamos juntos por um tempo, mas perdemos contato e em meados de 2018, ele me contou que estava atento ao meu trabalho de upcycling. Foi quando me falou deste tecido que ele está desenvolvendo com a fábrica Souza e Cambos. É um tecido jeans feito a partir das aparas de jeans que sobram no corte das peças em confecções e que são desfibrados e refiados. A inovação deste produto é que ele não mistura esses fios com o poliéster, mas com algodão virgem. Então, José me chamou pra fazer uma coleção com esse tecido. “Mas como assim? Eu trabalho com upcycling”, falei para ele. “Eu vou atrás da sobra.” Só que o José me mostrou a fábrica da Souza e Cambos, como era o tratamento da água, a gestão dos resíduos sólidos, etc. Lá não tem lixo. Para tudo há um destino. Vi aí uma oportunidade. Fizemos peças ícones da Comas, como a saia universal e a camisa Escher. Um total de oito peças feitas do zero na fábrica. Foi um desafio. Pegamos os modelos das nossas peças e aplicamos nelas a lógica da nossa criação. Como um quebra-cabeça. Vejo como uma simbiose esse trabalho manual aliado a uma indústria paralela à indústria convencional. Uma indústria que se beneficia do resíduo, mas com outra lógica e outro valor de escala e produção.

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Queremos capacitar multiplicadores no nosso método e que eles possam ser agentes de difusão do upcycling


 
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Acessível, sim senhor

Desde o início da Comas eu também queria fazer um produto mais acessível. Com o projeto da Cotton Move e da Souza e Camos, conseguimos fazer lotes maiores. Dessa forma, consigo criar uma pirâmide de peças em que numa ponta eu tenho o upcycling em sua essência, e na base a possibilidade de desenvolver produtos em maior escala, a partir de uma cadeia sustentável e alinhada com os valores da marca. Dessa forma, eu consigo patrocinar o upcycling, realizar novas pesquisas e capacitar multiplicadores. Outra ideia do José Guilherme é de que a roupa com o tecido Cotton Move, depois de anos de uso, possa ser devolvida à loja onde foi comprada para ser, novamente, desfibrada e voltar ao processo de produção. Teremos aí um processo de economia circular. Afinal de contas, a gente tem que conseguir que o produto sustentável seja massificado. Senão, por que fazer isso? Só para um nicho?

Multiplicar para resistir

Outro trabalho que faço, além da criação de peças da Comas, é a capacitação, consultoria e workshops para disseminar nossos métodos para cada vez mais gente. Trabalho que hoje realizo com o Instituto Lojas Renner e cujo primeiro projeto grande de capacitação acontece em Florianópolis, com grupos de costureiras e de artesãs que trabalham com peças do processo de logística reversa da Renner, e que estão sendo coletadas em pontos de venda. É um grande desafio. Começamos a fazer essa capacitação em setembro do ano passado. São grupos que pesquisei, identifiquei e vi que também tinham uma carência na parte de gestão. Grupos que já trabalhavam com resíduos, mas cujas técnicas era menos elaboradas. A ideia é que este projeto se multiplique para outros estados. Queremos capacitar multiplicadores no nosso método e que eles possam ser agentes de difusão do upcycling. Amo fazer produtos e me conectar com outras pessoas para trocar aprendizados.

 

A gente tem que conseguir fazer com que o produto sustentável seja massificado


 
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Texto e edição: Maju Duarte