Bordado do agreste pernambucano preservado ponto a ponto

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Em 2014, a designer e pesquisadora Ana Júlia Melo nos contou uma história costurada à mão pela Associação de Mulheres Artesãs de Passira (AMAP), cidade a 79 quilômetros de Recife. “Essa parceria junto às artesãs começou durante o meu mestrado. Passei algumas semanas com elas, buscando compreender as relações que permeiam a prática do artesanato feito em Passira. Esse estudo se transformou em projeto no ano de 2014, e um financiamento coletivo viabilizou a concepção de um site que visa dar mais visibilidade ao trabalho delas”, explica Ana Júlia que, junto a algumas dessas artesãs participará de um bate-papo gratuito no Sesc Belenzinho, em São Paulo, dia 15 de fevereiro.

“Mesmo depois de alguns anos de execução, o projeto Bordados de Passira ainda nos surpreende por estar sempre se renovando. As pessoas que frequentam oficinas e atividades ministradas por essas artesãs conhecem a força do trabalho delas. A força de mulheres que veem no bordado muito mais que uma atividade econômica, mas um espaço de convívio e de fortalecimento”, complementa.

Caso de Lucia Firmino, que aprendeu essa arte aos oito anos e fez dela um ofício. Fundadora da Associação de Mulheres Artesãs de Passira, que hoje conta com 50 participantes, dona Lucia (como é conhecida) descreve o impacto do bordado na vida dela e das mulheres da região. “Nos juntamos não só para bordar, mas para saber uma da outra. Esse é um momento em que a gente troca experiências, dá conselhos e ainda tem novas ideias”, conta. Atualmente, além da produção de bordados, a associação promove cursos na área rural, a fim de capacitar futuras bordadeiras e bordadeiros.

Juntas em cada ponto

Popularmente conhecida como Terra do Bordado Manual, esta cidade enraizada no agreste pernambucano perpetua esse saber manual por gerações. Acredita-se que a origem do bordado na região vem de antes mesmo de sua emancipação em 1963, quando o local ainda pertencia ao município de Limoeiro. Foi em 1951 que freiras franciscanas da Obra Social Santa Isabel apresentaram à população a técnica do bordado como fonte de renda. O que se desenvolveu a partir daí é a soma da criatividade das mulheres de Passira.

Somente a partir da década de 1980, com maior visibilidade do poder público municipal e estadual, além de iniciativas das próprias bordadeiras, a atividade se consolidou como símbolo da identidade local. Um cenário protagonizado pela AMAP que, munida de agulhas e linhas, cria em matiz, atrás, corrente, crivo e outros pontos populares da região peças que hoje podem ser compradas pela internet.

Relembre essa história MANUAL…

 

Uma imagem muito recorrente nas minhas memórias, quando penso no Ceará (estado onde nasci), é de mulheres tecendo, bordando, produzindo, transformando seu fazer manual em resistência e força. Essas lembranças voltaram muito forte quando fiz minha graduação em Design de Moda, na UFC. Naquela época, já percebia que me identificava muito com o trabalho manual e que minhas pesquisas seriam voltadas ao artesanato nordestino.

No meu trabalho de conclusão de curso, pesquisei o universo das rendeiras de bilro de Aquiraz, no litoral cearense, e a sua relação com o design de moda. Percebi o quanto os processos presentes naquele fazer eram especiais. Cada objeto produzido por elas carregava a própria história da artesã, uma infinidade de conhecimentos acumulados por gerações.

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Em 2011, já em São Paulo, iniciei meu mestrado em Têxtil e Moda pela USP. Com o mesmo intuito e as mesmas dúvidas, continuei estudando a atividade artesanal feminina e a relação dela com a moda. Pesquisando o histórico desses contatos, conheci o trabalho das artesãs de Passira, uma cidade no agreste de Pernambuco, que já haviam trabalhado com designers brasileiros.

Para que eu pudesse documentar os processos produtivos e criativos do artesanato de Passira, era fundamental que eu fosse até lá, conhecesse as histórias das artesãs e vivenciasse o fazer do bordado. A primeira vez que estive na cidade me surpreendi com a organização e a força das bordadeiras.

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Desde 2008, elas haviam se organizado em torno de uma associação para fortalecer o trabalho manual da cidade e melhorar a autoestima daquelas mulheres. São 40 artesãs (em 2019 já são 50) que juntas buscam sobreviver por meio do seu bordado. O encantamento foi imediato. Primeiro, por ser mulher como elas e me espelhar no propósito que dão ao trabalho. Segundo, pela riqueza, cuidado, dedicação e habilidade ao fazer aquelas peças.

Em Passira, muitas vezes escutei que a fórmula para se saber se um bordado foi bem executado é virá-lo ao avesso. O verso do bordado, por mais que não fosse o destaque da peça, era sempre perfeito.

Ao concluir o mestrado e desenvolver toda a pesquisa teórica, meu lado designer falou mais alto e veio a vontade de fazer algo junto às artesãs. Um dos problemas apontados por elas era a distância entre os produtos de Passira e os mercados consumidores. Essa dificuldade fazia com que surgissem inúmeros intermediários e o valor da peça comprada em Passira era sempre muito baixo, o que demonstrava a desvalorização de um saber tão rico e tornando quase inviável uma vida mantida pelo bordado.

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O projeto Bordados de Passira surgiu em 2014 com essa vontade: atuar com uma ponte entre as artesãs e as pessoas que admiram e consomem o trabalho manual. Ao pensar nessa iniciativa, tinha algumas diretrizes em mente das quais não queria abrir mão.

Uma delas era que o projeto não interferisse na autonomia das artesãs, que ele pudesse fortalecer a associação e o bordado manual. Em Passira, eu aprendi que a força se constrói no trabalho coletivo, por isso queria movimentar mais e mais pessoas em torno dessa ideia. E assim foi feito.

O projeto não teria acontecido se não tivesse recebido o apoio de 10 amigos, que se tornaram colaboradores do Bordados de Passira e, cada um com suas ferramentas, desenhou um pedaço dessa história. Entramos em campanha de crowdfunding no Catarse em 2014. Tínhamos 60 dias para alcançar a meta de 30 mil reais, que seriam usados para viabilizar oficinas, a criação de uma loja virtual para as artesãs e da marca Bordados de Passira. Foi um sufoco! No último dia, nas últimas horas, conseguimos atingir a meta e o projeto foi financiado por mais de 300 pessoas.

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O processo com as artesãs foi muito interessante. Elas ficaram surpresas de que haviam tantas pessoas entusiastas do seu trabalho. Até hoje, muitos ligam na associação para saber como vai o projeto ou apenas para bater um papo com a dona Lucia (Maria Lúcia Firmino), fundadora da AMAP (Associação das Mulheres Artesãs de Passira) e conhecedora de todos os pontos tradicionais da cidade.

Aliás, a história da dona Lucia foi algo que me impressionou muito. Ela aprendeu a bordar aos 8 anos e nunca mais parou. O bordado foi uma maneira de cuidar da família e de ajudar as mulheres de Passira, transmitindo seu saber para quem tivesse disposta a aprender. Foi com ela que aprendi a bordar nas vezes em que estive em Passira.

Em 2015, finalizamos o projeto e lançamos a loja virtual. Mesmo com o nosso apoio, ela é conduzida pelas artesãs de Passira, pois na raiz do Bordados de Passira sempre esteve a transparência e a vontade de fortalecer o trabalho e os saberes das artesãs. Acredito que esse é o caminho para que o artesanato se mantenha firme e vivo nas mãos de quem o faz.


Fotos: Bordado de Passira/Divulgação
Depoimento: Ana Júlia Melo
Texto e Edição: Maju Duarte

 
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