Gleice Bueno fala sobre fotografia e a arte de olhar para dentro

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Pela manhã ou ao entardecer de um dia qualquer da semana, lá está a fotógrafa Gleice Bueno batendo à porta e pedindo licença para adentrar no ateliê de pequenos artesãos da cidade de São Paulo. Enquanto isso, mãos criativas desafiam a rapidez de sua câmera ou pairam com absoluta leveza. Mãos que desenham, esculpem, bordam, tricotam, costuram… Mãos que fazem arte e que, sobretudo, contam histórias.

Parceira da Rede Manual desde o primeiro rascunho da plataforma, Gleice já perdeu as contas de quantos saberes manuais ficaram impressos em papel fotográfico ou na memória. Até o final de janeiro, a Casa Manual recebe a exposição “De mão em mão”, que traz alguns capítulos desse álbum que começou a ser composto em 2012, quando Dani Scartezini e Karine Rossi criaram a produtora de conteúdo As Floristas.

 

Para mim é muito mais fácil citar Claude Lévi-Strauss que um fotógrafo


 

De lá para cá, Gleice se mantém fiel ao que descreve como “olhar para dentro": uma ferramenta essencial para seu trabalho. Fotógrafa profissional há mais de 15 anos, ela carrega como se fora uma “lente extra”, não uma macro ou uma teleobjetiva, mas um arcabouço de referências da antropologia. Neste bate-papo, Gleice conta como se dá esse processo criativo, a necessidade de dar tempo ao tempo para compor, e ainda dá dicas àqueles que, assim como ela, expressam-se pelo extraordinário que lhes salta à retina.

Processo criativo

A ideia é conhecer um pouco a história do artista e acompanhar seu processo. Não tem ninguém que eu tenha fotografado que não seja muito tímido. Foi desafiador várias vezes. Nessa exposição na Casa Manual, eu foquei nas mãos. São retratos e histórias de mãos que fazem, que transformam… Nenhuma delas foi posada, mas captadas no momento do fazer, no ateliê ou no Mercado Manual.

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É gostoso esse olhar com calma. Fotografia para mim é esse encontro


 

Tempo ao tempo

É difícil ser fotografado, mas depois que os artesãos e artesãs começam a trabalhar, minha presença se dissolve. Tento ficar o máximo possível invisível. Apesar de não fotografar com tele e ter que chegar bem perto para fotografar. Normalmente são muitas horas porque para mim o mais importante é esse processo, mais até do que o resultado. É gostoso esse olhar com calma. Fotografia para mim é esse encontro. O barato é olhar e compor.

Menos é mais

Eu não tenho o dedo pesado, então não faço muitas fotos. A última câmera que vendi estava em ótimas condições. Hoje com a câmera digital a gente acaba fazendo um monte de clique. Mas até pouco tempo atrás eu usava uma câmera analógica. Acho que sou meio “pão dura” nessa hora de disparar o botão. Eu adoro esse processo artesanal da fotografia também. Gosto desse tempo mais lento para fotografar.

Gleice Bueno por Tati Abreu

Gleice Bueno por Tati Abreu

Antropologia Visual

Minhas referências não são fotógrafos. Gosto muito da antropologia, uma área que sempre andou junto à fotografia na minha vida. Me considero muito mais uma antropóloga que uma fotógrafa, sabe? Bebo muito mais dessa fonte. Para mim é muito mais fácil citar Claude Lévi-Strauss [um dos antropólogos mais influentes do seu tempo, ele enxergava na diversidade cultural um dos maiores bens da humanidade] que um fotógrafo. Tanto que estudo hoje a memória na antropologia. Lévi-Strauss formou muito mais meu olhar do que qualquer outro fotógrafo. Claro que em minhas fotos há influência de Cartier Bresson, por exemplo, mas são as relações com quem fotografo que me inspiram. O processo é o que me interessa.

 

Tem que sentir e fazer sentido


 
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Encontro e Conexão

Olhe para dentro. Porque o que vejo é que todos estão fazendo tudo do mesmo jeito. Assim não dá para saber o quanto aquele trabalho representa a pessoa que o fotografou. E a fotografia é um encontro. Olhe de verdade para quem você está fotografando. Tente encontrar aquilo que te desperta dessa conexão. Tem que sentir e fazer sentido.

Fotos: Gleice Bueno
Texto e Edição: Maju Duarte