O portal mágico de Lila

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O tico-tico foi o primeiro morador da Fazenda Lila, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. Neste extenso terreno aos pés da Pedra do Baú, ele pulou e cantou de galho em galho em jovens árvores frutíferas, avisando outros animais do ar e da terra que ali encontrariam alimento, sombra e água. Hoje, tucanos, corujas, veados e até lobos-guará passeiam livres pelo terreno. Essa cena compõe uma de tantas observadas por visitantes e narradas por Lila, bibliotecária que em 1985 começou a reflorestar áreas desmatadas desta fazenda que abraça 120 hectares e que foi comprada pelo sogro em 1982 para a criação de cavalos.

Há 34 anos, a família cultiva o solo em sistemas agroflorestais, tipo de plantio que é sustentável e ainda promove a recuperação da floresta. Para isso também foram adotados biofertilizantes, gerados pelos bovinos protegidos em todas as fases da vida. No começo, Lila e John Karmann, seu marido, junto às filhas Mariana, Marcella e Manuella passavam os fins de semana, férias e feriados por lá. Mas, assim como as novas sementes plantadas, eles foram, aos poucos, regando e construindo um novo lar.

Até que, em 2004, mudaram-se definitivamente para a Serra da Mantiqueira (exceto Mariana que mesmo com um pé no mundo volta para suas raízes). Além de morada da flora e da fauna locais, desde 2011 Lila tornou sua casa em um espaço de acolhimento para retiros que promovem uma ligação com a floresta e consigo. “Toda ação realizada aqui visa o respeito e o amor à natureza. E nós somos a natureza”, alegra-se.

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De lá para cá, já foram plantadas mais de 35 mil espécies de árvores, além de vários corredores de flores. Um manejo que, intuitivamente, Lila acreditou ser o mais sustentável para semear o verde no coração de um vale com áreas desmatadas por monoculturas ou criações extensivas de gado. Ao lado do marido John e das filhas Manuella e Marcella, cuidou do terreno para que a família tivesse uma vida norteada pela conexão com a natureza, fora da metrópole paulistana.

“Mesmo que, no começo, muitos dos nossos vizinhos achassem que fazíamos uma grande ‘besteira‘ por plantar árvores frutíferas, sabíamos que estávamos plantando água e novas possibilidades de vida. Tanto que em 2014, muitos tiveram que repensar essas críticas pois, naquele ano, a região passou por uma estiagem, mas nossas terras continuaram verdes e úmidas.”

À convite da Fazenda Lila, fomos conhecer este lugar que faz água brotar.


Os ticos-ticos abriram caminho para os outros animais


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Sabor de vida

Logo no começo do dia, subimos um morro perfumado pelo assa-peixe, planta espontânea e abundante que, nesta época do ano, se junta a outras espécie de melíferas cujas flores sopram abonança para as abelhas. O excesso de mel produzido é cuidadosamente colhido para, então, ser usado na alimentação e no preparo da famosa granola da fazenda, que leva aveia, gergelim, linhaça, nozes, amêndoas, açúcar mascavo, farelo e gérmem de trigo. E numa horta orgânica são cultivadas todas as tonalidade de verde. Rúculas, alfaces, ora pro nobis, capuchinhas e outras espécies de plantas alimentícias convencionais e não-convencionais dividem-se em um espaço aberto ou recolhidas, aos cuidados de uma estufa.

Na Goshala, onde ficam as vacas, elas aguardam o momento da ordenha. Delas tira-se apenas o excedente de leite que servirá para a produção dos alimentos do dia. Iogurte, doce de leite, sorvete, requeijão, manteiga e paneer (um tipo de queijo indiano) consumidos pela família, funcionários e hóspedes. “Aqui é uma fazenda Ahimsa, ou seja, sem violência. Há um tratamento especial, um respeito e carinho pelas vacas, boi e bezerros. Por isso nosso leite é de vaquinhas felizes. Cada geração que vai nascendo é mais dócil”, explica Manuella Karmann, quem guia os visitantes neste pedaço da fazenda.

Não tão longe, Manuella abre as portas do ateliê para os visitantes conhecerem suas aquarelas. Desenhos que transpõem em coloridos pigmentos a paisagem da serra. Recortes de ipês amarelos, emaranhados de flores e pássaros azuis.

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RECEITA DE FAMÍLIA

Olhamos atentamente, respiramos com mais facilidade e ouvimos nossa presença integrada à natureza. Cada observação das atividades diárias da fazenda nos leva a desacelerar o passo e o pensamento. São várias as trilhas para percorrer e apreender: somos um só na Fazenda Lila. “Todo essa amor pela terra começou porque eu sou muito maternal. Eu adotei os passarinhos, os macaquinhos, os cachorros… Eu cuido como filhos porque me foi ensinado assim: tratar todo mundo como você gostaria que te tratassem. E eu sempre me coloco no lugar deles”, diz Lila.

É esta conexão, inclusive, que Marcella deseja àqueles que conhecem o espaço. Engajada na preservação do vale da Pedra do Baú, onde outras fazendas também plantam e produzem alimentos orgânicos, ela conta que muitos vizinhos ainda não perceberam que a terra é nossa casa.

Nos últimos anos, ela vêm observado o impacto dos agrotóxicos na região. “Há fazendas que por causa desta prática estão matando as abelhas da Serra da Mantiqueira. Por isso já estamos pensando em fazer ‘fronteiras’ de árvores melíferas onde elas possam ir e não avançar para terrenos afetados por estes produtos químicos nocivos”, explica.

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Tanto que um dos desejos de Lila é criar uma cooperativa de mel orgânico na região. “O mel é o único alimento do planeta que não estraga e pode servir para a gente em qualquer ocasião. Se você tiver respeito pelas abelhas você pode sim usar o excesso que ela fabrica.” Também é o mel que dá ao famoso doce de leite da fazenda um brilho e gosto particulares.

Aliás, é na cozinha que Lila expressa este talento herdado de famílias de origem portuguesa, sueca e pernambucana. Um cardápio vegetariano com especiarias e outros segredos da filosofia veda, seguida pela família. Receitas que serão costuradas por histórias da fazenda num livro que ela pretende lançar em breve.

Sem pressa, no tempo certo, no tempo da natureza.

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Tempo ao tempo

Neste mês de setembro é tempo de tangerinas, nesperas e laranjas que podemos colher direto do pé.
Enquanto cai a tarde, descasco uma fruta e escuto novos cantos que vêm das árvores, da mata adentro.
Aos poucos, as primeiras constelações despertam.
Animais saem de suas tocas para compartilhar da noite.
Rodeada por vidas de patas, asas e raízes, não estou só.
Somos um. E entro no portal mágico de Lila.

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Direto do campo

Granola, doce de leite e geleias de tangerina e morango são as especialidades que a Fazenda Lila produz manualmente para nosso MERCADO MANUAL. Se você quiser conhecer de perto os produtores e suas histórias, anota na agenda: eles estarão no Manual da Pina, que acontece dias 26 e 27 de outubro na Pinacoteca (próximo ao metrô da Luz). Fique ligado nas nossas redes sociais e acompanhe a divulgação que faremos em breve!

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Texto e edição: Maju Duarte
Fotos: Marcella Karmann