Um propósito na mochila

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Na embarcação do empreendedor Claudio Martins não existe “tempo ruim”. Com ou sem vento, ele está disposto a remar. Criador da Bossapack, o carioca aprendeu a lidar com as intempéries do dia a dia no mar aberto e inconstante do mercado varejista durante as décadas de 1990 e 2000. Até que em 2015, recalculou a rota desta trajetória. Ancorado na identidade brasileira, criou a Bossapack: uma marca de mochilas e bolsas com design nacional, feitas a partir de materiais sustentáveis. Peças capazes de provocar impacto ambiental, econômico e social. A exemplo dos forros das mochilas, feitos de banners de reuso a partir da técnica do upcycling por participantes de oficinas promovidas pela associação civil sem fins lucrativos Onda Carioca. Uma ONG que atua desde 2007 na favela do Canal das Tachas, conhecida como Terreirão, na zona oeste do Rio de Janeiro.

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Outra parceira que firma o compromisso dessa marca carioca com a sociedade e com o meio ambiente é a Associação Floresta Protegida (AFP), que representa 17 aldeias situadas em 3 Terras Indígenas (TI) do povo Kayapó, na região sudeste do estado do Pará. Batizada de linha Kayapó, a coleção leva a estampa do grafismo indígena, cuja história e origem são narrados a quem leva a mochila. É que na etiqueta, um QR Code apresenta ao consumidor quem é a artesã da etnia Kayapó que fez a arte que ele vai vestir. Aliás, as etiquetas também são biodegradáveis e podem ser “plantadas” na horta para brotar como manjericão, hortelã…

Neste ano, a mais nova empreitada de Claudio deve dar as mãos ao Instituto Mar Adentro para confecção de bolsas feitas a partir de velas descartadas. A futura coleção já tem uma peça piloto que ressignifica este material cujo destino seriam os aterros sanitários ou o descarte irresponsável nos próprios mares. “Bolsas que na comercialização gerem renda revertida ao instituto que investe no estudo e na preservação da fauna e flora das Ilhas Oceânicas do Rio de Janeiro”, orgulha-se.

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Leia a entrevista com Claudio Martins e navegue na história deste empreendedor que faz parte da REDE MANUAL:

Por que você pensou na mochila como suporte para criação?
Trabalho com mercado varejista desde a década de 1990. Sempre atento ao comportamento humano e às mudanças no mercado. Em 2010 tive a oportunidade de fazer um estudo para uma marca que estava entrando no Brasil e queria entender mais sobre o mercado de mochilas. Entre entrevistas com fábricas e clientes (lojistas e marcas) percebemos que existia um grande vácuo no país fruto de uma adequação ao mercado dito internacional. Os principais players desta cena passaram a importar esse produto da China e posteriormente do Vietnã, hoje considerado o maior exportador de mochilas. Consequentemente, tivemos uma enfraquecimento das marcas nacionais a ponto de ficarem ocultas dado o pequeno volume comercializado. Foi aí que percebi uma oportunidade.

Quando você criou a primeira coleção?
Decidi montar um projeto de mochila nacional que fosse na contramão desse cenário e que, ao mesmo tempo, estivesse afinado com a tendência de produção local de maneira sustentável. Em 2014 dei o primeiro ponta pé na marca com um concurso de design de uma Mochila Urbana na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) entre alunos de moda e design. Em 2015 iniciamos a produção já totalmente envolvidos na sustentabilidade ambiental, social e econômica. Criamos um tripé que nos sustenta até hoje: materiais sustentáveis, produção local e cultura brasileira para um desenvolvimento social.


Criamos um tripé que nos sustenta até hoje: materiais sustentáveis, produção local e
cultura brasileira para um desenvolvimento social


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E como você teve a ideia para os forros das mochilas da Bossapack, feitos de banners de reuso?
Quando se opta pelo caminho da sustentabilidade, abre-se a cabeça para oportunidades e necessidades de se compor um produto cada vez mais sustentável. É um caminho longo... Para a mochila, eu queria algo que desse mais sustentação aos produtos e que também fosse sustentável. Ai veio a ideia do banner. Depois de procurar uma solução interessante, achei uma organização não-governamental que trabalhava com isso. A ONG Onda Carioca faz um trabalho maravilhoso em comunidades utilizando o banner como matéria prima. Era o que precisava para entrar na sustentabilidade social. Ou seja, transformar em produto algo que iria para o lixo e ainda contribuir socialmente. Hoje essa ONG está criando a primeira produtora musical em comunidades com recursos que nós ajudamos e gerar com a compra dos banners. É um grande orgulho participar disso.

 

Quando se opta pelo caminho da sustentabilidade, abre-se a cabeça para oportunidades e necessidades


 
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Você também tem como parceira a Associação Floresta Protegida, que levou à criação da linha Kayapó com grafismos indígenas. Como se deu esse encontro?
Para nós, termos um produto genuinamente brasileiro e que disputasse com os importados, além da qualidade ser muito importante, precisávamos buscar nossa brasilidade. Iniciei algumas parcerias com designers e artistas, no entanto queria algo mais. Queria alguma coisa bem brasileira e que gerasse desenvolvimento ao mesmo tempo. Foi ai que procurei a arte de povos indígenas. Depois de muita pesquisa encontrei a Associação Floresta Protegida (AFP). Desde 2017, fazemos um trabalho incrível. Além de expor nossa brasilidade com um design criativo e único, geramos desenvolvimento e resistência cultural aos povos indígenas. Os Kayapós se pintam a pelo menos 3 mil anos. A pintura é realizada com matérias-primas naturais como o jenipapo e um tipo específico de carvão, feitas pelas mulheres, detentoras da técnica. As artistas Kayapó desenvolvem os grafismos capturando e reinventando elementos de sua cosmologia, como animais e plantas. Assim, cada pintura reflete ao mesmo tempo um conhecimento coletivo e a criatividade individual de quem a produziu. Ao final, 10% do valor de cada mochila comercializada é revertido a estes povos indígenas. Poder divulgar uma arte milenar é muito gratificante.

Outra novidade são as bolsas feitas a partir de velas de barcos, apresentadas na 20ª edição do Mercado Manual, que aconteceu no espaço Vila da Terra. Como foi desenvolvida essa coleção?
Seguindo o caminho da sustentabilidade, que é longo, trabalhei com uma amiga sobre algumas amostras de produtos: velas de barco. A partir do upcycling, transformamos e demos sobre vida a um produto que estava sendo descartado. Para desenvolvimento e conhecimento, resolvi expandir esse uso e chamamos para participar desse projeto o Instituto Mar Adentro. Foi aí que criamos, neste ano, o KIT MAR. Produtos feitos com vela de barco e rede de pescar. Bolsas que na comercialização gerem renda revertida ao instituto que investe no estudo e na preservação da fauna e flora das Ilhas Oceânicas do Rio de Janeiro. Mas este projeto ainda está no começo.

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Além de expor nossa brasilidade com um design criativo e único, geramos desenvolvimento e resistência cultural aos povos indígenas


Qual o maior desafio de um empreendedor da cultura feita à mão?
São vários. Além do pais estar passando por um período muito difícil, numa crise que se arrasta a alguns anos, existe a quebra de paradigmas da sustentabilidade e do produto feito à mão. É necessário criarmos um produto competitivo em todos os aspectos. Um produto que reúna design, qualidade, preço e que esteja em conformidade com a expectativa do consumidor. E digo, não é fácil.

E agora, quais os próximos passos da Bossapack?
Continuar remando. Nosso lema é: “Se não tiver vento a favor, reme”. Nosso caminho esta traçado, que é trabalhar o conceito de um produto sustentável com produção local, que fale de nossa identidade como brasileiro e que gere desenvolvimento a todos os envolvidos.

 

Se não tiver vento A favor, reme


 

Texto e edição: Maju Duarte
Fotos: Daniel Wood / Casa Dobra, Simone Giovine e Claudio Martins