Por um mundo com C de Cultura

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Entre diversas expressões culturais, a música é uma linguagem capaz de derrubar fronteiras, reunir diferentes povos e ainda por cima contar, e preservar, a história de uma comunidade. No litoral sul de São Paulo, por exemplo, o Fandango Caiçara é uma das expressões culturais mais antigas e tradicionais. Reconhecida somente em 2012 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), essa manifestação musical, coreográfica, poética e festiva (presente também no litoral norte do Paraná) tem sua origem nos mutirões agrícolas. Eram estes momentos que reuniam as famílias caiçaras para o plantio e colheita de arroz, milho, mandioca e outros alimentos que, junto à pesca, proviam a subsistência da comunidade. Ao final do mutirão, o resultado e pagamento pelo dia deste trabalho era o baile de fandango. Dessa forma, o trabalho na terra e a manifestação artística caminhavam lado a lado. Com o tempo, essa história vem perdendo seus contornos seja pela falta de preservação do bioma onde essas populações habitam ou pelo desconhecimento dessa que é nossa cultura.

Atentos a essa realidade, os músicos, educadores e pesquisadores da cultura popular Leo Mello e Ricardo Leal criaram a plataforma C de Cultura há quatro anos. Nela, os sócios realizam projetos de preservação, fomento e troca de conhecimento. Um cenário que começa na Mata Atlântica e se estende às cordas da rabeca e da machete. Parceiros da edição MANUAL DA TERRA, Ricardo e Leo levam para nosso festival de cultura feita à mão um mestre do Fandango, para uma apresentação no dia 4 de agosto. Descendente de uma família de músicos fandangueiros e um dos poucos que dominam todas as linguagens artísticas desse folguedo popular, mestre Zé Pereira é um multi-instrumentista também reconhecido como um dos melhores luthiers da cultura musical caiçara. “Acreditamos, assim como a MANUAL, que estes saberes precisam ser divulgados e perpetuados”, defende Leo que, nessa entrevista, nos fala um pouco sobre a criação do C de Cultura e os percursos para a preservação da cultura tradicional brasileira.

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Queremos Promover a diversidade cultural e os biomas pela música, que transcende como linguagem universal


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Movidos pelas raízes da cultura popular brasileira, suas vivências e expressões artísticas, como nasce o C de Cultura?
O C de Cultura nasceu em 2016 depois de uma aproximação com o Ricardo em 2015, quando percebemos que nosso trabalho era muito sinérgico e convergente. Eu já trabalhava com o programa Vozes da Terra, que tinha esse objetivo de levar aos professores da rede pública de ensino conteúdos que relacionavam cultura popular e sustentabilidade a partir dos biomas do Brasil. Falar das problemáticas ambientais e informar sobre a necessidade de preservação desse biomas a partir da música e da dança expressas nas culturas tradicionais. E o Ricardo trabalhava no terceiro setor, em projetos de geração de renda e turismo de base comunitária. Músico, assim como eu, pensamos: a música é algo que nos uniu e pode ser aqui o fio de ouro que vai fazer com que os biomas e as culturas tradicionais sejam nosso objetivo social. Dessa forma, promover a diversidade cultural e os biomas pela música, que transcende como linguagem universal.

Quais são as atividades realizadas?
Hoje o C de Cultura tem duas linhas de atuação definidas. A primeira é o programa Mestres e Biomas, que busca dar voz aos mestres das culturas tracionais e mostrar essa diversidade cultural incrível que temos no Brasil e que, ainda, poucas pessoas conhecem. Queremos levar essa diversidade ao público ao mesmo tempo em que colocamos em pauta as problemáticas ambientais. Uma ação que pode ser realizada em shows, oficinas, palestras, imersões ou por meio do audiovisual. A gente está comunicando também informações relevantes sobre consumo consciente, de onde vem a comida que como, de onde vem a madeira do móvel da minha casa, e qual a relação de tudo isso com a preservação e a conservação dos nossos biomas.

E qual é a segunda linha de ação do C de Cultura?O outro programa é o De Jardim a Jardim, cujo objetivo é unir centro e periferia a partir da música e das artes. Ou seja, como são produzidos o pensamento e a arte na periferia de São Paulo, onde atuamos e como isso pode chegar à “bolha” da zona oeste? Porque eu me sinto privilegiado de morar na zona oeste, mas também me sinto cerceado de alguns conteúdos que gostaria de ter acesso. Isso nos motivou a buscar referências e criar diálogos com grupos da periferia, principalmente na zona sul, onde temos diversos parceiros, coletivos, músicos, professores e pensadores que trabalham conosco no sentido de aproximar as pessoas e transcender essas barreiras sociais de distância e de preconceito a partir da música.


Quanto mais troca e diversidade houver, melhor será para todas as culturas


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Mas, como se dá esse encontro entre manifestações da cultura tradicional e da cultura contemporânea?O fandango, por exemplo, já encontrou o rap. Isso aconteceu num evento que realizamos em 2016 no Mercado de Pinheiros. Lá colocamos o Mestre Zé Pereira com os rappers da Banca, que hoje é uma outra banda, e eles improvisaram dentro de um tema do fandango. Fizeram um free style sobre o que estava rolando no mercado ali, na hora. Foi na Semana do Fandango, a primeira experiência do C de Cultura e do programa Mestre e Biomas (veja o documentário abaixo). Outras ações aconteceram no Campo Limpo e no Jardim Ângela. Pretendemos, cada vez mais, juntar esses dois programas. Isso pra gente faz sentido

Como é trabalhar nesta área e enfrentar dificuldades como falta de apoio, patrocínio ou financiamento?Nesse ano, tivemos alguns reveses diante deste momento da política cultural, cortes de financiamentos, e com isso tivemos que readaptar nossas ações, diminuir. Mas vamos fazer essa intervenção no Manual da Terra, trazer o mestre Zé Pereira para que as pessoas possam ouvir o que ele tem para contar de sua história e da cultura fandangueira e que ele também pode ouvir das pessoas que estarão por lá. Acreditamos que não somos só nós que estamos recebendo, há sempre uma troca entre o que o Zé Pereira deixa e o que as pessoas também podem ensinar para o Zé Pereira levar na bagagem. Tem um conceito do C de Cultura que fala sobre como vemos o benefícios das trocas: da mesma forma que num bioma há espécies em extinção por causa de um empobrecimento genético, as culturas que não fazem trocas também correm o risco de desaparecer. Então, quanto mais troca e diversidade houver, melhor será para todas as culturas.

Como vai ser esse show do Zé Pereira no Manual da Terra?
Zé Pereira é um fandagueiro que mora em Ariri, no litoral sul de São Paulo, perto de uma unidade de conservação, onde há vários problemas vivenciados pela cultura caiçara. O Fandango, por exemplo, era uma festa que acontecia depois do mutirão e hoje em dia os bailes estão mudando de formato. Acabaram virando algo para o turista assistir. Hoje o Fandango ainda existe, mas fora desse contexto dos mutirões. Mas ele resiste com Zé Pereira e outros poucos mestres. Pescador, ele também faz a farinha da mandioca que ele planta, além de construir violas, rabecas e machetes e ser um dos fandangueiros que tem mais conhecimento acumulado. Nesta apresentação, ele estará companhado pelo filho e músico Laerte Pereira, além de Ricardo Leal (viola), Felipe Gomide (rabeca) e Leonardo Mello (pandeiro), interpretando temas tradicionais do fandango, clássicos da MPB e improvisos inspirados pela essência da cultura caiçara.

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O que nos move é tecer encontros para promover a diversidade


Assista ao documentário sobre a cultura fandangueira produzido pelo C de Cultura:

Texto: Maju Duarte
Foto: C de Cultura / Divulgação