Por um mundo feito à mão

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Pensar, agir e criar coletivamente pela valorização de saberes e fazeres manuais. Este é o norte da plataforma Revolução Artesanal, criada por Bruno Andreoni e Ciça Costa, há três anos. Uma iniciativa que abrange “fazedores, artesãos e artistas para dar visibilidade aos seus trabalhos, evidenciar as profissões primordiais: sapateiro, oleiro, ferreiro, padeiro, carpinteiro, marceneiro, entre tantas outras, e assim, valorizar uma qualidade essencial do ser humano que é o fazer”, definem. A partir deste propósito, entre as ações realizadas pela Revolução está o Festival do Fazer, que teve sua quarta edição no começo de junho, reunindo mil visitantes, 117 inscritos em 16 oficinas, além de três rodas de conversa com mais de 200 participantes, vivências e a exposição do trabalho de 14 artesãos da cidade de São Paulo.

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A MANUAL também se somou à iniciativa com a participação das sócias Karine Rossi e Patrícia Toledo na roda de conversa Economia Criativa Feita à Mão. Nela, Karine e Patrícia compartilharam algumas experiências colhidas pelo MERCADO MANUAL nos últimos quatro anos. “Estamos aqui para fazer essa ponte entre o produtor e as pessoas num festival de cultura feita à mão que é um evento de celebração. Pensamos num formato que não fosse para um ou para outro, mas para todos convivermos juntos e curtir o autoral. O que observamos ao longo do tempo é que os artesãos têm neste fazer manual um plano B, mas que muitos já conseguiram fazer essa virada para se dedicar exclusivamente à produção autoral e se profissionalizar”, disse Patrícia Toledo. Um bate-papo junto a Isa Bonfitto, da rede de criativos Pivo e com as empreendedoras Priscila Cañedo e Ana Moraes do Bazar As Meninas.

Nesta entrevista, Bruno Andreoni conta um pouco a trajetória deste trabalho alinhavado pela cultura feita à mão:

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Linha interna
Quando a gente olha para a Revolução Artesanal, de três anos para cá, uma das conquistas foi entender como o fazer manual ressoa no mundo e no dia a dia das pessoas. Também estamos vendo que a Revolução ajuda a sustentar esse campo do fazer manual pela leitura dos conteúdos que produzimos, pelas conversas que propomos, além das oficinas. Em nossas ações observamos essa conquista de público e de interesse. Tanto que estamos recebendo convites para novos projetos. Mas a maior conquista mesmo, neste percurso, é manter essa raiz sobre o processo do fazer associado ao desenvolvimento humano e, portanto, social. O processo do fazer manual tensiona a linha interna do ser humano como criador e responsável por aquilo que faz. Uma vez tensionada essa linha, você começa a observar como as coisas são feitas na sociedade. Não propomos uma contracorrente, mas a gente precisa recuperar essa capacidade de olhar e de não ser automatizado. Entender a automatização como algo que seja benéfico, mas não como algo que nos leve sem consciência.

Para todos
Em nossa história sempre valorizamos o processo. Criamos a Revolução Artesanal pensando no Festival do Fazer como o primeiro projeto, para ofertar às pessoas a oportunidade de fazer uma oficina com qualidade de processo, tempo, troca. Para que vivessem essa experiência. Tem sido interessante olhar os festivais e o público sabendo quem vem e de onde vem. Há uma mescla de pessoas que nunca fizeram nada com as mãos e estão olhando para algo diferente que querem fazer no mundo. Também há pessoas que já fazem trabalhos manuais e vêm aprender coisas novas, mas não vivem disso profissionalmente e sim como hobby ou pesquisa. Outros vivem de fazeres manuais e vêm aprender novas técnicas. Essa mescla é interessante como processo do festival e como atingimos as pessoas.

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Caminho do Autor
Nascemos com esse lugar do festival no primeiro ano. Até que começamos a nos questionar: “Só vamos fazer festivais e oficinas pontuais por um ou dois dias?”. Até que no ano passado a gente criou um processo de oito encontros que se chama O Caminho do Autor. Ele sim traz uma provocação profunda. Cada encontro é mediado por um fazer manual e por uma pergunta de vida: são sete encontros com fazeres manuais e perguntas, e no último, uma reflexão. É interessante para entender como o fazer transforma e realinha as pessoas - essa linha interna que comentei. E isso tem sido muito mágico: olhar para diferentes formas de atuar como Revolução.

Daqui pra frente
Chegamos neste último festival muito contentes. Minha maior pergunta era como mostrar nosso propósito para as pessoas que passariam pelo festival até mesmo sem saber que ali ocorria um evento de fazeres manuais. Então, fizemos tudo no mesmo lugar: oficinas, exposição, vivências, rodas de conversa. Tudo isso criou uma única linguagem. Conseguimos abrigar por dois dias um mundo feito à mão, mostrando que ele é real. Uma vez que a gente entende este lugar o próximo festival muda. Então, a gente se vê indo por um caminho de produção de conteúdo neste campo, de experiências como o festival e, agora, do Laboratório das Cores, que vai acontecer em julho. Será uma imersão na Amazônia, uma pesquisa de cores e conhecimento na natureza. Nos entendemos como movimento e movimento é algo que vai mudando, crescendo e se desenvolvendo.

 

a maior conquista neste percurso é manter essa raiz sobre o processo do fazer associado ao desenvolvimento humano e, portanto, social


 
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Texto: Maju Duarte
Foto: Daniel Wood / Casa Dobra

 
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