Homens por um Fio da Conversa

Gustavo Seraphim_Fio da Conversa (2).jpeg
 

Isso é coisa de mulher, aquilo é coisa de homem. Um blá blá blá que vem perdendo espaço inclusive dentro de práticas manuais como o tricô. Em meados de 2018, foi a vez do músico Seu Jorge anunciar um perfil próprio no Instagram, o @novelodeanjo, com fotos e vídeos de suas peripécias em meio a agulhas e novelos. Nos últimos anos, mais homens somam-se a esta prática. Estejam sozinhos, em casa, ou em grupo, nas praças e parques da cidade.

Esse é o caso do advogado e gestor de projetos culturais Gustavo Seraphim, criador do Fio da Conversa. Projeto que acontece em Curitiba e outras cidades para reunir tricoteiros e amadores numa roda de aprendizado de trabalhos manuais e conversas sobre masculinidade e paternidade.

Leia o depoimento de Gustavo Seraphin para a MANUAL:

 

O tricô sempre foi uma prática comum na minha família. Mães, avós e tias faziam meias, toucas e blusas para as crianças todos os anos. Na infância, me lembro de minha mãe tricotando em casa com suas mãos fortes e dedos ágeis. Esse era um dos poucos momentos em que a observava parada e concentrada em apenas um assunto. O resto do tempo ela passava trabalhando como empresária ou cuidando da casa e dos filhos.

Apesar dessa proximidade com os fios, comecei a praticar trabalhos manuais aos quase 40 anos, com o nascimento do meu filho e estimulado pelo processo vivido pela minha esposa com a revista Urdume: uma publicação independente sobre artes manuais têxteis. A paternidade despertou minha versão mais sensível e corajosa (“minha porção mulher”, como escreveu Gilberto Gil na canção Super Homem) e tem me permitido usar de habilidades manuais para intervir no mundo de forma poética. Por meio do desenho, da jardinagem, da marcenaria e, principalmente, do tricô, eu encontrei maneiras de materializar minha criatividade e expressar amor.   

Gustavo Seraphim_Fio da Conversa (3).jpeg

A ideia é abrir espaços para a desconstrução
dos estereótipos nocivos de masculinidade


Há pouco mais de um ano nos mudamos para Curitiba e a distância da família e dos amigos despertou em mim a vontade de estreitar relações com pessoas queridas agora distantes. Então, passei a fazer peças de tricô para essas pessoas - prioritariamente amigos homens. Teço as peças rememorando, de coração aberto durante o tramar dos fios, os momentos vividos, as experiências e os laços criados. Depois de prontas, as envio por correio com uma carta com lembranças e palavras de carinho. Nutrindo o afeto que tenho por essas pessoas, sinto um prazer quase libertador em tramar aqueles fios e poder expressar meus sentimentos.

Motivado por essa experiência, mais recentemente criei o Fio da Conversa, uma iniciativa para homens se encontrarem e aprenderem trabalhos manuais, além de conversar sobre masculinidade, paternidade e outros temas relacionados. Temos um grupo que se encontra semanalmente em Curitiba, e realizamos cursos, workshops e vivências em outras cidades. A ideia é abrir espaços para a desconstrução dos estereótipos nocivos de masculinidade, lugares onde possamos refletir sobre o papel dos homens na sociedade.  


Texto: Gustavo Seraphin
Edição: Maju Duarte
Fotos: Monique Ferreira

 
 
HistóriasDani Scartezini