Entre tramas e nós

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O lado do avesso de um bordado pode ter alguns nós embolados, tramas sobrepostas e fios soltos. Bastidores que desconhecemos porque já vemos a peça pronta, em nossas mãos. Para a empreendedora Estefania Lima, esses avessos a permitiram costurar uma história de saberes e fazeres manuais em forma de revista. Criada em 2018, a URDUME (nome dado ao fio que dá estrutura à trama) é uma publicação independente e trimestral sobre artes manuais têxteis, expressão e autoconsciência. Com uma tiragem de dois mil exemplares, ela é mantida por assinantes e membros-investidores e já está em sua terceira edição (no formato físico e digital), lançada neste mês no ateliê da artesã Georgia Halal, em São Paulo.

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No lançamento, Estefania compartilhou com a MANUAL como foi esse caminho até se encontrar no bordado, costura e crochê. Graduada em Relações Públicas, há três anos ela começou a se questionar sobre o que dava sentido à carreira que havia escolhido. Dúvida que se manteve depois de um mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) sobre o uso das redes sociais por pais de crianças com síndrome de Down. Mas foi após uma situação traumática de saúde que ela virou a chave. “Meu encontro pessoal com os fios (primeiramente com o bordado) foi em um momento de crise pessoal. Eu acabara de descobrir que estava com uma gravidez anembrionária e o fazer manual foi uma importante ferramenta nesse processo de aceitação daquela situação”, conta.

Depois de passar por essa experiência, Estefania não parou mais de pesquisar e buscar informações e estudos sobre tudo que permeava as artes têxteis, em especial. Um mergulho acompanhado por um detox digital que durou um mês, quando ela se desconectou das redes sociais para se conectar aos fios. “Pensei que poderia fazer uma comunicação no tempo das mãos”. Assim, de maneira orgânica e manual, nasceu o primeiro teste da revista saiu em novembro do ano passado. “A boa aceitação me fez acreditar que esse sonho seria possível”, celebra.



Pensei que poderia fazer uma comunicação no tempo das mãos


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De que forma o fazer manual chegou até você?

O fazer à mão é uma descoberta recente. Apesar de vir de uma família humilde por parte de mãe, onde costurar, tricotar e crochetar muitas vezes foram as únicas vias de sobrevivência, minha geração não foi incentivada a aprender esse tipo de trabalho. Era como se aquelas atividades (e todos os trabalhos manuais relacionados à casa) fossem algo menor e, nós, privilegiados com a possibilidade de estudar, não devêssemos perder tempo com aquilo. Uma escolha completamente compreensível ao estudarmos a história das manualidades: não é difícil encontrarmos o quanto esse tipo de atividade foi uma “faca de dois gumes”. Ao mesmo tempo que gerava autonomia, ela não permitia alçar voos. Não me ressinto disto. Minha mãe fez aquilo que acreditava ser o melhor e, dessa forma, viúva de dois maridos e sem formação universitária, proporcionou aos seus três filhos o acesso prioritário aos estudos. No fim, o encontro tardio com as manualidades, embora muitas vezes tenha me feito “um peixe fora d’água” na minha família, me proporcionou a possibilidade de enxergá-las de outra outra forma, o que acredito que tenha contribuído para a criação da revista. Então, tudo chegou quando precisava chegar.

Fazer uma revista sobre manualidades era um sonhou ou podemos falar que foi também foi uma necessidade já que há poucas publicações brasileiras focadas neste segmento?

Há um déficit, certamente. O Brasil é um país continental, extremamente artesanal, e esse tipo de publicação quase não existe, e aqui não falo de publicações folclóricas, de tradições ou designers, mas do artesanal do dia a dia e em suas diferentes formas. Em países como Portugal, Espanha, Escócia temos uma infinidade de produções sobre o tema, o que é muito curioso. Claro, entendo também que isso está intrinsecamente ligado a cultura do artesanato no Brasil, que é fundada em raízes escravocratas e na desvalorização do manual. Ainda assim, acho que deveríamos ter muito mais livros e revistas sobre o tema, e com a URDUME esse é um dos meus objetivos: fomentar a produção escrita.


O Brasil é um país continental, extremamente artesanal, e esse tipo de publicação quase não existe


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Quais os desafios de criar uma publicação independente sobre fazeres manuais?

Os desafios são muitos. Estamos em plena uma crise do mercado editorial. Também existe confusão por parte de movimentos ambientais que querem acabar com todo tipo de produção física. A preservação da cultura material (inerente ao ser humano) é, como disse acima, algo que a maioria dos brasileiros ainda não reconhecem. Muitos perguntam se é uma revista de passo-a-passo e têm dificuldades de compreender a proposta. Então, temos o desafio de explicar e demonstrar para as pessoas qual o valor de um produto assim.

Como você avalia estes percalços? Você acredita na longevidade na revista?

Recebo dezenas de feedbacks de pessoas que sentiam falta de uma publicação nessa direção, que adoram o contato com o papel e que estão encantados com a proposta. É nesse sentido que acredito poder remar contra a maré da crise do impresso. Embora as revistas generalistas tendam a acabar, porque a internet tem ocupado esse papel, as revistas de nicho, sobre interesses específicos, tendem a crescer. Estamos chegando a uma exaustão digital e aprender a lidar de forma menos tóxica com a internet parece algo fundamental e na iminência de acontecer. As revistas voltam a aparecer, então, como um respiro, assim como o próprio fazer artesanal.


Muitos perguntam se é uma revista de passo a passo e têm dificuldades de compreender a proposta


Como foi feita a revista? Você tem uma equipe?

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A revista foi feita toda na garra, de forma bem artesanal, no sentido de abraçar todo o processo de produção. Eu não tinha dinheiro para investir, não sabia se daria certo. Contei com a colaboração de pessoas que escreveram textos, me ajudaram a revisá-los, eu fiz a curadoria, escrevi as matérias, editei e diagramei a primeira edição (nunca tinha feito isso na vida). Quase enlouqueci (risos). Na virada do ano, via todo mundo curtindo as férias e eu ali, ralando. Mas valeu à pena. O único custo efetivo que tive foi com a impressão que felizmente tenho conseguido pagar com a venda das revistas, assinaturas e colaboração dos membro-investidores. A produção da segunda edição já foi mais tranquila e contei com o apoio da jornalista Belisa Rotondi e da designer Nathália Abdalla, além de colaboradores que escreveram alguns textos e da Dani Nucci, que produziu um editorial de moda. Como tivemos um bom retorno de aceitação na primeira, resolvi melhorar a qualidade da impressão e o processo como um todo foi menos penoso (na primeira tive muitas questões com a gráfica). Espero que a terceira edição fique ainda melhor.


Todo negócio tem seu tempo de maturação e quero desenvolvê-lo de forma orgânica


A URDUME fala sobre fazeres e saberes manuais, além de ser seu próprio fazer manual. É possível viver financeiramente deste trabalho?

Sobre ser uma fonte de renda, ela ainda não é. Dentro do meu limite, por hora, estou apenas investindo e entendo que está tudo bem assim. Todo negócio tem seu tempo de maturação e quero desenvolvê-lo de forma orgânica ao reafirmar o compromisso que tenho comigo de manter um estilo de vida mais artesanal. No comecinho, com a boa aceitação da publicação, comecei a me pilhar e logo vi que precisava parar e respeitar os tempos. É muito fácil cairmos no ciclo da correria de sempre, mas seria incoerente falar sobre um tema desse vivendo sob pressão.

Patrimônio cultural, atividade terapêutica, ação política e social. Qual sua opinião acerca destes atributos que permeiam o fazer manual?

Acho que os fios e todas as manualidades me encantaram por esse atributos. Porque têm um caráter múltiplo e democrático. A partir do artesanal, a gente fala de qualquer coisa (aliás essa é a proposta da revista). O fazer manual é uma atividade do humano, e investigar como ele se dá nos diversos contextos sociais é o que me dá a certeza de que nunca faltará assunto sobre o qual escrever. Ainda assim, se a revista pudesse contribuir para incentivar os estudos e pesquisas na área da saúde e bem-estar, e pudesse contribuir para trazer à tona histórias ocultas de grandes mulheres, isso me faria particularmente feliz.

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Investigar como o fazer manual se dá em diversos contextos sociais é o que me dá a certeza de que nunca faltará assunto sobre o qual escrever


Texto: Maju Duarte
Fotos: Gustavo Seraphim /Monique Ferreira

 
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