A pele onde moramos

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Por ela percorrem hectares de células, camadas de memórias e constelações de sinais, sardas e outras estrelas. Maior órgão do corpo humano, a pele é nossa casa. É ela quem delimita o que está dentro e o que está fora. Característica que instigou a artista visual Laura Corrêa do Estúdio BemTeVi, cujo olhar busca o limite (ou o encontro) entre o visível e o invisível. “Minhas imagens buscam capturar na superfície, no corpo, na ‘pele do nosso mundo’ aquilo que ela reveste. A poética do meu trabalho fala do verso e reverso”, explica. 

Tal como o reflexo do céu na epiderme de um rio ou uma gota a deslizar sem pressa sobre uma folha, Laura captura momentos de poesia ao registrar “peles” de diferentes paisagens por onde viaja. O resultado destes mergulhos visuais podem ser vistos na exposição _pele, até 16 de junho, no Espaço Colletivo + CASA MANUAL. Na mostra, a artista registra essa “fronteira de acesso”, tão misteriosa e fascinante, em uma série de 19 imagens de diferentes biomas pelo mundo.

Em entrevista, ela nos fala sobre sua trajetória, processo criativo e provocações que norteiam sua arte.

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Sua formação é em design, mas você vem se dedicando, cada vez mais, à fotografia. Como foi esse processo de transição?

Sinto que não abandonei o design. Acho que, em minha jornada, que sempre buscou caminhos diversos e encontros com pessoas e coletivos, acabei experimentando lugares diferentes do que apenas designer gráfica. Nessa busca pessoal, acabei conseguindo me integrar. Assim, hoje me vejo como artista visual. Tem o design, tem o desenho de processos de desenvolvimento humano (em meu caminhar acabei por participar da criação de um Rede Digital Global de criação, a ItsNoon, e também sou co-fundadora da Escola Livre Areté, uma escola waldorf na Vila Madalena), tem o desenho no papel, e tem a fotografia, que é uma companheira desde meus 18 anos. Tenho gostado de dizer que desenho com luz e lápis. Isso me aqueceu, porque eu realmente não vejo essas coisas separadas. Sou uma só que desenha. E, verdadeiramente, quando estou com o olho no visor da câmera sinto que estou desenhando com a luz e com as linhas das imagens que esse nosso mundo nos oferece!

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quando estou com o olho no visor da câmera, sinto que estou
desenhando com a luz

 

No dia a dia, como é seu processo criativo?

Quando saio para fotografar, em primeiro lugar, procuro silenciar a mente e entrar no campo da natureza. Fico um período apenas caminhando ou observando. Começo aos poucos a “fechar” o campo de visão e me aproximar dos elementos. Chego bem perto mesmo, para poder enxergar sua textura, sentir a umidade, ver melhor a cor, os detalhes, e buscar enxergar o movimento das tramas daquela vida que está ali. E quando consigo enxergar a geometria do organismo que estou observando, então começo a fotografar. Assim, o meu interesse não está na forma objetiva apenas, mas no subjetivo ou sutil, ou no movimento que ali vive, que dependendo da relação que estabeleço, não é possível enxergar.

Por que você escolheu o nome "_pele" para a exposição?

Essa série (de fotografias) nasce da forte relação que tenho com a natureza. Eu adoro caminhar pelo mundo, viajar, e ir para lugares de natureza pulsante, virgem. Nessas jornadas, busco adentrar o portal que conecta os mundos interno e externo. Meu olhar quer falar da pele do mundo como fronteira de acesso. As imagens fotográficas querem capturar a beleza e estética da forma manifesta, e também aquilo que a natureza e a vida resguardam em seu interior. Sua inteligência, sua arquitetura e geometria. A maneira como as linhas se desenham nos organismos me fascina, porque elas falam muito, carregam códigos muito importantes e preciosos do desenvolver da vida. Esse conjunto de fotografias, feitas em diversos ambientes do nosso planeta, são uma homenagem e celebração aos corpos que nos dão morada - a terra e o corpo humano - e à possibilidade da vida entre eles. E é por meio de nossas “peles” que trocamos. Por meios das diversas “membranas” que temos, sejam elas nosso sentidos, nossos pensamentos, ou a fluidez da água, a textura de um tronco, a dureza de uma rocha, e a fugacidade das nuvens.

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Olhar atentamente me ajuda a tocar mais de perto a vida e o mundo

 

Ou seja, essa série de imagens também é um convite para nos reconectarmos com a natureza?

O mundo natural, o mundo vivo carrega uma inteligência absurda da vida, que uma enorme parte da humanidade perdeu, desconectou. Essa mesma sabedoria vive em nós. A geometria sagrada que as plantas, os minerais, o movimento das águas e do ar realizam e revelam em seu desenvolver tem uma relação simbólica fortíssima com o Homem. E vital também. O sentido e sabedoria contidos na estética da natureza é algo que gostaria de ver desperto nas pessoas, principalmente as que vivem nos centros urbanos. Tive muitos insights sobre questões da minha vida ao observar profundamente a natureza, ou a me entregar a ela, trocando fisicamente energia. Essa veneração e respeito verdadeiros queria resgatar nas pessoas. Porque seria um resgate de respeito por tudo o que é vivo, inclusive nós, e pela diversidade de vida que existe. É a partir dessa diferença e mistura que a vida é possível.

Hoje, qual o significado da fotografia para você?

Sempre fotografei. Mas nos últimos anos entendi que estava fotografando não apenas para capturar belas imagens. Entendi que fotografar passou a ser uma das formas mais intensas de tradução da minha relação e olhar para a vida como um processo de revelação no tempo. Olhar atentamente me ajuda a tocar mais de perto a vida, o mundo, as relações vivas, e trazer isso que vejo pra dentro de mim. A fotografia me integra e me ajuda a expressar aos outros aquilo que vejo e sinto pela vida. Me sinto respirando.


 

ao olhar para a natureza, o que sentimos?
O que ela provoca?

 

Texto: Maju Duarte
Fotos: Laura Côrrea / Bruna Bento - Casa Dobra

 
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