Criqué Caiçara

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Tiês e caraguatás perpetuam-se em madeira pelas mãos de um grupo de artesãs da Estação Ecológica da Reserva da Juréia, litoral sul de São Paulo. Esculpidos um a um, pássaro e flor transformam-se em esculturas do Criqué Caiçara. Fruto do trabalho em conjunto entre um grupo de artesãs locais e das designers Paula Dib e Renata Mendes, este projeto nasceu em 2012, com o apoio do Instituto Elos, teve continuidade entre 2013 e 2014, com a organização sem fins-lucrativos ArteSol, e hoje caminha com as próprias pernas.

Da inspiração que brota da fauna e flora da Mata Atlântica, nascem asas, nadadeiras e pétalas em colheres, móbiles, quebra-cabeças e outras peças feitas de caixeta (madeira típica deste bioma). “Antes elas faziam peixes que nunca nadariam nos rios, e pássaros estereotipados. Fomos, então, olhar juntas para a origens das artesãs e descobrimos a relação delas com a cozinha, com os utensílios e como eles eram no passado. Depois, começamos a olhar para a floresta e percebemos uma abundância de referências. Foi aí que descobrimos que elas também eram exímias escultoras. Mas até aquele momento, elas só estavam fazendo peças bem duras, na máquina. Ou seja, foi um processo de revelação e de valorização do que elas sabiam fazer”, recorda Paula Dib.

Desde o começo, Paula e Renata orientam o projeto e, junto às artesãs (atualmente cinco mulheres), elas atuam como ponte para que o artesanato caiçara seja amplamente conhecido. Coletividade que ganha cada vez mais força, como já descreveu a pesquisadora Adélia Borges em Design + Artesanato: o caminho brasileiro (Editora Terceiro Nome, 2011). “A aliança entre designers e artesãos é um fenômeno coletivo, de larga escala e alcance”.

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Foi um processo de revelação e de valorização do que elas sabiam fazer


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IDENTIDADE LOCAL

No começo, foi necessário às designers imergirem na realidade e no dia a dia dessas artesãs. “Temos uma pesquisa a partir dos olhos de quem vive ali. Uma pesquisa que parte de memórias e histórias. Então, vamos puxando esse fio e trabalhando juntas esse lugar”, explica Paula Dib. Um passeio pela Reserva da Juréia, suas casas, quintais e outros espaços revelaram temas e personagens que seriam, então, esculpidos e coloridos.

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“São as artesãs que vão olhar para um determinado pássaro e contar a história dele, e a gente vai percebendo a importância disso. Depois, criamos uma proposta prática para levar esse olhar para algo concreto, entendendo as habilidades e possibilidades delas. Foi nessa hora que se revelou o domínio da escultura, algo que elas haviam aprendido com gerações passadas. Aí entrelaçam-se novas possibilidades, numa combinação de olhares”, complementa Paula.


Dessa forma se mantém a cultura caiçara e as artesãs podem passar essa história adiante


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O nome do projeto também traz em si a combinação entre o objeto (criqué significa “coisa”) e a tradição ao valorizar os saberes destes povos tradicionais que vivem no Brasil desde o século 16. Uma integração que se expressa de maneira única no artesanato dos caiçaras do litoral sul de São Paulo. Esta identidade foi bússola para as designers e as artesãs lapidarem uma coleção singular.

Hoje o projeto Criqué Caiçara busca mais alcance, além de se tornar uma fonte exclusiva de renda para as artesãs da região e instigar futuros aprendizes. “A gente começa a ver um ciclo de trocas, em que a geração de renda é consequência, não o motor. O motor foram muitos outros fatores para que a geração de renda pudesse acontecer. Dessa forma se mantém a cultura caiçara e as artesãs podem passar essa história adiante”, arremata Paula.

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CARAVANA MANUAL

Sob curadoria da designer Paula Dib, o Criqué Caiçara faz parte da programação da 10ª edição do Mercado Manual no Museu da Casa Brasileira (MCB), dias 4 e 5 de maio. Este será o primeiro projeto a desembarcar da nossa Caravana Manual, iniciativa em que a MANUAL reforça a importância do artesanato de pequenas comunidades pelos rincões do Brasil e, para isso, leva ao alcance do público tanto a criação quanto as criadoras. Promovendo, dessa forma, uma troca de aprendizados e a valorização da nossa cultura. Por isso, na programação do MM10 também será realizada uma oficina com as artesãs Dalva Sardinha e Gloria Carneiro, do Criqué Caiçara, dia 5 de maio, às 16h. Saiba mais!


Texto: Maju Duarte
Foto: Paula Dib