Brincar de fazer música

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Na infância, bacia vira tambor, e grãos de feijão numa garrafinha de plástico a transformam em chocalho. Estes e outro sons vão ganhando forma em objetos encontrados pelo caminho. De maneira despretensiosa, as crianças vivenciam um universo sonoro sem limites e deixam a imaginação fluir na criação de novos instrumentos musicais. Experimentar este cenário é o convite do músico e educador Angelo Mundy. Durante as oficinas de luteria experimental, área dedicada à criação e manutenção de instrumentos musicais bem diferentes dos convencionais, exploram-se diferentes objetos e sonoridades ao redor.

O músico explica que a luteria experimental vem da experimentação com instrumentos e tem a ver com o conceito de Do It Yourself (DYT), “o conceito de errar, conversar com outros, trocar, aprender, fazer”. “Essa luteria também agrega várias linguagens, porque os instrumentos por ela feitos podem ser acoplados ao corpo, para se dançar, ou feitos para um cenário do teatro. Outros associam-se a performances ou são esculturas e estão em exposições”, complementa.

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No Brasil, um dos precursores da luteria experimental foi o músico e luthier suíço Walter Smetak (1913-1984) que por aqui chegou em 1937. Duas décadas depois, ele foi convidado para integrar os Seminários Livres de Música da Universidade Federal da Bahia. A influência de Smetak teve papel fundamental no surgimento do movimento tropicalista. O luthier também construiu instrumentos musicais com tubos de pvc, cabaças e isopor: cerca de 150 "instrumentos-esculturas", os quais ele denominou de "plásticas-sonoras". 

De lá para cá, outros músicos mergulharam nesta cena experimental. Até o mês de janeiro, a Passagem Literária da Consolação, na capital paulista, recebeu a 2ª edição do Panorama de Luteria Experimental, com exposições, shows e intervenções. “Sou muito novo neste universo. Tem gente que está fazendo isso há muitos anos, como Fernando Sardo. Mas vejo que essa área vem ganhando espaço desde o começo do século 20 por causa do potencial de agregar diversas expressões das artes e pelo fato de ser uma educação transformadora”, observa Mundy, que nos conta um pouco mais sobre a experimentação musical e o reflexo desta vivência em grupos de crianças.

Como foi seu primeiro contato com a música?
Na minha infância, tive a sorte e o privilégio de ter aulas de música. Minhas recordações mais antigas são da escola, com cinco ou seis anos, quando aprendi a tocar um pouco de flauta doce, e depois, tenho memórias dos sete anos na escola particular também tive aula de música. Em casa, meus pais sempre ouviram muito música. Minha mãe, pernambucana, ouviu muito música popular brasileira, e meu pai, inglês, tem uma formação mais erudita, de outro contexto. Lembro que tinha seis anos quando vi meu pai assistir, em vídeo, à ópera A flauta mágica. Me encantei por aquilo. Alguns anos depois, continuei com aulas de música na escola, de maneira mais coletiva. Em seguida, fui estudar teclado num conservatório e, depois, prossegui meus estudos com violão… Mas acho que a experiência mais lúdica e experimental com a música veio já adulto, trabalhando com crianças. Arrebatado por descobertas junto às crianças.


A luteria experimental se insere junto com outras práticas de educação musical, como uma ferramenta de libertação


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O que te encanta na luteria experimental? 
Acho que por integrar diferentes linguagens - música, cinema, vídeo, dança, artes plásticas - e aproveitar recursos locais: materiais e imateriais. Às vezes, a cultura onde você está inserida permite que se façam experiências de um determinado tipo que em outro lugar seriam diferentes. Tenho um amigo músico e educador mexicano que veio ao Brasil no ano passado. Mostrei para ele os sinopets: instrumentos feitos com garrafa pet e afinados com pressão. Ele me disse que o México é o país que mais consome líquidos engarrafados em pet. Então, lá existe um potencial de ressignificação deste material. Ou seja, dependendo do lugar onde você trabalha música e educação musical, você trabalha com diferentes recursos e fontes de inspiração. A luteria experimental inclui isto. Ou seja, tem a valorização das identidades locais, das identidades dos povos e das culturas e dos recursos de cada região. Essa é uma linha de pensamento de vários educadores musicais desde o começo do 20 e que vem de um esforço de tornar a música mais inclusiva, uma ferramenta democrática e de transformação no mundo. A música não é só para as pessoas “talentosas”, porque até então a formação musical era pensada para as pessoas que tinham privilégio e vistas como talentosas. A luteria experimental se insere junto com outras práticas de educação musical, de fazer musical, nessa forma de pensar a educação como uma ferramenta de libertação, como uma prática de libertação.

 

A música não é só para as pessoas “talentosas”


 

A utilização de materiais descartáveis para a criação dos instrumentos muda a forma como as crianças olham para o “descarte”?

Para crianças, poetas e palhaços as coisas não são, necessariamente, o que elas parecem ser ou o que os outros dizem que são. É como o aprendizado da língua, você só se apropria do sentido da palavra a partir da convivência com outras pessoas que usam aquela palavra com determinado sentido. Assim, você começa a usar aquela palavra para dizer o que você quer dizer. O poder da arte é subverter esse enrijecimento (de rótulos e etiquetas). As coisas podem ser outras. Afinal, o que é o descarte? Você pode contar uma história como Chapeuzinho Vermelho usando objetos (caneta, borracha, bola vermelha etc) que a criança vê os personagens que você descreve ali na frente dela, com o olhar da imaginação ativado.

E que retorno você recebe dessas vivências musicais?

Acho que este trabalho traz muito para quem o faz. A gente se coloca no lugar de aprender das crianças. De repente isso muda o olhar dos adultos por tabela, pela transformação que as crianças vivem. Sempre brincamos: “O que é isso?”. E as crianças dizem: “Uma garrafa”. Então, enchemos de ar a garrafa pet, que vira o sinopet, com um som encantador. Voltamos a perguntar: “E agora, o que é?”. Todas olham com espanto ao ver que a garrafa virou outra coisa. O retorno que tenho de grupos regulares de vivência musical são pais e mães que me contam estar passeando na rua com o filho e de repente ele para em frente a um poste de metal, pega um galho, bate no poste e escuta o som que reverbera. Ou seja, o mundo ao redor da criança vira uma pesquisa, um lugar poderoso onde é possível ressignificar e se conectar com sons, como o da própria respiração.


 

Para crianças, poetas e palhaços, as coisas não são, necessariamente, o que elas parecem ser ou o que os outros dizem que são

 

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QUE SOM É ESSE?

Som, ruído ou música? Lixo, objeto não-reconhecido ou instrumento musical? São essas as questões (e desafios) que irão nortear a oficina Invensons que os músicos Angelo Mundy e Adriano Castelo Branco realizarão durante a 10ª edição do Mercado Manual no Museu da Casa Brasileira, dia 4 de maio, às 15h. A ideia é que materiais e objetos que poderiam ser vistos como “descarte” ganhem um novo significado poético e sonoro ao se transformarem em instrumentos musicais. “Proporcionamos um contato lúdico com os fundamentos da música – timbre, altura, intensidade –, buscando despertar e desafiar as habilidades de construção, design e escuta. A intenção é que as crianças sejam protagonistas de seus processos de aprendizagem e criação”, explica Mundy. Confira a programação completa do MM10 aqui.


 

Texto: Maju Duarte
Fotos: Tati Wexler

 
EntrevistaDani ScarteziniMM10