Da semente ao tecido

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Estima-se que a cada hora, meia tonelada de resíduos têxteis são produzidos apenas no bairro do Bom Retiro, capital paulista, de acordo com útimo levantamento feito pelo Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo (Sinditêxtil-SP). Um número que fica ainda mais preocupante ao ajustarmos o foco para o Brasil, onde 170 mil toneladas/ano são jogadas em aterros e oceanos, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Além do consumo consciente de roupas, somado a preocupação com todo o ciclo de produção de cada peça que você usa – questões levadas à CASA MANUAL durante a Semana Fashion Revolution 2019, o que mais é possível fazer para mudar esse cenário de desperdício têxtil e poluição do nosso meio ambiente?

Lá na ponta desta cadeia, a matéria-prima tem papel fundamental. Afinal de contas, é preciso pensar como será o ciclo de vida dela quando chegar o momento do descarte. Entre algumas soluções apontadas pelo mercado têxtil mundial está um maior uso de fibras naturais no processo de fabricação de fios e tecidos. No Brasil, o estado do Amazonas é considerado o maior produtor de fibras naturais. A exemplo da juta, fibra orgânica, resistente e biodegradável, cultivada por comunidades ribeirinhas.

Desde 1966, a Castanhal Companhia Têxtil investe na cadeia sustentável gerada pela juta. Fios e tecidos usados, principalmente, para fabricação de grandes sacos que armazenam café e outros produtos agrícolas, e pela indústria de calçados. Recentemente, passaram a ser adotados também na confecção de roupas e acessórios. “Essa prática tem grande potencial, já que a fibra é natural e não gera resíduo para o meio ambiente”, enfatiza Sheila Martins, coordenadora de marketing que conta como é a atuação desta empresa que será parceira da MANUAL na 10ª edição do Mercado Manual no Museu da Casa Brasileira. É a Castanhal quem assina a cenografia do nosso festival de cultura feita à mão, neste compromisso frente à natureza, saberes e fazeres manuais.

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Como é feita essa parceria com as comunidades que cultivam a juta?
O cultivo da juta na região norte do nosso país descende da década de 1930 e, desde então, a juta é cultivada por famílias da região, que fazem dessa agricultura sua principal fonte de renda. Atualmente mais de 15 mil famílias vivem a partir da cultura da juta às margens do Rio Amazonas e Solimões, na região amazônica. A Castanhal subsidia as sementes para estimular o cultivo da juta na região norte do país. Os agricultores plantam e na colheita eles vendem para a Castanhal, e demais empresas do setor, a fibra cultivada na região.

Além da preocupação com a origem da matéria-prima, há preocupação com a confecção, descarte e reuso. A Castanhal adotou a economia circular?
A Castanhal acredita na economia circular desde a sua fundação, levantando a bandeira da sustentabilidade desde 1966. A empresa gera oportunidades econômicas, promovendo a agricultura familiar na região norte do Brasil e mantendo as características naturais da fibra de juta em todo o seu processo produtivo.

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Para isso existe uma certificação ambiental?
A Castanhal tem a certificação orgânica concedida pela BCS Oko e o Pesticide Free que garantem que nossos produtos seguem o preceito de agricultura orgânica por não empregar nenhum agrotóxico e pesticida no plantio da juta, além de utilizar óleo vegetal, proveniente da palma, em sua produção e tintas à base d’água na marcação das sacarias. A juta é biodegradável e compostável, o que garante seu retorno ao meio ambiente de forma natural.

Qual o futuro da juta no mercado têxtil?
A juta tende a ganhar cada vez mais espaço no mercado têxtil já que preenche uma grande demanda que é o tecido sustentável e ambientalmente correto. Ele dá novas possibilidades de criação para a indústria da moda.

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Ciclo natural

>> O plantio da juta é realizado nas margens dos Rios Solimões e Amazonas no início da vazante. São terrenos nos quais o ciclo anual de cheia dos rios impede o crescimento natural da floresta ou a prática de alguma cultura permanente. Não é necessário o uso de queimadas ou qualquer outra técnica para limpar o terreno porque a cheia do próprio rio se encarrega disso. A lama deixada após a vazante serve de fertilizante natural, tornando desnecessária a utilização de adubos químicos;

>> Quatro meses após ser semeada, a planta alcança uma altura de três a quatro metros e um talo de 2 cm de espessura e inicia-se imediatamente a colheita;

>> As árvores são cortadas rente ao solo por meio de foices, são limpas das folhas e mergulhadas em feixes dentro dos rios por alguns dias. Após esse processo, os feixes são retirados de dentro do rio, a fibra é separada do caule e colocada para secar em varais.  A fibra útil é contida entre a casca e o talo interno e a extração é feita pelo processo da maceração;

>> A fibra seca é vendida, então, para a Castanhal, que transporta esse material para sua fábrica no interior do Pará. No processo de transformação da fibra em tecido são utilizados apenas aditivos orgânicos e óleos vegetais;

>> Quando descartado, o produto feito de juta se desintegra completamente em menos de um ano sem deixar qualquer resíduo ou provocar dano ambiental.


(Fonte: http://www.castanhal.com.br)


Texto: Maju Duarte
Fotos: Andrea Ribeiro / Castanhal Companhia Têxtil