Lixo é produto

 

Ao apreciar o “desimportante” das coisas do cotidiano, o escritor Manoel de Barros já escreveu: “O que é bom para o lixo é bom para a poesia“. O poeta, cuja obra fica em exposição no Itaú Cultural até dia 7 de abril, só não sabia que o lixo teria outro fim. De inspiração para os versos do escritor pantaneiro, o lixo também pode ser matéria-prima para a criação de móveis, tecidos, objetos e outros suportes. Sob esta perspectiva, o que antes era lixo vira resíduo e volta a ser produto. A exemplo de restos de espelhos reaproveitados no processo de fabricação de pisos ou da fibra da casca do coco em material para proteção termoacústica na construção civil.

No entanto, o lixo ainda não é reaproveitado como poderia ser. Durante o ano de 2017, cada brasileiro gerou 378 kg de resíduos, segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), divulgada ano passado. Desta imensa quantidade de rejeitos, o plástico chama atenção. Quem fez o alerta foi a WWF, que em março divulgou um relatório que coloca o Brasil na quarta posição entre os países que mais produzem lixo plástico no mundo e uma das nações que menos recicla esse material. Segundo a organização reconhecida como Fundo Mundial para a Natureza, o Brasil produz 11, 4 milhões de toneladas de plástico por ano, mas recicla apenas 1,3% deste total. Enquanto países como a Alemanha recicla 37,9% do plástico fabricado.

Se há soluções práticas para um novo destino ao lixo orgânico doméstico ou para roupas e outros objetos sem uso em casa, o que ainda nos impede de ressignificar o lixo? Quem fala sobre o assunto é Carol Piccin, diretora-executiva e fundadora da Matéria Lab, empresa que propõe soluções inovadoras e sustentáveis a partir de pesquisa, tecnologia e design, visando a criação de produtos e de negócios de impacto sócio-ambiental.

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Economia circular

É importante termos esse pensamento de ciclo de vida. Então, devemos olhar para o resíduo como um produto e não como um problema. Resíduo não é lixo, ele é um produto. Seja uma roupa, uma embalagem de leite ou a sacola do mercado. Se na natureza tudo se transforma, como gerir produção e consumo da mesma forma? Há pessoas preocupadas com essa questão, com uma economia que fecha o ciclo para evitar impactos ambientais e sociais, que fecha o ciclo do resíduo e que gera economia em todas as pontas do processo. Porque se você pegar as duas pontas (da produção e do descarte) aí você tem uma economia circular e não linear. Quanto mais cíclico, menos impacto, menos resíduo.

Estética com nova ética

Vamos falar de produtos que são feitos de resíduos e vamos tirar da nossa cabeça que essas coisas não são bonitas ou que não tem durabilidade. Tudo que a gente faz vem da Terra: o que vestimos, comemos, usamos. A gente tira a matéria-prima da natureza para produzir e, depois, joga fora, fazendo montanhas de lixo. Só que não existe “fora”.

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Se na natureza tudo se transforma, como gerir produção e consumo da mesma forma?


Próximo passo

Qual é o nosso papel como consumidores? Precisamos entender que aquilo que a gente consome faz parte da problemática do resíduo. Então, a gente tem que se colocar dentro desse sistema. E, sem julgamentos, trazer a consciência para fazer uma transformação gradual, da forma como cada um consegue.


Texto: Maju Duarte
Vídeo: Daniel Wood / Casa Dobra
Fotos: Bruna Bento / Casa Dobra
Produção: Rede Manual e Casa Dobra

 
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