Manualidades e criatividade dos mares de lá

SANDA PAGAIMO - 4 (1).jpg
 

Principalmente na última década, a cultura feita à mão sinaliza um levante em diferentes partes do mundo. Neste cenário, vivenciamos o fomento de uma rede de saberes e fazeres manuais que, somente no Brasil, já soma 8,5 milhões de artesãos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística (IBGE). Dessa forma, a busca por peças únicas, feitas por pequenos empreendedores preocupados com o impacto ambiental e social só cresce.

Nos mares de lá, mais especificamente em Portugal, Filipa Belo observou de perto esse movimento. Com formação na área de marketing, em 2016, ela organizou a primeira edição de um mercado 100% sustentável: o Organii ECO MARKET em Lisboa. Na época, ela trabalhava em uma empresa de cosméticos orgânicos. No evento, conheceu alguns dos artesãos que integrariam, dois anos mais tarde, outro projeto.

Ao se mudar para Brasília em 2017, com o marido e os dois filhos, Filipa criou a plataforma Portugal Manual, onde ela realiza uma curadoria de artesãos contemporâneos portugueses, inspirada na Rede MANUAL. “Conheci a MANUAL durante as minhas pesquisas. Foi amor à primeira vista e uma grande inspiração ver que deste lado do oceano havia um projeto com a mesma filosofia e partilha de valores”, conta.

O resultado deste encontro pode ser visto na Casa MANUAL, de 28 de março a 7 de abril, quando será realizada a exposição “Terra à vista - Brasil volta os olhos para a cultura portuguesa feita à mão”. Sob curadoria da Portugal Manual, a mostra “propõe uma viagem ao hoje e agora do artesanato português, baseado numa forte tradição do saber fazer mas com uma estética contemporânea”, explica Filipa. Ao todo, serão 25 marcas “inspiradas nas nossas raízes, viagens, no modo de ser português e inclusivo de ver o mundo”, complementa. Peças dos segmentos de moda, casa & design, artigos infantis, serigrafia e joalheria trabalhadas a partir de materiais diversos.

DE ALMA E CORAÇÃO - 3.jpg

O principal objetivo é reposicionar a imagem do novo artesanato português através de novos contornos


Filipa.jpg

Quando você começou a se interessar pela cultura feita à mão?
Sou uma entusiasta do empreendedorismo, do consumo sustentável e da economia de partilha. Com a maternidade, comecei a ter grandes preocupações acerca do mundo que queria deixar para os meus filhos e rapidamente isso se tornou um lema de vida. A procura por produtos orgânicos, sustentáveis, longe das produções em série, me fez pesquisar muito e descobrir um movimento que estava se implantando em Portugal com bastante força já em 2012. Foi nessa época, enquanto fazia o enxoval do meu filho mais velho, que comecei a valorizar muito o trabalho que minha avó, sogra e tias faziam. Nunca fui boa em trabalhos manuais e abrindo o coração para a complexidade de algumas técnicas, comecei a me apaixonar por todos esses processos. E acima de tudo, pelo ato de amor que é colocado numa peça feita manualmente.

Foi a partir deste encontro que você começou a trabalhar com saberes e fazeres manuais?
Essa vontade de querer promover um mundo mais justo e equilibrado me fez enviar um e-mail para uma empresa de cosméticos orgânicos propondo sociedade. Minha proposta não foi aceita, mas sendo a resiliência uma das minhas principais características, enviei um e-mail enumerando razões pelas quais essa empresa precisava de mim. Durou uma semana até me contratarem. Em 2016, fiquei responsável pela organização da primeira edição do 1º mercado 100% sustentável - o Organii ECO MARKET. Tínhamos uma área dedicada à promoção de marcas sustentáveis e aí conheci alguns dos artesãos que hoje integram a Portugal Manual.

DE ALMA E CORAÇAO.jpg

Nunca fui boa em trabalhos manuais e abrindo o coração para a complexidade de algumas técnicas, comecei a me apaixonar


Como foi essa mudança para o Brasil?
Viemos para o Brasil por questões profissionais do meu marido em agosto de 2017. E essa mudança de vida me proporcionou tempo para estruturar o que queria fazer e seria com artesãos portugueses. Eu já sabia, só faltava descobrir a forma. Conhecendo as histórias e desafios que os artesãos enfrentavam diariamente, me fez ter uma vontade imensa de promover esses projetos que são de pessoas para pessoas. Com a minha vinda para o Brasil, trouxe todos no coração e comecei a pensar numa maneira de promover esses trabalhos que, por questões de logística e\ou financeiras, não conseguem ir tão além. Estudei e pesquisei muito sobre esse encontro do design com o artesanato. Dessa paixão e procura nasceu a Portugal Manual.

Quais as ações promovidas pela Portugal Manual?
O principal objetivo é reposicionar a imagem do novo artesanato português através de novos contornos que redesenham objetos, ideias e valores. Acredito profundamente no saber fazer dos novos artesãos, aliando a tradição manual com a imaginação, reinventando conceitos com um olhar contemporâneo, criativo e cosmopolita. Quando falamos de novos artesãos somos levados, inevitavelmente lá atrás, onde tudo começou. Porque acredito que “a melhor maneira de projetar um país no futuro é valorizando o seu passado”.  Essa frase é do meu marido, que me inspira muito e também é um motor de arranque diário.

SANDA PAGAIMO - 2  (1).jpg
 

Acredito profundamente no saber fazer dos novos artesãos, aliando a tradição manual com a imaginação


E como você conheceu a Rede MANUAL?

A rede Manual apareceu durante as minhas pesquisas. Foi amor à primeira vista e uma grande inspiração ver que deste lado do oceano havia um projeto com a mesma filosofia e partilha de valores. A imensa vontade de fazer algo em conjunto tornou-se um objetivo que acabou se concretizando bem mais cedo do que imaginei e isso me enche de orgulho do percurso desse projeto ainda tão recente.

Os laços entre a cultura feita à mão no Brasil e em Portugal estão se estreitando?

Sim. Por isso, desde logo senti uma vontade imensa de conectar os dois projetos (Portugal Manual e Rede MANUAL). Um laço que os dois países já estão estreitando em diversas áreas. Vejamos na música, por exemplo, Carminho canta Tom Jobim, Antonio Zambujo canta Chico Buarque. O Vhils e o Bordalo II levam suas obras de street art para várias cidades brasileiras. Entre outros exemplos. Aí pensei que essa era a hora de promover esse encontro pelo viés do artesanato.

CM_EXPOPortugal_facebook.jpg

Conheça os 25 artesãos e marcas portuguesas que fazem parte da exposição:

Joias

// Ines Telles / @inestelles_jewelry

 // Allis Jewellery / @allisjewellery

 // Clelia Jewellery / @cleliajewellery

 // Joana Mota Capitão / @joanamotacapitaojewellery

  

INFANTIL

 // Noogmi / @noogmi

 

DESIGN E CASA

 // Anna Westerlund / @annawesterlundceramics

// Arminho / @arminhostudio

// Margarida Fabrica / @margarida_fabrica

// Nieta Atelier / @nieta_atelier

// Tex MB / @tex_mb

// Sugo Cork Rugs / @sugocorkrugs

// Rival / @rivaldesignermaker

// Teresa Gameiro / @teresagameiro

// Iva Viana / @iva.viana_sculpture

 // Alguidar / @alguidarknit

 // Maria Castel-Branco / @mariacastelbranco

 // Jinja / @jinja_ritual

 // Beija - Flor / @o_beijaflor

 // Maria Pratas / @_maria_pratas_

 // Fulana Beltrana Sicrana / @afulanabeltranasicrana/

 // OFCINA 166 / @oficina166_dianamcunha

 // Projecto TASA / @projectotasa

  

MODA

 // Maria Descalça / @mdescalca

 // António Handmade / ‍@antonio_handmadestory

 // À Capucha / @a_capucha 


Foto: Sanda Pagaimo / De Alma e Coração / Diogo Pérez
Texto: Maju Duarte

 
EntrevistaDani Scartezini