Rainhas ameaçadas de extinção

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Elas adoçam nossa vida e nos proporcionam um líquido com propriedades medicinais conhecidas há séculos por diferentes povos. O que poucos se dão conta é de que as abelhas também são as principais responsáveis pelos alimentos que levamos à mesa todos os dias. Dados do primeiro Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimento no Brasil, fruto da parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), mostram que 76% das plantas utilizadas para produção de alimentos no Brasil é dependente do serviço ecossistêmico de polinização realizado por animais. Sendo as abelhas os principais polinizadores agrícolas.

Ou seja, as abelhas participam da polinização de 80% das plantas cultivadas ou silvestres, sendo polinizadores exclusivos de 65% delas. Mesmo diante deste protagonismo, uma urbanização desenfreada, mudanças climáticas e o uso indiscriminado de agrotóxicos vêm provocando a morte de milhares delas. No começo deste ano, o alerta foi feito por uma dupla de biólogos das universidades australianas de Sidney e Queensland.

Os pesquisadores analisaram 73 artigos científicos recentes sobre a perda de biodiversidade entre insetos. A conclusão? 40% dos insetos, entre estes as abelhas, correm risco de extinção. Ameaça provocada, principalmente, pela agricultura intensiva. Mais especificamente pelo uso de pesticidas e de fertilizantes.

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S.O.S Abelhas

Conscientes deste cenário, Carlos Barrichello Jr. e sua irmã Andrea Barrichello realizam um trabalho de preservação das abelhas nativas brasileiras. Criadores e sócios da Beeliving Mel, eles praticam a meliponicultura (criação de abelhas nativas sem ferrão). Apenas duas vezes ao ano, na primavera e no verão, eles colhem os meles produzido por jataís, uruçus, entre outras espécies. É Carlos quem coloca a mão nas colmeias, complexas estruturas compostas por pequenos potes de “ouro líquido”, cultivadas num sítio que fica no extremo sul do estado de São Paulo, em uma área preservada da Mata Atlântica.

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Um elixir que é distribuído em pequenos e preciosos potes, além de servir de base para outros produtos. Como os sabonetes feitos em parceria com a Natural da Terra Alquimias, e o JUN kombucha. Todos vendidos por e-commerce e em feiras como o Mercado MANUAL. “A presença nas feiras é muito importante porque é onde conseguimos fazer esta troca direta com os consumidores e passar toda essa informação do universo das abelhas nativas”, explica Carlos.

Além disso, a Beeliving se dedica ao projeto Poliniza, em que visitam a casa de pessoas interessadas em ter o próprio enxame. Para isso, há um análise do espaço e aprendizado sobre como cuidar e preservar essas abelhinhas sem ferrão. Dessa forma, explica Andrea, é possível ampliar um trabalho de conservação e de valorização da nossa biodiversidade. “Ensinamos e relembramos o cuidado que temos que ter com elas para ressignificar o consumo do mel com consciência, gota a gota, honrando o trabalho destas polinizadoras guerreiras”, defende Carlos.

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Ensinamos e relembramos o cuidado que temos que ter com elas para ressignificar o consumo do mel com consciência


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Zum zum zum

No Brasil, são conhecidas mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão. Todas responsáveis pela polinização das plantas de ecossistemas como a Caatinga, o Pantanal e Mata Atlântica, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Espécies de abelhas nativas são manejadas para a produção de alimentos ou lazer, compondo também o conjunto de conhecimentos e de práticas culturais de povos indígenas, comunidades tradicionais, produtores agrícolas e meliponicultores.

Mesmo assim, a meliponicutura ainda não é tão reconhecida no país quanto é a apicultura (criação de abelhas ápis africanas, europeias e africanizadas) que criou uma grande indústria do mel. “Outra dificuldade é a indústria do veneno, que está acabando com nossas abelhas com o uso indiscriminado de agrotóxicos. Então, temos o trabalho de levantar a bandeira dos produtos orgânicos, do pequeno produtor, da agrofloresta”, destaca Carlos.

Preservar as abelhas nativas sem ferrão, conscientizar as pessoas da importância do trabalho de rainhas e operárias aladas soma-se a outro sonho da Beeliving. “Queremos poder ajudar nossa Terra e nossas abelhas de alguma forma, preservando e multiplicando as abelhas, fazendo nosso trabalho polinizando pessoas, incentivando o plantio de arvores e flores, conscientizando as pessoas e principalmente crianças”, conta Andrea.

Por isso, os sócios já se preparam para um novo projeto. A ideia é que, ainda neste ano, eles possam abrir o sítio onde fazem a meliponicultura para visitação. Os primeiros a ter contato com as abelhinhas serão as crianças. Assim, “poderemos ensinar desde cedo essa nova geração que vem chegando”, complementa Carlos.

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Nosso sonho é ter um projeto social onde possamos fazer a diferença


 
Foto: Daniel Wood / Casa Dobra

Foto: Daniel Wood / Casa Dobra

Foto: Daniel Wood / Casa Dobra e Beeliving Mel
Texto: Maju Duarte