Comprar consciente começa por fugir do consumismo

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Há um grande desafio a cada edição do Mercado Manual: apresentar uma nova opção de consumo às pessoas, acompanhado de entretenimento, de passeio, de tempo com a família ou amigos queridos. Uma possibilidade de consumo que apoia o pequeno empreendedor criativo, estimula iniciativas benéficas para o mundo e, principalmente, que descarta a urgência que a sociedade está acostumada. A questão é que, quando se trata de comprar, não é difícil ver tudo descambar para o consumismo, a compra em excesso e sem reflexão de itens que podem, no fim das contas, acabar sem nenhuma utilidade.

Conversamos sobre o tema com Giovanna Nader, cofundadora do Projeto Gaveta, encontro criado com a proposta de promover a troca de roupas e acessórios por meio de uma moeda própria. A iniciativa, diz a empreendedora, defende que as pessoas sejam mais e possuam menos, rompendo com a lógica de buscar prazer imediato com o consumismo.

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“Há alguns anos moda e sustentabilidade eram coisas que não conversavam entre si. Moda era tendência. Sustentabilidade sempre foi uma busca duradoura”, diz.


 

Hoje, afirma, este cenário mudou. O desabamento do prédio de uma fábrica de tecidos em Bangladesh, em 2013, matou quase 400 pessoas e mostrou o lado obscuro da indústria de roupas. A tragédia, conta Giovanna, provocou um despertar para a necessidade de comprar com mais consciência, de marcas éticas, que cuidam da própria mão de obra, e de empresas transparentes, que evidenciam de onde vem o produto e qual é o impacto dele no meio ambiente e na sociedade.

Nesse novo contexto, não é mais a indústria que dita o que as pessoas vão fazer o usar. O poder passou para as mãos do consumidor, avalia Giovanna. “As pessoas escolhem para quem dar o dinheiro. Elas têm a força para decidir o que vão apoiar.” Segundo ela, a moda está cada vez mais ligada aos valores individuais. “Queremos consumir melhor para viver melhor, reduzir o nosso descarte, apoiar marcas que trabalham por um futuro mais interessante. A moda que dita tendências vai morrer. Ganha força esse olhar de que cada um faz a própria moda, com menos logomarcas e mais personalidade e customização.”
 

Assim, Giovanna indica vários caminhos para quem busca consumir de forma mais consciente:

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• Escolher as marcas: apoiar projetos que pensem não só em lucro, mas também em trabalhar por um futuro melhor, que sejam responsáveis com a cadeia produtiva e o meio ambiente.
• Abrir os olhos para a economia circular: ressignificar e reutilizar é sempre uma opção melhor do que consumir peças novas. Comprar de marcas que trabalham conceitos de upcycling, customizar roupas em casa e investir em brechós são boas escolhas.
• Comprar para durar: é essencial aumentar o tempo de vida de cada item ao tomar os devidos cuidados de uso e lavagem.

A empreendedora reforça ainda que mesmo se a possível compra atender a todos os requisitos acima, antes de passar o cartão é essencial fazer uma reflexão honesta. “O consumo faz parte da sociedade em que vivemos.  Já o consumismo vai além disso: é comprar algo muitas vezes inútil para preencher um vazio, é a busca por uma alegria momentânea”, alerta. Segundo ela, evitar que este comportamento se repita mesmo quando se trata de marcas éticas é uma responsabilidade importante de cada indivíduo.

O pensamento segue a linha criada pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky, que desenvolveu teorias sobre o hiperconsumismo. Em entrevistas, ele já disse que comprar pode dispensar sensações ruins momentaneamente, mas nunca trará paz ou harmonia:

 

“Consumir não basta. A felicidade exige outra coisa, principalmente na relação com os outros e consigo. É possível ter satisfação ajudando os outros, as crianças, sentindo-se útil, lutando pela ecologia. O homem não pode se reduzir a um consumidor.”


 
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Giovanna acrescenta que as pessoas devem se fazer algumas perguntas antes de levar peças novas para casa. A ideia é entender se o desejo de consumir reflete alguma ansiedade ou a simples vontade de pertencer a um grupo social. “Precisamos ter certeza de que o que compramos realmente nos expressa. Para chegar ao consumo consciente, todos os elos da cadeia de valor precisam trabalhar juntos: marcas, clientes, fabricantes de insumos como tecidos. O consumidor faz parte disso. Não adianta só apontar o dedo para as empresas”, reforça.

Texto: Giovanna Riato