“Namore com o seu ofício”, diz Jairo Pereira

 Foto Mariana Ser

Foto Mariana Ser

 

Jairo Pereira é músico, ator e líder do Mutum, projeto musical que defende até o fim a revolução pelo amor. Ele também é também vocalista do Aláfia e o homem que segurou, no gogó, a atenção dos visitantes do Manual na MCB que aconteceu em maio. Como o evento não podia ter alto falantes ou amplificadores, ele subiu no palco e encheu a festa de poesia e música, sem microfone. Foi bonito de ver.

Ele diz ter achado o seu lugar no mundo conforme se encontrou com a música. Veio de uma infância cheia de letras e ritmos, cantaroladas pela mãe ou vinda dos discos de vinil na vitrola. Mas foi ao escutar rap que seu universo se expandiu. “Mudou a minha vida. Eu tinha 12 anos e ouvia Thaíde e Dj Hum, Radionais, Consciência Humana... Ver jovens iguais a mim, pretos, cantando suas vidas, nossos dramas, me fez desejar cantar”, lembra.

Empreendedor criativo, convicto de que a arte transforma o mundo, ele se apresentará com o Mutum no Manual na Pinacoteca, no dia 1º de setembro. Na entrevista a seguir conta como é viver de música. Fala dos desafios, das alegrias e, claro, diz quais são suas inspirações, como alimenta a criatividade.

 Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Como você se encontrou com a música?
Minha infância sempre foi muito musical, minha mãe cantarolava, ouvíamos vinil na vitrola, fitas cassete. Mas foi quando ouvi o rap que a minha vida mudou. Eu tinha uns 12 anos e comecei a escutar Thaíde e Dj Hum, Racionais, Consciência humana, Pose Mente Zulu, DMN, entre outros. Ver jovens iguais a mim, pretos, cantando suas vidas, nossos dramas, me fez desejar cantar, me mostrou que era possível.

E quando virou profissão?
Foi em 2004 que realmente vivi este sonho com a banda Afrodisiakos. Gravamos um disco e lançamos, um lance de rap com samba, falando de amor, ancestralidade africana, luta e afeto. A banda durou pouco menos de três anos e só entre 2010 e 2011 voltei de fato para música com o Aláfia, que hoje já possuí três discos, turnês nacionais e internacionais no currículo. Foi neste projeto que me enxerguei como um profissional da música, que encontrei a segurança para inclusive, desenvolver um trabalho autoral. Tenho outra profissão, que caminha junto com meu lado musical: sou ator, uma carreira que descobri enquanto cursava publicidade. Já fiz várias peças, conheci Angola, França, Grécia por causa de teatro e atuei em centenas de campanhas publicitárias.


Como surgiu o Mutum? Qual foi a inspiração e quantas pessoas estão envolvidas no projeto?
Começou em 2015, lançamos o primeiro disco no final de 2017 e já estamos preparando coisa nova. Na época em que Mutum nasceu eu me dedicava a um canal autoral de poesias em vídeo, o Alpiste de Gente. Um dia resolvi fazer uma leitura de algumas destas poesias e marquei no jardim suspenso do Centro Cultural São Paulo. Esperava que ninguém fosse, mas me surpreendi: umas 30 pessoas apareceram. Dali em diante não parei mais: chamei Lucas Cirillo (gaita) e Gabriel Catanzaro (baixo), pra fazer um show, depois o Pedro Bandera (percussão) para somar e aí foi inevitável convidar o maestro Fábio Leandro (teclado), Dudu Tavares (Guitarra) e o Filipe Gomes (Bateria). Assim, formei uma banda com amigos, companheiros de Aláfia e vida.

 Foto Mariana Ser

Foto Mariana Ser

 

A inspiração veio da minha necessidade de expressar aquilo que me afeta, os embates, os dilemas, o todo, nossas confusões em coletivo e nossas formas de amar. O pássaro Mutum, que dá nome a banda, é um sobrevivente, foi quase extinto de nossa natureza, mas continua ai, firme.


 

Quais realizações como músico te deixam mais orgulhoso?
A música vive me dando presentes lindos, nunca para. Cantar com Elza Soares, Carlos Dafé, Tony Tornado, Mateus Aleluia, Margarete Menezes, junto de tantos outros foram alguns deles. Por causa da música cantei na França, Turquia, Finlândia, Portugal, Dinamarca, Colômbia, Uruguai, Chile, sem contar os muitos lugares por onde passei aqui no Brasil. Estar em estúdio gravando um disco é lindo, cantar para as pessoas e sentir a troca também. São coisas que não têm preço. Me orgulho de ser um artista de palco.

Quais são os maiores desafios da carreira artística?
A falta de grana, a ansiedade, a expectativa, a vaidade, o medo, o tempo... Existem os mais diversos tipos de desafios, principalmente sendo artista brasileiro, preto. Ainda assim, acredito que podemos buscar em nós uma comunhão com a arte e a usar para nos descobrir, nos lapidar, boa parte dos desafios limitantes caem por terra. Podemos sempre contar com nós mesmos para não nos perder no caminho.

Que dicas você daria para alguém que quer construir carreira na área?

• Questione o sistema do qual você faz parte

• Questione suas próprias convicções

• Namore com seu ofício, leve-o em shows, exposições, cinema, teatro, saraus, para tomar sol

• Estude, ensaie, repita, faça e desfaça e torne a refazer

• Busque por opiniões sinceras, exercite a generosidade

• Tenha disciplina

• Se alie a outros artistas, acredite em seu trabalho, não desista

• Se trate com amor. Não é um caminho fácil, mas é uma trilha linda

 Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Como artista, você acredita que a criação depende mais de inspiração ou de organização?
Uma boa inspiração sem dúvidas se desenvolve muito melhor numa atmosfera organizada. Eu não sou um exemplo de organização, mas a todo momento vivo inspirado, escrevo quase todos os dias, sejam bons ou ruins. São poesias, pensamentos, canções, textos. Minha criação não depende de minha organização, foi pro caderno ou digitei no celular, está criado. Porém a organização é fundamental para gerar com qualidade um disco, um livro, um clipe, um filme, uma peça. É a organização que tira o sonho do papel, que usamos para planejar a carreira, profissionalizar os projetos, rentabilizar e crescer.

Como é o seu processo criativo? Quais são os principais ingredientes para que você chegue a bons resultados?
Escrevo sempre, ensaio semanalmente, estou constantemente em contato com minha obra, gosto de assistir a outros artistas, adoro escutar suas histórias, busco estar sempre aberto, observar os lugares, as pessoas... Meu processo criativo é o mundo, a todo momento, seja virtual ou organicamente, recebo estímulos diversos, milhares de referências. Tem vezes em que me fecho, geralmente crio na madrugada, que é silenciosa, mas gosto de trocar com outros artistas também.

E o que você tem escutado, lido ou visto ultimamente que considera inspirador?

Ando escutando muito o novo disco do Gilberto Gil, esse cara é detentor de uma sabedoria universal, alguém que realmente deveríamos escutar, pedir conselhos, é uma dessas luzes que abrem a visão. Também tenho lido o livro "Auto-biografia de um Iogue", de Paramahansa Yogananda.  Um filme que me tocou muito ultimamente foi o "A forma da água".

 Foto Mariana Ser

Foto Mariana Ser

Texto: Giovanna Riato