Luiza Voll conta como a sustentabilidade encheu sua vida de significado

 Foto tag  FIA  por Gleice Bueno

Foto tag FIA por Gleice Bueno

 

O Instagram de Luiza Voll é um respiro nas redes sociais. Ali ela compartilha dicas de como ser mais sustentável no dia a dia, usa a hashtag #hackeandoacidadegrande para descrever os caminhos que encontra para viver sem se render ao ritmo frenético da capital paulista e, ainda, se empenha para tornar a internet mais humana e acolhedora. Esta é, inclusive, a missão da Contente, empresa que fundou ao lado de Dani Arrais para ajudar marcas e pessoas a conversarem na rede de forma mais consciente.

Luiza conta que adotar um estilo de vida mais sustentável e consciente foi o primeiro passo para curar a angústia que sentia diante da incapacidade de solucionar os enormes problemas ambientais, econômicos e políticos da sociedade. Ela percebeu que ao exercer na própria vida as transformações positivas, teria mais força para construir e apoiar a evolução coletiva. Assim, incorporou a máxima de ser a mudança que quer ver no mundo.

A empreendedora diz que a transição para um estilo de vida mais sustentável é contínua. Um passo de cada vez, mais sempre em frente. O importante, defende, é sair da inércia. “Hoje me sinto mais presente e consciente, entendendo um pouco mais sobre o que está por trás das minhas escolhas e o que isso tem a ver com o mundo. Pode ser desafiador, mas consigo levar com leveza, fazendo o melhor que posso, um dia após o outro”, conta.

Na entrevista a seguir, ela dá dicas de como ampliar o impacto positivo no mundo, fala sobre a própria transformação, dos desafios do caminho e, claro, das recompensas do estilo de vida mais sustentável.

DSC_14272234.jpg

O que é ser sustentável para você?
É fazer escolhas que consideram não somente o meu próprio bem-estar, mas também o bem comum, a natureza e as futuras gerações.

Como você incorpora esta ideia na sua vida mesmo vivendo em uma grande cidade?
A sustentabilidade entrou na minha vida por causa da busca pessoal por mais conhecimento sobre a natureza e sobre a origem e o processo de produção das coisas. E o mais bacana disso é que agora esse conhecimento me acompanha onde quer que eu esteja, seja em uma grande cidade, no interior, em uma viagem… Acho legal pensar no porquê tentar ser mais sustentável e não no onde. Quando comecei a entender e a me interessar sobre a origem das coisas (que comemos, que consumimos, que usamos) pude enxergar o que estava por trás de cada coisa e, assim, a fazer escolhas melhores onde quer que eu estivesse.
 

Alguns princípios que me ajudam independentemente do lugar onde estou são:

• Evitar o consumo por impulso e desnecessário. Para mim a redução do consumo é sempre o mais importante.
• Tentar consumir ao máximo de produtores locais e entender de onde vem o que eu compro.
• Cozinhar cada vez mais em casa.
• Reduzir mais da metade dos resíduos da casa por meio da compostagem (que transforma o lixo orgânico em adubo).
• Na hora das compras, evitar ao máximo todo tipo de embalagem, principalmente o plástico de uso único.
• Priorizar o conserto do que estraga, em vez da compra de algo novo.
• Experimentar o fazer a mão: o que você poderia produzir com suas próprias mãos em vez de comprar? Uma pequena horta, cosméticos naturais, o pão de cada dia… autonomia é um conceito importante da sustentabilidade.
 

 Instagram: @luizavoll

Instagram: @luizavoll

De que maneira você começou a despertar para este conceito?
Vivi duas experiências muito fortes e fundamentais: a primeira foi uma viagem para Alter do Chão, no Pará, em que tive um contato muito intenso com a natureza e que também abriu as portas em minha vida para a espiritualidade. No ano seguinte fiz um curso na Schumacher College, na Inglaterra, que trouxe o conhecimento que eu precisava para iniciar uma transição para um estilo de vida mais conectado com os meus valores.

Como foi a transição para um estilo de vida mais sustentável?
A transição é contínua, tem sempre algo que sei que posso melhorar e um grande desejo de expandir a minha consciência. De toda forma, a sensação de ter saído do piloto automático é maravilhosa! Hoje me sinto mais presente e mais consciente, entendendo um pouco mais sobre o que está por trás das minhas escolhas e o que isso tem a ver com o mundo. Pode ser desafiador, mas consigo levar com leveza, fazendo o melhor que posso, um dia após o outro.

Quais são os hábitos nocivos mais difíceis de se livrar?
Uma parte importante de fazer escolhas mais conscientes é conseguir sair do piloto automático e parar para se questionar e, na sequência, planejar. Nesse sentido, aceitar a oferta da praticidade é um dos hábitos mais difíceis de se livrar para mim. Não é sempre que consigo ter o tempo para fazer tudo da forma como gostaria, então estou sempre na busca por não optar simplesmente pelo o que é mais prático, mas sim pelo que faz mais sentido.

 Instagram: @luizavoll

Instagram: @luizavoll

Quais dicas simples você pode dar para quem quer ampliar o impacto positivo no mundo?
Toda transformação positiva que aconteceu em minha vida foi por meio do conhecimento, então meu conselho é sempre este: buscar informação e conhecimento. Use a sua curiosidade como uma bússola e a educação como a ferramenta de impacto mais poderosa. Ao entender o funcionamento das coisas você será capaz de fazer escolhas melhores onde quer que esteja, independentemente de fórmulas. Sei que não parece a dica mais simples, mas acredito ser a que vai te levar para uma transformação mais duradoura e verdadeira.

 Instagram: @luizavoll

Instagram: @luizavoll

Quais erros você cometeu na busca por um estilo de vida mais sustentável?
O meu principal erro foi no início da jornada: comecei achando que a transformação deveria ser tão, mas tão grandiosa, que travei. Foi só quando decidi começar por mim mesma, dentro da minha casa e na minha própria vida, dando um passo de cada vez, que consegui me mover. Olhando pra trás é bonito ver o caminho que parecia ser tão difícil e foi sendo trilhado com calma e perseverança. Por isso sempre trago para mim a responsabilidade de ser a mudança que eu quero ver. Só quem pratica em sua própria vida tem a força de inspirar os outros a fazer o mesmo e é assim que a mudança ganha a escala e a grandiosidade que tanto sonhamos.

O tempo é um bem cada vez mais escasso. Você acha que viver de forma mais sustentável demanda mais tempo dedicado? Como você constrói este espaço na sua vida?
No início pode parecer que demanda mais tempo sim, mas na verdade é justamente o contrário. Quanto mais eu estudo sobre sustentabilidade e quanto mais eu pratico, gasto menos tempo desejando ou comprando coisas que no fundo não vão me trazer felicidade. Essa redução tão grande do consumo de bens foi acontecendo naturalmente na minha vida e me possibilitou ter bem mais tempo.


 

Muitas vezes não nos atentamos, mas o tempo está em tudo o que consumimos. Se precisamos de menos coisas, ganhamos muito mais tempo.

 

Como você coordena o seu estilo de vida com o seu negócio, a Contente?
A Contente sempre foi um espelho dos meus interesses e dos da Dani Arrais, minha sócia. Nós criamos a empresa para viver um formato mais humano e gentil de trabalho. Então o negócio vai se adaptando às nossas jornadas. É claro que tem muitos dias que a quantidade de trabalho dita o ritmo, mas tentamos sempre organizar para garantir que tenhamos tempo para a vida fora dele também. Muitas vezes é neste espaço que a inspiração mais forte para o trabalho acontece.

O empreendedorismo é, para você, mais uma ferramenta para ser sustentável, é parte da sua transformação pessoal?
Não necessariamente. O empreendedorismo veio antes do interesse pela sustentabilidade. Com este formato de trabalho tenho mais liberdade para me organizar, uma grande vantagem para mim. O que tenho percebido é um crescente interesse das pessoas pelo empreendedorismo por causa da busca por um trabalho que esteja mais conectado com seus valores pessoais, com um propósito. A verdade é que eu sempre acho positivo tentar trazer estes valores para onde quer que você esteja vivendo ou trabalhando. As empresas precisam de pessoas comprometidas com a mudança. Só assim elas farão esta transição.

 Instagram: @luizavoll

Instagram: @luizavoll

Captura de Tela 2018-07-18 às 15.35.20.png

Como é a sua rotina? O que mais gosta e o que gostaria de mudar?
Em meu perfil no Instagram costumo usar a hashtag #hackeandoacidadegrande porque é isso que eu sinto com a minha rotina em São Paulo. Consegui organizar uma vida com ritmo de interior dentro da cidade. Trabalho em casa ou no escritório do meu marido, que fica bem perto de onde moramos. A maior parte da rotina também acontece no bairro. Gosto de cozinhar todos os dias então também ficamos bastante em casa. Sempre tento encontrar o tempo de conversar com meus vizinhos, com pessoas interessantes que vou conhecendo. O que mais gostaria de mudar na minha rotina é o meu vício com o digital. Já melhorou muito, mas ainda acho excessivo. Como trabalho com isso, se torna um grande desafio, mas que acredito ser importante encarar.

Que dica você pode deixar para os leitores da Rede Manual?
Vou deixar uma frase que me ajudou muito na minha jornada: "Ontem eu era inteligente, queria mudar o mundo. Hoje eu sou sábio, estou mudando a mim mesmo” Rumi, místico e poeta persa do século 13.

Me lembro exatamente do momento que li esta frase, colada em uma das paredes da Schumacher College. Neste momento caiu pra mim a maior ficha do mundo. Da angústia enorme que eu estava sentindo diante de gigantescos problemas ambientais (e sociais, econômicos e políticos, pois tudo está relacionado), de repente encontrei uma rota de ação, que me tirava da paralisia. Eu não passei a acreditar que somente mudando a mim mesma eu iria mudar o mundo inteiro, mas entendi que se não for capaz de mudar nem a mim mesma, que força terei para apoiar mudanças coletivas? Que força têm as palavras de quem propõe mudanças e ações que não vive verdadeiramente na esfera pessoal? Na minha experiência, de pouca a nenhuma. Desde então, essa frase passou a me guiar.

 Instagram: @luizavoll

Instagram: @luizavoll

Texto: Giovanna Riato