“O Ser Manual precisa de sombra para florescer”

06_MANUAL_SouManual_PostDelleva_v01.png

“Minha mãe sempre foi manual. Talvez seja uma herança para mim”, diz Carolina Delleva, que tem sua vida baseada no fazer criativo como ceramista, cantora e compositora. Ela carrega o poder do que é artesanal desde as raízes, mas precisou percorrer longo caminho para aceitar e desenvolver seus dons. “O melhor é sempre perseguir a nossa verdade”, defende como quem acredita nisso até o último fio de cabelo.

35941137514_75d8bd2284_o.jpg

A paixão pelo feito à mão despertou cedo em Carol. Ainda criança, adorava brincar na terra, sentir a textura fria do barro nas mãos. Mais tarde, se arriscou em algumas esculturas de bichos e também se interessou por massagem, pelo poder de cura do toque. O fazer criativo, no entanto, sempre ficava reservado ao segundo plano enquanto Carol tentava atender aos padrões de sucesso esperados: cumprir a agenda de uma educação formal e arrumar um bom emprego. Nunca deu certo. “Sou visceral, intensa e sempre estive desencaixada.” Ela, enfim, entendeu que precisaria criar o próprio caminho, ainda que pouca gente acreditasse nele.

MM7_CasaAzul01.jpg
MMMorumbi2_Shows37.jpg

Devagar, (re)descobriu e se entregou à cerâmica. Desenvolveu a sua identidade ao criar vasos em forma de cabeças, uma mistura de beleza e estranheza. São peças que celebram a força e a verdade da imperfeição, muitas vezes trincados ou com pequenos desajustes. As criações feitas sem amarras e sem possibilidade de reprodução encontraram público ao longo do tempo. A música é outra força criativa que Carol descobriu, mais um caminho para transbordar a própria inspiração. Ao lado de sua banda, Delleva, ela acaba de lançar um disco.


Assim, Carol conseguiu alcançar o sucesso que tanto buscou lá atrás, mas em termos particulares. Uma verdade pessoal. “Tudo tem um preço. Tive muita dificuldade para me encaixar e encontrar equilíbrio financeiro, mas jamais conseguiria fazer de outra forma. Preciso trabalhar no meu tempo e ter liberdade para doar a minha energia ao que eu quero”, conta. E prossegue: “Cresci ouvindo que não era boa o bastante e por muito tempo busquei a perfeição que os outros queriam, mas hoje descobri que o meu errado sempre foi certo.”
 

“Não é fácil todos os dias, existe um lado positivo e um negativo sempre, mas é aquele clichê: o importante é o caminho, não o lugar. Precisamos seguir em frente.” Para ela, o Ser Manual se alimenta justamente da força e da beleza de cada ciclo. “A minha inspiração precisa de sombra para florescer. Nada é feito só de luz e precisamos aceitar as nossas transformações e o fato de que nem sempre estamos da mesma maneira. Ser Manual é conseguir se conectar com o nosso interior para perceber e respeitar isso”, resume, com a sabedoria de quem precisou se perder antes de se encontrar.

Foto Carolina Delleva para #soumanual: Naira Mattia
Texto: Giovanna Riato
Produção: Floristas e Casa Dobra