Um bate-papo com Gleicy Silva sobre empreendedorismo e cultura afrobrasileira

 
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De voz suave e ponderações fortes, mulher negra, primeira pessoa da família a fazer faculdade, Gleicy Silva passou cinco anos estudando a Feira Preta, evento que acontece anualmente em São Paulo desde 2002. Além de pequenos produtores e artesãos negros, com trabalhos voltados também a esse público, a feira reúne uma programação cultural e artística que fortalece a cultura afrobrasileira e seu movimento no país.

O resultado dessa pesquisa, publicado em 2016 e desdobrado em artigos recentes, é sua tese de doutorado em Antropologia Social pela USP: "Empreendimentos sociais, negócios culturais: uma etnografia das relações entre economia e política a partir da Feira Preta em São Paulo”.

A seguir, Gleicy fala sobre o cruzamento entre empreendedorismo e ativismo negro e aponta o que espera nos tempos que estão por vir. Mesmo que haja retrocessos, acredita ela, o espaço já foi conquistado. “Os negros ganharam visibilidade no mercado, tanto como produtores quanto como consumidores, e não podem mais ser ignorados.”

Como foi sua pesquisa de doutorado. Quais eram suas questões iniciais?
Inicialmente, eu tinha interesse em fazer uma pesquisa que envolvesse relações raciais e questões de gênero. Fiquei sabendo da Feira Preta através de alguns amigos. Na época, o evento estava fazendo nove anos e eu nunca tinha ouvido falar. Isso foi algo que me surpreendeu. A Feira era um evento mais conhecido por pessoas próximas da militância negra. Na primeira edição que fui, em 2011, fiquei impressionada com o tamanho do evento, que recebia em torno de 12 mil pessoas, no Centro de Exposições Imigrantes, e conjugava atividades culturais e de comércio. Era um espaço de compartilhamento de diferentes linguagens culturais e do empreendedorismo de produtores negros com uma ampla variedade de produtos, entre livros, roupas, cosméticos. Meu primeiro impacto foi pensar justamente essa relação entre ativismo político e empreendedorismo. 

Em que cenário emerge o empreendedorismo negro no Brasil? 
A Feira Preta nasce em 2002 num contexto de mudanças políticas de grande impacto para a população negra no país, que pode ser delineado em quatro aspectos: a ampliação do acesso ao ensino superior (sistema de cotas, políticas de financiamento, ampliação das universidades federais etc); a ampliação das políticas culturais; o aumento do poder de consumo das camadas populares; e o aumento do perfil do trabalhador centrado na figura do empreendedor. A Feira Preta conjuga essas quatro transformações de uma maneira muito potente. Quando se associa ensino superior e transformações nas políticas de cultura, tem-se um crescimento muito grande da população negra fazendo cultura, entrando na universidade e construindo novas formas de engajamento político. Existe um impacto nas demandas dessa população, na maneira como as pessoas começam a circular por esse espaços e também a transformar os mecanismos de visibilidade. 

 Feira Preta 2017 | Foto: @feirapretaoficial

Feira Preta 2017 | Foto: @feirapretaoficial

 

Os negros ganharam visibilidade no mercado, tanto como produtores quanto como consumidores, e não podem mais ser ignorados


 

A ideia de estudar ativismo político e empreendedorismo foi bem recebida na universidade?
Na minha entrevista do processo seletivo para o doutorado, as professoras ficaram intrigadas porque a Feira Preta abordava a economia criativa, uma linguagem contemporânea global que relaciona economia a cultura. E a novidade era a militância negra em torno do empreendedorismo. Era interessante indagar de que maneira o ativismo negro entrava nessa conversa, já que os produtores estavam dedicados à criação e oferta de produtos e serviços direcionados especialmente à população negra. Além disso, embora a Feira Preta tivesse sido criada na Praça Benedito Calixto (em Pinheiros, SP), conhecida por sua tradicional feira de antiguidades, e nos anos seguintes tivesse ocupado grandes espaços de exposição, como o Anhembi, o evento era pouco conhecido. Essa era outra questão: a invisibilidade da feira na cidade. Como as pessoas não ouviam falar do evento? Essa invisibilidade já trazia uma questão política.

 Foto: @feirapretaoficial

Foto: @feirapretaoficial

Existe empoderamento da população negra via empreendedorismo?
A ideia de empoderamento é de grande circulação nesse meio, mas, como antropóloga, eu tinha que colocar essa categoria em questão. A figura do empreendedor tem forte associação com alguém criativo e autônomo, que faz o que gosta, especialmente quando está atrelado à dimensão da cultura. Mas uma das coisas que eu não podia ignorar era o que significava o empoderamento e de que maneira a precarização do trabalho aparecia nesse conjunto de atividades. Então, o que eu ressaltei em minha pesquisa foi, sobretudo, o empoderamento político. No momento em que essas pessoas entram para o mercado e começam a jogar na mesa suas demandas para serem produtoras, e não só consumidoras, isso de fato tem um impacto político na comunidade negra. As pessoas começam a participar, a se envolver. A Feira Preta não se sustenta há 17 anos só com intuito de gerar riqueza, mas de fortalecer uma comunidade de produtores. A ideia é produzir outra mentalidade e fazer circular dinheiro na comunidade negra entre produtores e consumidores. Aí essas pessoas vão crescendo – a depender do sucesso do seu negócio, de oportunidades de crédito, parcerias, entre outras coisas. Nas redes sociais, por exemplo, observa-se como aumentou a visibilidade dos cabelos cacheados, a ideia de tirar a química de alisamento dos fios. Tudo isso passa por um processo político. O empoderamento, então, é muito mais das pessoas começarem a pensar o consumo em termos de representatividade: "essa loja não me representa tanto". E dessa questão de se sentir no direito de participar da economia. Mas, em termos de geração de renda, ainda é grande o desafio dos produtores. 

 

A Feira Preta não se sustenta há 17 anos só com intuito de gerar riqueza, mas de fortalecer uma comunidade de produtores


 
 AFROLAB, programa idealizado pela Feira Preta com o objetivo de apoiar, promover e impulsionar o afro empreendedorismo no Brasil, por meio da oferta de conhecimento e capacitação com foco em inovação e inventividade.

AFROLAB, programa idealizado pela Feira Preta com o objetivo de apoiar, promover e impulsionar o afro empreendedorismo no Brasil, por meio da oferta de conhecimento e capacitação com foco em inovação e inventividade.

Como é a concorrência por parte de grandes marcas?
De 2002 para cá a economia mudou muito. As grandes empresas começam a perceber, dentro dessa lógica da representatividade, a importância dos produtos segmentados e passaram a investir em seus produtos, numa linguagem retórica voltada a esse “empoderamento”. E essas grandes empresas têm vantagens indiscutíveis, como capacidade de produção, preço, facilidade de acesso. A maioria dos pequenos produtores não têm loja física, atendem só pela internet. Então o consumidor fica diante de um impasse. Você entra em uma perfumaria hoje e vê todos os tipos de produtos para cabelos "conversando" com essas mulheres. Pois não são só produtos, são produtos que conversam: "cachos poderosos" e coisas do tipo. Tem um apelo muito grande nesse viés político. Somado a isso, esses itens fabricados pela indústria são mais baratos. Por isso, se você for procurar dos pequenos produtores, tem que ter a iniciativa: "quero de um pequeno empreendedor, quero conhecer quem faz esses produtos". A grande maioria das pessoas acaba consumindo na lógica do custo-beneficio. Conheço pessoas que esperam o ano todo a Feira Preta acontecer para fazer compras, conhecer as marcas novas. Mas não é a maioria. 

O discurso do ativismo também está na boca de grandes empresas?
Sim, de diferentes formas. Em dezembro de 2012, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fez uma apresentação no TEDx Euston chamada “We Should All Be Feminist” (Todos nós devemos ser feministas, em tradução livre) em que trazia o feminismo como preocupação de homens e mulheres. Pouco tempo depois um trecho de sua fala foi incorporado em uma música de Beyoncé [com a devida autorização da autora]. Teve impacto muito grande. Nesse intercurso, a Dior, em um de seus desfiles, lançou uma camiseta com a frase “We Should All Be Feminist”. Uma fala política quando estampa uma camiseta Dior ganha outros significados. São outros sujeitos que estão usando essa camiseta. Então, aonde estão esses emblemas? Eles estão circulando. Mas circulam desigualmente.


O antropólogo inglês Peter Fry, em seu artigo “Estética e política: relações entre ‘raça’, publicidade e produção de beleza no Brasil” afirma que, a partir da década de 1990, surgem no mercado produtos identificados com a noção de “cultura negra”. Tanto esse consumo quanto a sociabilidade promovida em torno dele estimulam a luta política da população negra. Como você observa isso em sua pesquisa? 

Na questão negra, a estética é uma dimensão integral da política, porque o corpo negro é o grande alvo do racismo. É um corpo que tem que se colocar politicamente nas ruas. E isso se fortaleceu muito no Brasil, sobretudo a partir da década de 1970 com a inspiração dos movimentos pelos direitos civis da população negra nos EUA, na África do Sul. Tem um histórico de transformações em torno da percepção do negro enquanto sujeito político. Mas de fato, com essas mudanças dos anos 2000 para cá os movimentos políticos negros ganharam maior visibilidade. E no que diz respeito ao mercado de consumo, esses pequenos empreendedores começaram a ver um nicho  muito poderoso. Mas, ao mesmo tempo em que eles estão vendo, as grandes empresas também estão.

 

A ideia é produzir outra mentalidade e fazer circular dinheiro na comunidade negra entre produtores e consumidores


 
 Jairo Pereira do Mutum. Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Jairo Pereira do Mutum. Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

O que você chama de empreendedor cultural?

O termo empreendedor cultural está associado à noção de economia criativa, de você produzir cultura e ter impactos econômicos. Muitos artistas acabam abrindo CNPJ pra disputar editais [leis de incentivo à cultura].  São artistas que, muitas vezes, acabam se tornando empreendedores de si mesmos e precisam se formalizar para lidar com o Estado e empresas privadas que oferecem editais.

Diante do atual contexto político do país, quais são as perspectivas para os ativismos negros e também para as conquistas já adquiridas?

Acredito que temos muita coisa a perder, mas também tem muita coisa que não perdemos mais. Digo nós porque, embora eu não seja uma empreendedora, sou uma mulher negra acadêmica, primeira pessoa da minha família a entrar na universidade. Também sou fruto do impacto dessas políticas [que vieram do início dos anos 2000, com sistema de cotas, aumento de vagas em universidades públicas, etc]. Essas pessoas já estão na universidade produzindo conhecimento. São tempos sombrios e realmente dá muito medo do que pode vir. Mas, mesmo diante de retrocessos, não perderemos a força e o ímpeto político que já temos.

Foto Divulgação e Feira Preta
Texto: Priscilla Santos
Edição: Maju Duarte