Mag Magrela leva o feminino para os muros da cidade

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Os muros da cidade são território disputado, em constante queda de braço entre a força das autoridades e a liberdade dos artistas. É território majoritariamente masculino. A Mag Magrela desafia estes consensos como artista plástica e grafiteira ao espalhar autorretrados por São Paulo, as vezes representada como mulher e, em outras, como homem. “O fundamento do meu trabalho é a expressão livre e o questionamento.”

Com estilo visceral, a artistas conta que seu maior desafio como artista foi se descobrir e entender como indivíduo, encontrar o próprio caminho. Se percebe como um filtro de sentimentos e sensações da cidade, que ela transcreve em palavras que depois viram os desenhos. Inconformada, faz questão de ir onde a dificuldade está: de pintar na periferia, onde o machismo é mais presente, para mostrar para as meninas que a arte na rua é sim um espaço que pode ser ocupado pelas mulheres.

Para Mag, a arte é tão desafiadora quanto necessária para a cidade, um alívio na selva de pedra.

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“Principalmente em São Paulo, as artes são uma válvula de escape. Um respiro. Um pensamento diferente. Não-manipulado. Tem uma importância fundamental aqui. É o nosso horizonte”, diz.

Na entrevista a seguir, ela fala de suas inspirações, das barreiras que enfrenta como artista e das recompensas que descobriu com o fazer manual e criativo.

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Mag, conte-nos como foi o seu processo até se tornar uma artista de street art. 
Acredito que todos nós nascemos artistas. Temos a espontaneidade da expressão, seja na dança, canto, desenho. Arte é expressão, comunicação. A diferença é que eu continuei a desenhar. Tentei ser “normal”, mas minha alma sempre me levou ao desenho. Até que, em momento de crise interna, comecei a procurar cursos de coisas que eu gostava de fazer, fiz a oficina do Senac com o Rui Amaral, lá conheci amigos queridos e, com a companhia deles, comecei a pintar na rua no final de 2007.


Quais foram as maiores dificuldades?
Minha maior dificuldade no mundo da arte foi me ver como um só indivíduo. Me desapegar de todos para poder entender melhor o meu trabalho. Principalmente em São Paulo, as artes são uma válvula de escape. Um respiro. Um pensamento diferente. Não manipulado. Tem uma importância fundamental aqui. É o nosso horizonte.

Quais são as maiores influências e por quê? 
Como não segui o caminho acadêmico, minhas influências foram e são o dia a dia da minha vida. Uma mistura da educação dos meus pais através da música brasileira, com a palavra e com telas que meu próprio pai fazia. Ele pintava telas e aprendi muito com na base da observação. Os graffitis que vejo na cidade me inspiraram a colocar tudo que estava no papel em muros, nas ruas. 

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O que você pensa sobre esse momento que estamos vivendo em relação à arte no Brasil? O grafitti é uma arte urbana contemporânea que poderia entrar para o circuito de galerias? 
Acho ótimo. Não tanto pelo reconhecimento mas pela consciência da expressão, o respeito em tentar entender o outro e, claro, a identificação com a obra. O graffiti é na rua e ponto. É impossível ele estar na galeria. O que vai pra galeria é o artista de rua que utiliza as técnicas dos graffiti com outras técnicas e em outros tipos de suportes, como telas.

Como cria seus personagens? 
Elas são meu auto retrato. Minha parte mulher, minha parte homem. Uma extensão do que sinto ou do que o outro sente. Filtro histórias, vivências, sentimentos. As crio com palavra. Com coisas que leio, ouço e escrevo. Geralmente vem primeiro a expressão da palavra e depois do desenho. Elas nascem assim.

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E o valor de seu trabalho? Quem dá?
Eu dou o valor do meu trabalho. Estabeleci uma base mínima de valor, disso para cima. Me envolvo muito com as telas que faço, tem trabalhos que não têm valor de moeda. São especiais e contam uma parte de mim que não sou mais. 

Fale um pouco sobre a parte financeira. Você vive com seu trabalho? O retorno é justo? 
No começo não, foi um processo de transição. Um processo de acreditar em mim. Porque afinal, são poucos os que têm desde criança consciência da profissão artista. Tive que me fortalecer e entender esse caminho. Hoje consigo viver e investir no meu trabalho. Acho justo.

Como é ser uma mulher em ambiente principalmente masculino? As ruas de São Paulo recebem bem uma grafiteira?
Ser mulher nesse ambiente é fazer a diferença, porque somos poucas. A diferença no sentido de ampliar as possibilidades de ser. De pintar na periferia onde o machismo é mais forte e mostrar para as meninas de lá outro caminho que elas podem seguir também. O mundo não é feito para as mulheres. Por isso que faço questão de pintar. Onde se tem barreiras, é lá que precisamos ir. 

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Você também pinta telas. Como é transitar entre tantos suportes?
As telas são completamente outra energia. Acesso outros canais de expressão quando pinto no ateliê. É um lugar que eu posso me entregar por inteira e usar mais materiais, como aquarela, azulejos, tecido, bordado, para fazer telas, esculturas ou gravuras. Já na rua é imprevisível, mas maravilhoso por causa da comunicação direta e imediata com o público. O que é mais bacana é levar coisas que aprendo nas ruas para as telas e coisas que aprendo nas telas para as ruas. É uma troca.
 

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Como você definiria seu estilo artístico?
Como arte plásticas brasileira ou algo desse tipo. Meu estilo é espontâneo, viceral e sem regras. 

Qual legado você gostaria de deixar para o mundo?
A consciência do ser único e de que é necessário lutar pelo o que você realmente acredita e te faz feliz.

Já trabalhou com outra coisa? O quê?
Já trabalhei no comércio, mas parei quando comecei a vender meus trabalhos de arte. 

Como é ser uma artista brasileira?
Culturalmente é muito rico. Tenho referências incríveis por todos os lados: na família, na cultura indígena, negra, portuguesa e nordestina. Sou um pouco de cada um e faço questão de representa-los no meu trabalho.

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Por que arte de rua?
Porque me sinto útil. Porque consigo retorno imediato das pessoas. Porque me sinto livre pra pintar o que quiser onde quiser. Porque tem escalas grandes. Porque pinto com outras pessoas. 

De que forma você acredita que seu trabalho contribui para a arte cultura do Brasil?
Falo da minha cultura, de mim, da minha infância na Bahia, da minha mãe portuguesa. Falo de como é ser mulher em São Paulo. De como é viver na cidade. Contribuo no sentido da história. Conto contos em cada tela, em cada muro. Misturo a imagem com a palavra.

Qual é o maior fundamento de seu trabalho?
É a expressão livre e o questionamento.

O que te despertou, o que te motivou e o que a faz sentir que está no caminho certo?
A crise de existir me despertou, de fazer coisas que eu não acreditava, de estar infeliz. O que me motivou foi o autoconhecimento, cada dia me descobria mais e mais e estava feliz. Com uma intuição forte de que era esse o caminho. Até hoje me sinto assim. 

Qual o conselho que você daria para alguém que está em busca de um fazer que seja alinhado com sua essência?
Saber quem você é, acreditar em você mesmo e trabalhar muito. Porque quando você ama o você faz, você faz o tempo todo e com gosto. 

Você ama o que faz? Por quê?
Sou completamente apaixonada pelo que faço. Porque eu sou livre.

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EntrevistaDani Scartezini