Mari Rossi é DJ. E ser DJ a levou pelo Brasil e por vários lugares do mundo. Por onde passou, além de fazer dançar, garimpou discos e conseguiu um acervo refinado que a destaca na cena brasileira. Mas ela não vive só da noite. Vira e mexe, também trabalha com comunicação e se envolve em outros projetos musicais (discoteca até em aulas de yoga com uma violinista clássica). Mari convive com o barulho de ser uma mulher multi. E vive o seu ritmo, entretendo e se divertindo.

www.djmarirossi.com

 
 

Hoje é diferente. Mas, há 14 anos, as cabines dos clubes, festas e qualquer evento eram tomadas por DJs homens. E foi nessa cena que apareceu uma menina com uma pesquisa musical que fez os marmanjos prestarem atenção. Era a Mari Rossi.

Eu a conheci muito tempo depois, quando seu nome já figurava nos lineups do Brasil e fora dele. Estava começando a viver a chance de discotecar (coisa que sempre sonhei) e Mari me escreveu: “Que legal! Mais uma DJ na família!”. O sobrenome é igual e, mesmo não sendo parentes, a gente gosta de se chamar de prima e, sempre que pode, ecoa a trilha sonora de nossas vidas.

Mari também produz e participa de projetos que vão além das pickups, como discotecar nas aulas da Yoga Live e tocar no Elektra – um show no qual se apresenta com uma violinista clássica. Agora, se prepara para mais uma virada: vai lançar uma rádio online e criar identidades sonoras para marcas.

Ela tirou uma tarde para garimpar seus vinis e encontrar coisas que tinham a ver com a #AMF. Começou o set com Egberto Gismonti – a música que ela mais ama na vida,  feita no ano em que nasceu. Depois tem downtempo inglês, soul americano e músicas brasileiras dos anos 70, 80, 90 e 00.

Mari colocou tudo o que ama e a representa.

A música.

A vida.

E o silêncio.

Aperte o Play e leia a história com set de Mari Rossi especialmente para a #AMF

Mari Rossi_set exclusivo para #AMF by Amomeufazer on Mixcloud

Conheça a história de Mari Rossi

Como todo DJ diz, sempre gostei de música.

Frequentei clubes desde muito cedo e, quando comecei a trabalhar, gastava meu salário inteiro na galeria 24 de maio, no centro de São Paulo. Todos os presentes, Natal, aniversário ou qualquer outra ocasião, eram discos. A meu pedido, claro. A fama de que eu tinha todas as novidades cresceu e meus amigos me chamavam pra tocar em suas festinhas.

Passei a tocar em clubes em 2000, mas a profissionalização veio mesmo em 2001, quando meu padrinho Carlos Soul Slinger me chamou para tocar no Ecosystem, um festival de quatro dias na Amazônia, com artistas e imprensa do mundo inteiro. Foi um festival totalmente sustentável que entrou para a história, feito em uma reserva florestal incrível. Muito à frente para aquela época. Isso chamou a atenção da imprensa e os artistas que participaram deste evento tiveram uma grande projeção. Eu, por exemplo, fui parar nas minhas revistas inglesas preferidas. A partir daí, não parei mais.

 

“A inspiração vem
de muitos lados,
mas acho que nos meus sets o que acaba transparecendo
é a minha essência.”

Foi muito difícil no início. Na época, os DJs eram homens e foi complicado entrar na cena. Mas, hoje, penso que foi tão necessário. Devido a cobrança que caia sobre mim, pesquisei mais, passei horas treinando técnicas de mixagem, gravava fitas cassetes. Essas coisas só me fizeram bem, graças a isso viajei mais para tocar e comprar discos, além de adquirir uma destreza para tocar e mixar vários estilos de música.

A inspiração vem de muitos lados, mas acho que nos meus sets o que acaba transparecendo é a minha essência. Geralmente, gravo meus sets bebendo uma boa cerveja gelada (mas o set para a AMF eu gravei tomando um belo chá inglês). Sempre procuro contar uma história com o máximo de variáveis possíveis. Ou seja, procuro ser eclética, dentro meu estilo. Gosto de proporcionar momentos de euforia, mas também de aconchego e suavidade. Sabe aquela música pra dançar mais calminha, sorrindo ou até de olhos fechados? É por aí. Mas 80% disso depende do público, por isso acredito que o improviso acontece durante todo o set e em todas apresentações. O que é maravilhoso, senão eu seria apenas uma tocadora de sequências.

Já toquei em diversas situações. Além dos festivais, festas e clubes, já fiz muitos eventos, alguns deles bem estranhos. Uma vez fui tocar na festa de fim de ano de uma empresa. Normal, até que antes de mim entra o Sergio Britto, dos Titãs, e começa a cantar aquela música “é cedo ou tarde demais” e a empresa inteira começou a chorar. Descobri que era uma festa de despedida, que a empresa tinha sido vendida e que todos ali tinham sido demitidos. Fiquei muito nervosa, pensando no que tocar para aquele povo. Como não tinha como escapar, afinal eu estava contratada pra fazer aquilo, comecei a tocar coisas que eu julgava serem animadas. Em menos de 20 minutos estavam todos na pista, dançando e cantando como se não houvesse amanhã (e não havia mesmo, né). Saí de lá com a alma lavada. Muitos vieram me agradecer pelo bom momento que passaram com os colegas de trabalho. Saí dali com a convicção que posso entreter pessoas e isso é maravilhoso.

Uma outra ocasião muito legal foi uma festa surpresa de 50 anos, em Perdizes. Nunca vi gente tão legal, animada e informada. Em plena terça-feira, saí da casa da aniversariante as 4 horas da manhã, sob aplausos…quase chorei. Ok, dei uma choradinha no carro, meio que agradecendo à vida pelo que faço. Só toquei coisas que amo muito e as pessoas ficavam tentando abrir mais espaço na sala para mais gente dançar.

Também já toquei na quadra da Vai Vai, depois da bateria, foi emocionante e difícil.

Além do meu trabalho solo, tenho o Elektra, um projeto com a violinista Fernanda Kostchak. Fomos unidas pela nossa agência, a Tune, que tinha uma grande demanda de trabalho por conta de outro projeto de muito sucesso, o Crossover, formado pelo DJ Julio Torres e pelo violinista Amon Lima. Começamos com o pensamento de preencher essa demanda, mas logo viramos parceiras e conseguimos criar uma outra identidade sonora.

Apesar de ser um projeto com apelo comercial, existe pesquisa, construção de bases diferentes e muito estudo por parte da minha amiga violinista, que abraçou o segmento eletrônico com muita dedicação.

Faz mais de dois anos que rodamos o Brasil. Já fomos parar em lugares que nunca imaginamos estar ou passar. É bem divertido e gostoso ter uma companhia durante as viagens. Quando tocava sozinha, ficava muito isolada. As pessoas geralmente só veem o lado “glamuroso” da profissão, mas passamos muito perrengues e é ótimo ter alguém para dividir esses momentos.

Outro momento diferente e muito bacana é quando eu discoteco em aulas de yoga da minha amiga e instrutora Daniella Zylbersztajn. Sempre fizemos coisas juntas. Ela também é designer e, quando lançava suas coleções de suas bolsas, eu discotecava, quando abria showroom, lá estava eu de novo. Foi quase um processo natural ela me chamar para essa nova empreitada.

A Dani dá aulas de yoga há muito tempo, mas de dois anos pra cá, voltou a pegar firme participando de workshops e colocando mais energia nesse lado. E como boa visionária que é, me chamou para participar de sua aula de graduação. Juntas, tivemos a ideia de chamar a Fernanda Kostchak, minha violinista no Elektra, para participar do experimento também. A aula foi um sucesso e daí surgiu o Yoga Live. Fazemos uma aula por mês em lugares diversos como lojas, agências de publicidade, escola de yoga, espaços de eventos. Nosso sonho é fazer em parques. A música muda de acordo com os movimentos, por vezes mais vigorosos e outros mais leves. Todo mundo que participa das aulas elogia muito. Eu mesma fico morrendo de vontade de fazer…

Amo discotecar, mas não é meu único fazer (e nem nunca será). Sou formada em negócios da moda e trabalhei como produtora de moda por um tempo, até me tornar uma DJ “conhecida”. Fiquei um bom tempo apenas tocando, mas me sentia muito ociosa durante o dia. Por isso fui fazer um curso de pós-graduação em jornalismo de moda e trabalhar no site da Erika Palomino. Melhor lugar, na melhor época. Aprendi e me diverti muito com ela e a turma da House of Palomino.

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Saí de lá achando que sabia tudo e vi que não sabia nada. Peguei um bebêzinho no colo chamado Petiscos, que virou um adulto de respeito em questão de ano. Para quem não conhece, o Petiscos é o site de moda, beleza e comportamento da produtora musical Julia Petit. Outra grande escola. Fiquei por lá cinco anos, aprendendo, crescendo, aperfeiçoando e rindo muito também.

Passei por duas ótimas produtoras, a Zeppelin Filmes e The Kumite, que me acolheram com muito carinho. Na Zeppelin, dirigi a parte de comunicação interna e externa da empresa, mas vira e mexe me enfiava em outros setores e sempre fui recebida de braços abertos. Foi uma escola maravilhosa. Agora, me preparo para lançar uma rádio online e trabalhar com a criação de identidade sonora para marcas. Vivo fazendo o que eu gosto. Tenho profissões que me completam, desafiam e me realizam.

Você me pergunta o que é a música quando eu não estou trabalhando. Engraçado isso… estou me concentrando para responder, mas só me vem à cabeça o quanto gosto do silêncio. Também acho que posso pensar dessa maneira porque quem trabalha com o que ama, nunca trabalha.

Texto Karine Rossi Fotos Gleice Bueno