Ludmila Lima, a Luda, queria ser artista quando pequena e hoje faz exatamente isso. É ilustradora. Seu traço, somado às cores das aquarelas, vem se tornando conhecido. É uma mulher de quase 30, muito espiritualizada e com energia de moleca. Cresceu sob o céu escancarado da capital do país, onde formou-se em desenho industrial. Estudou ilustração em Nova Iorque, design em São Paulo e trabalhou em editoras e revistas de circulação nacional. Hoje, além da produção autoral – que expressa suas luzes e sombras – cria aquarelas sob demanda. Quem procura pelas criações da Luda, geralmente, quer o mesmo que ela: expressar com beleza aquilo que toca fundo a alma.

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O vento fala com ela. Eu ouvi. Ela colore com ele. Eu vi. A aquarela da Luda nasce livre e voa…

Nos conhecemos um ano antes de nos encontrarmos. Foi ela quem primeiro retratou a minha história. Era 2012 e a vida tinha me virado do avesso. Decidi que precisava eternizar aquele tempo numa imagem, que já não podia captar com a câmera. Encomendei uma aquarela para celebrar o amor, por minha filha e por minha mãe. Trocamos ideias, imagens, confidências por e-mail e recebi, perto daquele Natal, um abraço e uma bênção em forma de aquarela.

Há duas semanas, enquanto desembalava árvore e enfeites, voaram pela sala cartões com aquarelas da Luda. Que sensação engraçada… Um ano é tão rápido e, ao mesmo tempo, é tanto. Olhei para o lado e não vi mais uma bebê. Respirei fundo diante da imagem nas minhas mãos, que mostrava alguém abraçado a um retrato, e percebi que a saudade virou companheira e já não me corta ao meio.

Luda veio a São Paulo, dias antes, e a gente se olhou, conversou. Entendi.

Para além dos traços físicos, que são imagem e semelhança de suas criações, soube porque tudo é lúdico, espiritual e flutua em sua obra. Ela se reconhece filha de Iansã, senhora dos ventos, nasceu e cresceu sob o céu imenso de Brasília, que nos lembra a todo instante que há algo maior que nós mesmos.

Enquanto eu fotografava, ela pintava. Vi cores surgirem e serem sopradas papel a fora até ganharem forma. Vi uma moça alegre, tão tranquila e natural em seu fazer, que não pude conter um pensamento recalcado de quem sempre quis desenhar e nunca conseguiu: puxa, parece tudo tão fácil para ela… Foi ouvir mais para perceber que nunca é assim do lado de dentro.

Luda é, sim, alguém que hoje tem a felicidade de poder viver integralmente daquilo que lhe dá prazer. Mas, a vocação que logo se manifestou, não tornou seu caminho sem obstáculos. Não foi mais fácil para ela do que para qualquer outro que resolve ter a coragem de seguir adiante dos nãos. E se decide por uma profissão atendendo a um desejo, encarando-o como uma missão, antes de qualquer preocupação material.

É bonito ver que o fazer da Luda a tem levado exatamente aonde sente que precisa ir: ao encontro de si e dos outros.

Conheça a história de Luda Lima

Nasci e cresci em Brasília, brincando entre as quadras arborizadas e debaixo do bloco, como dizemos por aqui, ou no pilotis, tecnicamente falando (risos). Fui sempre muito moleca, sou uma pessoa empolgada e acho que daí saiu o Luda, de Lúdica.

Desde menina, andava por toda parte rabiscando. Minha mãe conta que fiz já um desenho engraçadinho com três anos, falando que era meu pai. Ela era professora do ensino infantil e percebia que a minha expressão no desenho tinha algo de diferente.

A primeira vez que ouvi a pergunta “o que você quer ser quando crescer”, respondi: artista! E lá fui eu para a festa de formatura do primário vestida com uma boininha típica francesa, um godê de aquarela e pincel na mão. Participei, mais tarde, de concursos de desenho na escola. Nem selecionada fui, mas estava lá empenhada. Ficava chateada com o resultado, claro, mas continuava desenhando.

Minha mãe me estimulou muito nesse caminho. Apesar de, certa vez, quase ter me traumatizado ao perguntar se eu queria passar a vida só vendendo quadros na Feira da Torre (risos)… Tinha uma visão de que a arte poderia ser algo muito hippie e descompromissado, mas me matriculava em cursos, me dava materiais. Ela mesmo é uma pessoa muito criativa, que chegou a estudar pintura quando mais jovem, como hobby, mas acabou não trabalhando diretamente com isso. Então, acho que herdei muito dela esse gosto.

O desenho foi sempre minha principal forma de expressão, mas não tinha o traço exíminio. Há um tempo atrás, meus desenhos eram até toscos mesmo, o traço era estranho. Tenho o pulso pesado, não me atentava a tantos detalhes. E nem tenho paciência de ficar muito tempo no papel. Isso foi um impasse para mim. Cheguei a me comparar muito com os outros e sofrer por conta disso. Mas, me expressar era mais importante que a forma, no final das contas.Com o tempo, fui aprendendo a me reconhecer e isso se refletiu no desenho. Fui encontrando meu estilo. Assumir minha sexualidade foi um momento bem decisivo nesse caminho e que me exigiu coragem. Sou alguém que sempre quis entender as próprias fragilidades e superar isso. E dá para fazer um paralelo com o desenho, pois acho muito importante para quem quer se expressar desenhando e pintando, assumir quem você é e fazer isso também no seu traço. Sou muito grata por entender que cada parte da nossa vida faz sentido com outras. A gente descobre que a coragem é um processo. Você constrói gradualmente e, de repente, se vê em um momento que tem que dar um salto. :-]

Falar sobre meu trabalho é também um processo contínuo de tentar me entender. Então, o que eu digo aqui não é fixo, é só o que eu compreendo agora! Abordo muito os sentimentos no meu fazer, o quanto entendemos o que temos aqui dentro e como recebemos o que nos vem. Minha analista diz que eu já fazia análise desenhando e não sabia. (risos)

De fato, meu desenho mistura o que sou – luzes e sombras: nervosismo, ansiedade, neuras x leveza, liberdade, alegria. E crio muitas vezes para tentar ressaltar o meu melhor e tentar entrar mais em contato com isso.

O mais legal é que mesmo quando fazemos algo pessoal, acabamos nos aproximando dos outros também. É muito prazeroso poder externar o que sinto e ainda agradar as pessoas. É muito bonito quando elas se identificam com o meu trabalho e me agradecem. Não estamos sós, mesmo. Quando entendi isso, fiquei extremamente grata.

Claro que nem sempre o processo é fácil. O mais difícil é quando existe alguma trava entre o que eu sinto e o que precisa ser feito. Por exemplo, às vezes, esbarro em temas com os quais não tenho muita afinidade. Isso me exige um bocado para conseguir produzir algo coerente. É difícil também quando os temas me exigem certa responsabilidade, justamente por me identificar tanto…  Mas, se eu não estiver bem emocionalmente, o parto ali vai demandar mais.

Tenho sonhado em fazer meu trabalho voltado para propósitos mais bem definidos e que toque mais as pessoas. Ter uma causa, algo que as faça refletir, que as ajude de verdade. Quero ser mais ativa para que esse mundo evolua, sabe? Isso é urgente, tem muita gente precisando.

Acho que quando a gente percebe as coisas em coletivo, sentindo a palavra “universo” mesmo, sai daquele umbiguismo e se sente mais plena. E anseia em sair da casinha e querer ajudar os outros. A força das relações humanas, aliás, é o que mais me inspira. Acho o ser humano muito complexo e interessante.

E perceber, beirando os 30, o quanto estamos todos juntos é um aprendizado grande para mim. Não estamos sós, como eu tinha dito, e temos que fazer as coisas para ajudar uns aos outros, como forma de reforçar essa união. Eu sigo tentando ajudar pelo meu desenho. Também tenho aprendido a ter muita gratidão por essa vida, por tudo o que temos no mundo, que é maior que nós mesmos.  E isso, que é maior que nós mesmos, é o que nos une. Eu diria, na minha crença, que é Deus mesmo. :-]

Estar em contato com a natureza também é algo importante para mim. É o que me deixa mais calma, me espiritualiza! Tenho uma relação muito forte com o elemento ar em vários aspectos – astrológico, psicológico, espiritual, físico – e isso se reflete nos personagens das aquarelas.

Tudo flutua. Até mesmo meu lugar, pois cresci em Brasília, me reconheci como artista num pouquinho que estive em Nova Iorque, me desenvolvi profissionalmente em São Paulo e voltei para cá, até encontrar os próximos passos. Acho que tudo flutua porque acredito que na vida nada é definitivo, tudo muda, e temos que estar leves para mudarmos, para fluir.

Acredito também que o lugar que a gente cresce nos influencia bastante. O céu da minha cidade é uma forte referência, mesmo. Até quando falo sobre esse algo maior que nós mesmos, o aprendizado disso veio desse céu imenso de Brasília também. Eu agradeço muito ter crescido sob esse céu . <3

Hoje, sou integralmente dedicada ao meu trabalho, amém! Mas isso não foi de uma hora para outra, foi um processo… Eu me formei em Desenho Industrial na UnB, mas lá já descobri que queria ser ilustradora, quis construir isso. Fui morar fora do país, sozinha, para estudar ilustração em Nova Iorque. Sair da casa dos meus pais foi outro momento que me exigiu coragem.

Depois fui trabalhando como designer, juntando uma poupança. Fazia ilustrações além do meu horário de trabalho, até que chegou uma hora em que já havia mais demanda e resolvi investir só nos meus freelas. Aos poucos, a procura pelos meus desenhos foi crescendo, me divulguei mais e fiquei mais estável. Demorou uns três anos para conseguir essa estabilidade. Por isso, foi importante ter uma poupança e, principalmente, AMAR profundamente esse fazer.

A escolha pela aquarela surgiu em um dia que resolvi pintar meus desenhos com ela e senti muita afinidade com aquela água colorida que flui. Que é preciso trabalhar por etapa, que exige espera para secar e me ajuda a trabalhar a paciência – coisa rara em mim.

As pessoas identificam bastante meus trabalhos pela aquarela, mas acho que o que acaba delineando é a maneira como eu desenho os personagens – aquela história dos sentimentos que tinha dito. E a aquarela vem complementando e enriquecendo a mensagem no desenho.

Produzo bastante sob demanda, atualmente.É um trabalho em conjunto entre eu e a história que a pessoa me apresenta quando me procura. Eu me inspiro por fotos, por histórias, por dados interessantes e símbolos que representam algo importante para quem pede a ilustração. No final, elas viram a minha leitura daquilo que me pedem. Adoro fazer isso, as pessoas querem externar e reforçar através de uma pintura aquilo que elas amam.

Na minhas práticas espirituais, pude perceber que meu talento é sim uma missão. Acredito que quanto mais talento, mais responsabilidade se tenha no mundo. Mas para ser uma missão, é preciso amar. E acho também que ao descobrimos nossa missão, começamos a nos sentir mais livres. Essa liberdade é exercida fazendo o que sonhamos, sem medos, sem comparação, simplesmente por amor ao que se faz.

Texto e fotos Gleice Bueno