O destino não é escrito em linha reta. Não é linha, nem é reta. É fio, que com seu volume, segue condutor dos fazeres. Como é flexível, o fio se enrosca em laços ingênuos, que depois se fazem nós, que depois se fazem tramas, que depois, quando se soltam, voltam a fluir e a ser fio.
E é quando a ponta se faz começo, que a história desenrola…

 
 

“A Arquitetura vai te abrir portas, pois é uma formação ampla e que engloba várias das coisas que você gosta”. Este foi o conselho que Juliana Bicudo recebeu de sua mãe, também arquiteta e uma mulher cuja feminilidade sempre brilhou no universo da filha. 

E a lógica do destino desenhou assim: sua mãe uniu a matemática calculada com a inexplicável sinuosidade da mulher, equação que ajudou a fazer de Juliana, uma artista de sapatos. Ou arquiteta dos pés, como ela gosta. 

Seu jeito prático e objetivo esconde uma linguagem complexa, cheia de cores e assimetrias. Uma mulher “pé no chão” que usa esse recurso para administrar sua cadeia produtiva – trabalho duro, sério e de qualidade. 

Impossível entrar em sua loja e não desejar. Eu, completamente apaixonada por sapatos (como quase todas as mulheres do mundo) me entreguei: fiquei descalça pela loja para experimentar cada par, me calçando da beleza e da história que cada um representa. 

Juliana desenha todos os modelos, cria o clima das coleções, escolhe as texturas, as misturas de cores (talvez, sua maior identidade), cada detalhes milimetricamente pensado. 

Mas depois, o desenho voa suave das suas mãos até as mãos calejadas do corte do couro, da costura pespontada, das marteladas nos pregos, um a um, manualmente. Cada peça passa pelas mãos desete pessoas antes de ir para o pé de alguma moça vaidosa. São cerca de 100 mãos – a grande maioria, masculinas, que dão vida às criações de Juliana Bicudo. Sapatos que nascem na delicadeza de uma alma feminina e se materializam no força do masculino para poder caminhar com os próprios pés.

Conheça a história de Juliana Bicudo

Para mim, o momento de escolher a profissão foi bastante angustiante. Eu gostava de muitas coisas e sofria com a hipótese de apenas um fazer para o resto da vida. Foi aí que a minha mãe me aconselhou a estudar arquitetura, assim como ela. Até hoje, guardo o que ela sabiamente disse: “A formação em arquitetura vai te abrir portas, pois é ampla e engloba várias das coisas que você gosta”. Conselho dado, conselho seguido!

Mas, claro, essa história começou bem lá atrás. Me lembro do quanto eu e minhas primam gostávamos de brincar com o guarda-roupa da minha mãe e da minha tia quando éramos crianças. Parte da fantasia estava em vestir aquelas roupas de adulto, tentar se equilibrar nos saltos e alcançar o espelho para passar o batom vermelho.

Minha mãe é conhecida na família por gostar muito de sapatos. Sempre achei que a feminilidade dela era mais evidente dependendo do modelo que escolhia. Essa característica eu herdei e, hoje, posso me considerar uma apaixonada por sapatos e acessórios.

“Como arquiteta,
o meu pensamento
era bastante ortogonal, simétrico, muitas vezes rígido.
Já com os sapatos
eu me permito ousar mais, experimentar formas mais orgânicas e deixar tudo mais feminino
e delicado.”

Mas, a relação que tinha com os calçados era completamente oposta a que tenho hoje. Assim como as roupas, eles eram para brincar, estudar ou sair. Minha mãe sempre foi adepta dos modelos para crianças. Eram peças bacanas, bonitas, mas feitas para crianças. Então essa questão ligada ao desejo de um sapato ou uma roupa foi aparecer só na adolescência (mas com certeza, a expectativa de ganhar um sapato ou bolsa era muito maior do que ganhar uma roupa).

Na época, eu adorava brincar com a coleção de revistas Projeto e Arquitetura & Construção da minha mãe. Vivia pensando nas lindas casas que construiria. Acabei optando por arquitetura e, durante a faculdade, estagiei em várias áreas para experimentar tudo e escolher com segurança o que seria a minha profissão. Trabalhei com patrimônio histórico, design de luminárias, projetos residenciais e planejamento urbano e ambiental.

“A construção da minha marca, a construção do meu fazer me tomou, assim como uma gravidez toma uma mulher que deseja muito ser mãe. Cada passo que o meu fazer dá é uma vitória para mim e me faz mais feliz e realizada.”

Quando me formei, em 2003, fui trabalhar numa empresa de consultoria em planejamento e meio ambiente – uma área bastante diversa da que trabalho hoje, mas que me trouxe muita experiência profissional. Acabei viajando para muitos lugares do Brasil que talvez não conhecesse, se não fosse a trabalho. Ao longo de quase cinco anos trabalhando com relatórios de impacto ambiental, o que mais me deixava insatisfeita era a ausência do exercício da criatividade. Isso me deixou incomodada e me fez questionar minha profissão.

A dúvida veio com a atração por moda e me inscrevi em um curso de design de calçados. Num primeiro momento, era apenas uma brincadeira, uma forma de voltar a desenhar. Mas logo me apaixonei pela possibilidade de criar algo que fosse objeto de desejo.

Fiz um trabalho de coaching que me ajudou na transição da arquiteta para a designer de calçados. Não foi fácil, mas foi gratificante. Esse trabalho de assessoria me ajudou a construir aos poucos minha nova profissão, entendendo melhor sua rotina e suas demandas.

Com certeza, minha formação acadêmica influencia meu trabalho hoje. Minha maneira de criar um sapato vem da forma como aprendi a pensar e construir arquitetura e acho que isso faz diferença. Mas, me sinto mais livre na criação dos sapatos e bolsas. Como arquiteta, o meu pensamento era bastante ortogonal, simétrico, muitas vezes rígido. Já com os sapatos eu me permito ousar um pouco mais, experimentar formas mais orgânicas e deixar tudo mais feminino e delicado.

Em 2007, eu fiz um bazar em casa para as amigas e logo depois passei a participar de outros bazares. Essa experiência foi muito legal, pois dessa forma consegui construir e ao mesmo tempo entender os desejos do meu público. Durante três anos foi assim: eu produzia para atender os eventos que eu participava e isso me possibilitou ter certeza da escolha que fiz.

A loja só veio quando senti segurança. Pude perceber que havia uma demanda das clientes em encontrar os meus produtos num endereço fixo, sem precisar esperar um evento acontecer para se apaixonar por um par de sapatos.

Claro que encontrei algumas pedras no caminho, mas como eu deseja essa mudança,  acabou sendo mais fácil e tudo foi dando certo. 

A minha maior dificuldade foi encontrar uma mão-de-obra que correspondesse as minhas expectativas. Isso demorou um pouco, passei por alguns fornecedores que me deram muito trabalho. Mas logo encontrei uma fábrica que atende grande parte da minha produção e cujos donos/artesãos me ensinam com imenso carinho sobre o mundo dos sapatos. 

Adoro a vivência de fábrica, talvez seja uma das coisas que mais gosto de fazer hoje em dia. Ver o produto que você desenhou tomando corpo nas mãos dos artesãos é muito emocionante. Minha produção é totalmente artesanal. Para o produto chegar à loja, ele já passou pela mão de pelo menos sete artesãos: o modelista, o cortador, o preparador, o pespontador, o montador, o preparador de solado e o pranchador.

Meu processo criativo é bastante singular, pois como não venho da área da moda, acabo buscando na maneira de pensar arquitetura a forma que uso para pensar os meus produtos.

As criações surgem com base nas referências e influências que recebo ao longo do dia. O nosso dia-a-dia está repleto de coisas que nos toca, mas tenho certeza que uma das minhas maiores influências é mesmo a arquitetura. 

Vivo com um caderninho de anotações onde vou compilando minhas informações e referências. Desde formas, combinações de cores, design, etc. Tudo que me emociona acaba servindo como referência para uma nova criação. Hoje em dia posso dizer que o meu fazer ocupa de 70% a 80% do meu tempo. Acho muito, mas aos poucos estou conseguindo equilibrar um pouco essa balança.

Muitas vezes me questionei se deveria mudar o meu processo e tentar chegar mais próximo de como os estilistas pensam, mas aprendi a pensar de outra maneira, e isso tem funcionado. 

 

“Minha mãe é conhecida na família por gostar muito de sapatos. Sempre achei que a feminilidade dela era mais evidente dependendo do sapato que escolhia.”

Com os desenhos prontos, me dedico a combinar as cores e a pensar em uma história que envolva toda a coleção. Essa história irá apresentar os produtos para a minha cliente de uma maneira lúdica e emocionante.Penso que a principal característica do meu trabalho é a alegria com que combino as cores, muitas vezes de maneira inusitada, somada ao traço de uma arquiteta que desenha sapatos. O traço acaba sendo destacado dependendo da combinação que é sugerida para o modelo.

Outra característica, é o cuidado com que a marca é tratada. Desde o ambiente de sala de estar que é proposto na loja, até as embalagens e o atendimento cuidadoso. Digo isso, pois estou muito presente no dia-a-dia da loja e atenta para todas essas questões.

Em mais uma curva

Estou numa fase de transição – meu negócio foi criado e já caminha, mas preciso formar uma equipe para a qual eu possa delegar mais funções e me dedicar mais àquilo que realmente depende de mim. Considero essa fase de muito aprendizado, pois para uma empresa ser saudável é necessário que ela consiga caminhar sem depender de uma única pessoa.

Penso em abrir novos pontos de venda, mas para isso preciso consolidar e aumentar a produção. Entretanto, não penso em vender os produtos em multimarcas, pois acredito que todo o conceito da marca engloba tanto o produto, como o espaço em que eles estão expostos, a embalagem, a equipe de vendas e o pós vendas. 

Quero ver a marca cada vez mais fortalecida, mais pessoas apaixonadas pelos produtos que crio e, consequentemente, mais alguns pontos de vendas charmosos como essa casinha que acolheu tão bem a minha empreitada.

A construção da minha marca, a construção do meu fazer me tomou, assim como uma gravidez toma uma mulher que deseja muito ser mãe. Cada passo que o meu fazer dá é uma vitória para mim e me faz mais feliz e realizada.

Eu fico emocionada por tudo que construí e conquistei. Foi uma escolha bastante difícil quando deixei o meu trabalho para apostar num sonho. Mas deu certo. Acho que se eu não fosse designer de sapatos e acessórios, seria designer de qualquer outra coisa, pois sou apaixonada pela ideia de criar algo e ver isso realizado.

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“Adoro a vivência de fábrica. Talvez seja uma das coisas que mais gosto de fazer hoje em dia. Ver o produto que você desenhou tomando corpo nas mãos dos artesãos é muito emocionante.”

”Tudo que me emociona acaba servindo como referência para uma nova criação.”

“Amo meu fazer porque me faz mais feminina e feliz.”