Helô nasceu numa cidadezinha em meio as montanhas do Espírito Santo. Mudou-se para Vitória para fazer faculdade de Artes Plásticas e 12 anos depois estava em São Paulo. Desde criança, ela sabia que seria artista, mas só depois entendeu que botar a mão na massa, misturando cerâmica e fotografia, seria a base da sua arte.

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Heloísa Galvão, a Helô, é alguém de uma delicadeza que se revela na voz, ou melhor, no silêncio, no olhar e, principalmente, em sua obra.É por meio de sua arte – a cerâmica – que conversa com o mundo, o de fora e o dentro. Transforma, com seu fazer mágico, a matéria amorfa em poesia palpável, materializada em objetos sólidos, mas que falam de leveza, sem perder sua história, a origem densa do elemento original – a terra. Foi dos pais que ela recebeu as matérias-primas de seu fazer. Herdou do pai agricultor o gosto, o dom para trabalhar a terra. E foi observando o jeito de agir da mãe – primeira mestra – que aprendeu a dar leveza aquilo que parece, ou de fato é, pesado.Eu conheci primeiro o trabalho, depois a artista. Ainda lembro o encantamento que senti, há mais de uma década, diante dos botões gigantes que dançavam animados, suspensos na sala da casa de uma amiga, em Vitória. Quis muito conhecer Helô, saber mais, mas nosso encontro só aconteceu anos mais tarde, quando já morávamos todas em São Paulo.Soube pela tal amiga que a capixaba “nascida numa linda e pequenina cidade chamada Castelo, cercada de montanhas no Espírito Santo”, tinha construído asas gigantes de porcelana translúcida, ganhado o mundo e virado mestra.
Eu quis muito fotografar aquele trabalho lindo, de tirar o fôlego, instalado na Capela do Morumbi.

Mas, vivia um momento confuso demais e não pude me organizar para fotografar e, ainda menos, para dar forma ao pedaço de argila que Helô colocou em minhas mãos, logo que fomos apresentadas em sue ateliê, na Vila Madalena.

Hoje, estou feliz por finalmente arranjar e entregar como flor a história que meus olhos souberam de imediato que faria tão bem conhecer. A obra, o fazer, a Helô por inteiro é um convite delicioso para viver mais com mais leveza. Não é a toa que sua cerâmica artística e decorativa versam sobre voar e a utilitária combina tão bem com um delicioso chá ou maracujá…

 

Conheça a história de Helô Galvão

Que papel tem a arte em sua vida?
Acho que a arte é a forma como eu converso com o mundo. As coisas, cores, símbolos foram sempre meu caminho para decodificar o mundo, para entendê-lo e para dizer as coisas, muitas vezes para falar comigo mesma.

Você sempre soube que seria artista?
Sempre soube, desde criança, que a coisa que mais me instigava no mundo era construir objetos, criar formas. Entender que poderia fazer disso meu objeto de estudo e trabalho veio um pouco depois…

Alguém te influenciou neste caminho?
Tive muitos mestres no caminho… A primeira foi minha mãe, sem dúvida. Na infância sempre me apoiou muito. Morávamos em um sítio, no interior do Espírito Santo e não tínhamos muito acesso a materiais de arte, livros de arte… Minha mãe sempre disponibilizou tudo que tínhamos em mãos para minhas construções. Eu desmontava coisas da cozinha pra construir objetos… Quando chovia, moldava barro do barranco e quando as pecinhas quebravam minha mãe dizia que para não quebrarem era preciso queimar em um forno muito especial, próprio para cerâmica. No meu imaginário infantil imaginava aquela coisa mágica, e pensava “um dia vou ter um”.
Tive muitos bons professores na faculdade. Depois, quando escolhi fazer cerâmica, fiz vários cursos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nessa fase, conheci Megume Yuasa, que considero um grande mestre. No mestrado tive como orientadora a Prof. Dra. Norma Grinberg, que é uma grande mestra para mim. E, no ano que passei em Boston, estudei com Kathy King, do studio de cerâmica da Harvard University, que foi muito importante. A partir daí meu trabalho mudou bastante, encontrei meu jeito de trabalhar imagens fotográficas na cerâmica.

Por que escolheu a cerâmica para se expressar? Quando ela entrou em sua vida?
Na verdade é um pouco engraçado, porque a cerâmica veio através da fotografia. Na faculdade comecei a pesquisar processos fotográficos históricos, como cianotipia, van dyck, albúmem, que são processos do início da fotografia. Meu objetivo era aprender a sensibilizar suportes variados para construir “objetos fotográficos”. Trabalhei com papéis e tecidos, mas queria algo que tivesse um caráter mais tridimensional, então comecei a pesquisar cerâmica. Nesse momento não consegui casar bem cerâmica e imagem fotográfica, mas me apaixonei pela cerâmica e por suas possibilidades construtivas. A cerâmica é uma matéria plástica, frágil, que por meio da queima se transforma em matéria rígida e resistente. Uma matéria que permite o movimento e o registra. A cerâmica é um material cheio de possibilidades. Agora tenho trabalhado com ela em estado líquido. Então é tudo novo, outro jeito de trabalhar, outros movimentos, outros registros, outras formas, uma delícia!

O que te desperta para criar? De onde vem a motivação para começar uma série nova ou uma peça?
Não sei, não vem de um lugar só. É um fluxo, onde um trabalho aponta pra outros, num ir e vir, e no fim as coisas fazem sentido e tudo conversa. Acho que na verdade nenhum trabalho é totalmente novo, pois eles estão tão ligados a outros mais antigos, às vezes pela forma, às vezes pelo sentido… No fim acho que tudo fala da mesma complexidade.

Como é seu processo criativo? Como escolhe a técnica, os materiais que vai adotar?
No meu processo de criação a matéria tem uma importância imensa, muitas vezes é a própria matéria que sugere as formas, como é o caso da série líquida. Nesse trabalho, primeiro desenvolvi a matéria – uma porcelana líquida – depois desenhei as formas, que deveriam ser puras e que realçassem a fluidez da matéria. Depois desenvolvi as peças e os moldes de gesso. Só depois, quando coloquei a porcelana líquida nos moldes e verti o excesso é que vi a beleza das gotas fluindo e das bordas irregulares e fluidas. Os trabalhos nascem no processo… Muitas vezes intuitivamente, muitas vezes a partir de uma idéia, muitas vezes a partir de um desenho, mas sempre os trabalhos vão se transformando no processo de construção.

Qual é hoje ou em qualquer tempo a sua maior inspiração?
Meu trabalho fala sempre de leveza. O tema da minha dissertação de mestrado é “A Terra e a Construção de uma Poética da Leveza”. A partir de uma matéria densa e forte e busco leveza. O resultado plástico do meu mestrado foi uma instalação na Capela do Morumbi, onde apresentei sete asas de porcelana translúcida, de três metros cada. Sobre esse trabalho escrevi: “Esses trabalhos fazem referência às possibilidades de transmutação, metamorfose, de transformação das coisas pesadas em leves. Revelam a possibilidade de construção das próprias asas, asas humanas, da própria liberdade, da possibilidade de voar.” Como diz Sueli Rolnik, a singularidade de cada artista está no “pedaço de mundo que escolhe obrar” e nos procedimentos que inventa para isso. Eu escolho falar de leveza.

Seu processo é mais racional ou sensitivo?
Horas racional, horas bastante intuitivo. A maior parte das vezes começa numa intuição que vai tomando corpo e depois precisa passar para uma parte de pesquisa e desenvolvimento bastante prático. A cerâmica é um material muito rico, mas também demanda muita técnica. Para chegar num trabalho novo, muitas vezes preciso repetir algumas vezes até acertar a forma certa de fazer. São várias etapas, desde a produção da matéria, construção da forma, secagem, acabamento, primeira queima, esmaltação e segunda queima. Qualquer falha em qualquer dessas etapas, perco a peça.

A obra tem vida própria ou é você quem comanda racionalmente o processo para assumir uma forma específica?

Um conjunto dessas coisas. Existe a intenção, às vezes racional, às vezes intuitiva, mas uma intenção. Mas também existe o caminho próprio que o trabalho vai tomando.

Você, parece, tem preocupação ou sente a necessidade de estudar em profundidade, teorizar seu fazer. Fala um pouco disso?
Sim, pra mim é importante pensar meu trabalho. Mas é um pouco difícil estar imersa na criação e produção de uma obra e ao mesmo tempo conseguir aquele certo distanciamento necessário para pensar o trabalho, falar sobre ele. Percebi isso no meu mestrado, tive momentos de mergulhar na produção e não conseguir escrever nada, e em outros tive que me distanciar um pouco para olhar para ele e conseguir fazer as conecções. Mas acho que essas coisas se completam. Acho importante o artista falar do próprio trabalho, é o ângulo dele, que é único, diferente do olhar público e do crítico.

Dar aulas é mais um ganha pão ou isso também alimenta seu processo criativo?
Gosto muito de dar aulas.Entro em contato com pessoas muito especiais e interessantes de um jeito muito único, que é o processo de criação de cada um. Meu trabalho é a tentativa de ajudá-los a encontrar um caminho de expressão, a desenvolver uma poética própria. Os alunos de certa forma estão ali, muito perto do meu trabalho. Esse olhar deles tão de perto também contribui bastante no desenvolvimento de meu trabalho.

Onde você nasceu, Helô? Por que escolheu São Paulo para morar?
Nasci numa cidade linda, pequenininha, chamada Castelo, cercada de montanhas no Espírito Santo. Cresci na natureza, num sítio cheio de árvores frutíferas, onde meus pais moram até hoje, e onde estou sempre que posso. Me mudei para Vitória-ES para fazer faculdade de Artest Plásticas e por 12 anos pude olhar para o mar todos os dias.
Depois vim para São Paulo para o mestrado e para ver outros horizontes. São Paulo é um pouco porta pro mundo. Gente, comida, arte do mundo inteiro. Daqui fui estudar em Boston por um ano e estou de volta. Também moro aqui por amor.