Ela é uma florista pouco comum. Utiliza flores irreverentes e transforma objetos antigos e embalagens descartáveis em vasos. Em seu atelier, faz desde um pequeno arranjo até um trabalho de cenografia completo. Mas, sua maior irreverência foi a criação do Instituto Flor Gentil: um projeto que reutiliza flores, capacita mão-de-obra e as entrega em lindos arranjos para idosos, em casas de repouso. Helena ama o que faz e sonha um dia tornar o instituto auto-sustentável e viver dedicada apenas a ele.

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HÁ QUE SE TORNAR FLOR


Há mais ou menos 6 anos, perto da clássica crise dos 30 anos, minha analista indicou-me um trabalho. Disse que eu deveria conhecer uma mulher, que fazia um trabalho de leitura das imagens do nosso inconsciente. Eu passava por um momento de grande frustração com a minha profissão, sem saber o que realmente eu queria fazer da vida e esse trabalho me ajudaria a encontrar respostas. Como boa aquariana que sou, eu óbvio, fui.Chegando lá, depois de apenas dizer meu nome três vezes, ela pediu licença e iniciou a leitura. Contou-me uma história longa, cheia de imagens belíssimas e detalhadíssimas, na qual eu era uma personagem muito interessante: uma florista, que entregava flores a idosos. Ao terminar a história (eu debulhada em lágrimas) a senhora me diz que minha “função no mundo era entregar flores”, ou seja, levar a beleza e inspiração de uma flor para as pessoas. Jamais vou esquecer essas palavras. Tanto que elas viraram um mantra em minha vida: a ponto de estar agora, aqui, escrevendo para vocês, da Floristas. Sim, a AmoMeuFazer, que nasceu (e os outros tantos projetos que se realizam pela Floristas) é uma das formas que encontrei de entregar as tais “flores”. E foi já nesse caminho que encontrei Helena Ludardelli. Uma florista, que entrega flores a idosos. (!) Lógico, que quando eu soube do trabalho do Instituto Flor Gentil, quis muito conhecê-la e ver esse fazer de perto.Uma mulher que recicla (ou resignifica?) flores, cria arranjos com elas e entrega, mão em mão, cada um deles, para pessoas idosas que estão em uma casa de repouso.Vivenciar um dia de entrega do Instituto Flor Gentil, ao lado de Helena e vê-la fazer literalmente o que meu inconsciente mostrou, fez eu finalmente entender o significado daquela imagem da “florista que entrega flores para idosos”. Há que se tornar flor.Helena não entrega flores, somente. Helena é a própria flor.É a presença e a força contida na intenção desse fazer que são entregues e acendem a luz nos rostos envelhecidos e apagados pelo tempo.

 

 

“O que é uma flor? Para mim, um mundo inteiro de possibilidades”.

Conheça a história de Helena Lunardelli

Como foi seu caminho até tornar-se florista?
Fiz faculdade de arquitetura e no curso estudei paisagismo. Depois fui trabalhar com moda. Um dia, duas amigas que tinham uma floricultura me chamaram para ser sócia. Comecei a frequentar o Ceasa… E, no dia que resolvi fazer o primeiro arranjo, entendi a que vim ao mundo. Seis meses depois estava montando meu primeiro atelier.

E a ideia do instituto Flor Gentil, como surgiu?
Surgiu de um questionamento interno mesmo, do tipo, para que eu vim para o mundo, sabe? Senti que precisava fazer algo relevante, que fizesse diferença. Algo que ao morrer uma semente tivesse sido plantada aqui e que pudesse beneficiar mais pessoas, além de mim.

Você se sente responsável por fazer a diferença na vida dos outros? 
Muito. O cuidado que se deve ter quando a gente começa um trabalho social é enorme. Você se sente muito responsável por tudo e todos que consegue cativar e beneficiar.

Por que os idosos?
Por uma questão bastante pessoal. Sempre tive respeito, admiração. Sempre gostei de ficar com eles, de ouvir suas histórias… E, além do mais, não temos aqui no Brasil uma cultura de projetos dedicados a eles.

Você teve aquele momento “que vira a chave”, quando descobriu que ser florista era algo que queria fazer?
Sim. Foi mesmo amor a primeira vista quando fiz o primeiro arranjo. Era para ter sido só uma experiência, pois meu papel lá na floricultura era cuidar dos clientes

Você estudou para aperfeiçoar-se nesse fazer de florista?
Sou autodidata, intuitiva e apaixonada pelo que faço.

Trabalhar criativamente é algo importante para você?
Sempre. É uma coisa de alma.

Você tem mestres inspiradores?
Muitos. Na música, no cinema, na literatura, na rua… E eles vão mudando também.

Como é o seu dia, Helena?
Eles costumam variar bastante. Mas, de domingo a quarta, temos as atividades no instituto o dia todo. Tenho Ceasa bem cedo. Monto os arranjos quando tenho eventos, faço reuniões e recebo visitas no instituto. São dias corridos e com assuntos diversos…

Quantas instituições o Flor Gentil beneficia? Como elas são escolhidas?
Hoje, são 13. Visitamos as instituições que nos escrevem e conversamos sobre o nosso trabalho para avaliar o entendimento delas em relação aos idosos e beneficiados. Percebendo que estão em acordo com a visão da nossa ação, começamos a entregar as flores. A ideia é sempre somar casas e nunca deixar de atender as que já fazem parte do projeto.

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O que aconteceu de inesquecível em suas entregas?
É natural criar vínculos com os idosos e pessoas que estão a nossa volta nesse trabalho. E, nessa fase da vida deles, muitas vezes a piora do
estado de saúde se dá muito rápido. Em uma das casas, havia um idoso com quem eu gostava muito de conversar. Ele estava doente e teve uma piora abrupta de um mês para o outro… 15 dias depois quando voltei lá, fui direto no quarto dele. Estava fechado e vieram me contar que ele havia falecido.

O Flor Gentil já está avançando pelo Brasil? Em que cidades?
Já fizemos entregas no Rio e em Santos. Muitas pessoas ligam de vários estados querendo levar o instituto para lá. A ideia é criar parcerias locais para que isso aconteça. Mas, hoje, isso esbarra na questão dos custos do projeto. De qualquer forma, fico super feliz quando vejo as pessoas se inspirando no projeto e, de forma simples, reutilizando as flores de suas festas para levar a instituições.

Em relação ao Flor Gentil, houve algum momento que teve que decidir arriscar para seguir em frente?
Sim. Até hoje o instituto vive do meu trabalho, ou seja, do meu bolso. Isso me fez trabalhar mais. Tenho mais despesas e não entradas. Em alguns
momentos fico bastante preocupada e, literalmente, me arrisco acreditando que vamos conseguir patrocínio e que o instituto vai conseguir andar com as próprias pernas.

Mas, você teve apoio de sua família, amigos, nessa trajetória? Ou acharam que você estava estava se arriscando demais?
Todos sempre acreditaram e me deram a maior força.

Como você se vê em cinco ou dez anos? Há algo que ainda sonha realizar?
Gostariade lançar mais livros, fazer as flores das olímpiadas com mão-de-obra capacitada pelo Instituto Flor Gentil, torná-lo auto-sustentável e até poder viver me dedicando apenas a ele.

O que poderia dizer a quem não está satisfeito com o seu trabalho?
Sei das responsabilidades financeiras que todos temos. Mas, o resultado positivo de um trabalho só se dá quando exercemos o que fazemos com amor. A nossa essência está ligada ao que acreditamos. Ou seja, é uma pergunta de dentro para fora.

O que é uma flor?
Para mim, um mundo inteiro de possibilidades.

E o que te faz mais feliz nessa história?
Ver que tenho um trabalho com começo, meio e fim. Perceber o quanto eu abranjo, utilizando sempre as flores e beneficiando pessoas. Com isso, claro, eu me beneficio. É uma felicidade só!

Texto Dani Scartezini Fotos Gleice Bueno