A infância de Fabi permeia todo seu fazer. E lendo sua história, fica fácil entender porque uma menina que teve uma infância tão cuidada e amorosa, se tornaria essa mulher que entrega ao mundo de forma preciosa, tantas delicadezas, sutilezas e também a natureza, em forma de jóia.

Sem desviar de sua essência, Fabi encontrou a realização em seu fazer e revela através dele, seus mais sinceros sentimentos. O resultado não poderia ser mais belo.

 
 

Costumo dizer que fui uma criança com cobertura extra de açúcar de vó. Meus avós moravam conosco e cresci aprendendo com eles. Lembro de ficar desenhando com meu avô e vê-lo fazendo os móveis para minha casinha de bonecas. Minha avó, doceira de mão cheia, fazia doces incríveis, além de costurar, fazer crochet, pintura e jardinagem, seu maior hobby. Herdei dela sua mão verde e hoje cultivo meu jardim como algo precioso, adoro fazer bolos e cuidar da casa. Grande parte da minha inspiração ainda vem dessas referências da infância, e acredito que é por isso que prezo tanto pelos pequenos detalhes feitos com carinho, à mão.

Com tamanha influência em casa, ao invés das aulas de ballet que minhas amigas faziam, eu ia para os cursinhos de artes, desde bem pequenininha. Mesmo porque ballet não era minha praia. Eu gostava mesmo era das brincadeiras de meninos, futebol, skate. Na adolescência quis ser punk, influência do irmão mais velho. Mas foi só uma fase, para felicidade geral da família. Ao me ver de vestido e salto alto para minha primeira entrevista de emprego, minha mãe chorou. Acho que de alívio!

 

 

“Grande parte da minha inspiração ainda vem dessas referências da infância, e acredito que é por isso que prezo tanto pelos pequenos detalhes feitos com carinho,
à mão.”

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Essa mistura de universos, das doçuras de avó ao punk rock, me tornaram uma menina mais durona, apesar de não parecer. Sempre fui batalhadora e desde cedo, quis ter meu próprio dinheiro. Comecei a trabalhar cedo e uma oportunidade de trabalhar em marketing acabou me influenciando na decisão de cursar Propaganda & Marketing na Faculdade. Trabalhei alguns anos em uma multinacional e construí minha carreira na área de Atendimento em grandes agências de propaganda.  Apesar de conviver com o mundo criativo, meu trabalho era focado em resultado e em vender as idéias de outras pessoas. Salvo um ou outro curso de desenho que fazia quando tinha um tempinho livre, deixei os desenhos de lado.Só depois de 12 anos resolvi tomar um fôlego e repensar minha carreira. Percebi que precisava me reconectar com meu lado artístico. Fui estudar Design de Joias e Acessórios, no Istituto Europeu di Design de São Paulo.A princípio estava interessada em desenhar sapatos e bolsas. Mas o foco do curso eram as joias, o que eu curtia, mas não tinha nenhum conhecimento, para mim era 100% novo. Nesta área é comum ser um negócio da família, um ofício que vem de muitas gerações. E para mim este universo era completamente novo e sem referências. Deixei fluir, tirando esse tempo como um período sabático, sem me preocupar tanto com planos.

 

“Acho que durante esses anos meu primeiro desafio foi aceitar que eu poderia expressar minha criatividade e fazer dela um trabalho.”

Foi aí que encantada com o nascimento da primeira sobrinha, criei uma coleção para crianças. Foi muito interessante porque consegui unir toda minha experiência em propaganda e em marketing, ao meu lado artístico.  Criei o conceito Joias para ler, que são joias inspiradas em contos infantis, cuja embalagem é o próprio livro da historinha. Fiz a direção de arte das embalagens-livro,  ilustrei as histórias, além de criar as coleções de joias. Eu estava completamente enfeitiçada pela possibilidade de fazer disso meu trabalho.Isso foi há 6 anos. O resultado não poderia ser melhor. A coleção Joias para Ler é um sucesso, e ainda consigo incorporar novidades à coleção, com novas histórias e parcerias, como a que fiz neste ano com a ilustradora Suppa. Hoje tenho diferentes coleções, também para adultos, mas amo criar produtos infantis. Pra mim é sempre muito espontâneo e divertido.Acho que durante esses anos meu primeiro desafio foi aceitar que eu poderia expressar minha criatividade e fazer dela um trabalho. Era como reaprender a trabalhar. Não era mais um hobby, eu precisava aprender e me acostumar com esse meu novo jeito de ser profissional, um profissional que vende suas próprias idéias.

O segundo grande desafio foi encontrar um estilo criativo. Para mim a busca pelo meu estilo foi, e ainda é, como um grande processo de transformação interior, e me influenciou muito a desenvolver mais meu lado espiritual. Me aproximei da filosofia Budista, principalmente após uma viagem ao Butão ( um minúsculo país na região do Himalaia, onde o budismo tibetano é seguido por toda a população e o PIB é medido pela felicidade de seus habitantes). Voltei diferente.Aprendi que todas as minhas ações influenciam a mim e aos outros, e nós mesmos somos os responsáveis por criar as condições para que as coisas aconteçam em nossas vidas. Portanto, para que se tenha uma mudança, é preciso que a gente mesmo crie as condições para que essa mudança ocorra, e o sucesso dela dependerá do nosso esforço, de se ter objetivos claros e sobretudo, tentar manter expectativas baixas.Entendi que ao invés de procurar um estilo, deveria expressar meus mais sinceros sentimentos nas joias, fazer com amor cada detalhe e mostrar minha visão pessoal do que acredito ser belo, seja a espontaneidade infantil ou a beleza de algo imperfeito.  Aos poucos vou conseguindo transmitir minha mensagem, que é de chamar a atenção para a beleza dos pequenos detalhes e de alguma maneira espalhar um pouco de delicadeza para as pessoas, e assim, vou construindo meu estilo criativo.Sou inquieta por natureza, gosto de mudanças e acho que foi daí que encontrei força para apostar em uma nova carreira e persistir nela, apesar das inseguranças e dificuldades. Acho que ainda estou começando a construir essa história, mas tenho certeza de que uma maneira ou de outra, continuarei caminhando em direção à minha essência.

 

“Aprendi que todas as minhas ações influenciam a mim e aos outros, e nós mesmos somos os responsáveis por criar as condições para que as coisas aconteçam em nossas vidas.”

Texto Dani Scartezini Fotos Gleice Bueno