No mood board da Casa Violeta, nova marca de Camila Cutolo (ex-Maria Garcia), rolou uma viagem rumo ao Marrocos para visitar Ives Saint Laurent. Seguiram para o Egito, Senegal e Madagascar, pousando em Salvador onde dançaram rodas de candomblé guiados por Carybé e Pierre Verger.

Do seu affair com a elegância sedutora-vintage de Robert McGinnis + as etnicidades, santidades, entidades e mandingas do Candomblé + a originalidade das fantasias do Secos e Molhados, nasceram peças únicas para serem penduradas na parede com escalas onde quiser imaginar.

A intensa pesquisa de materiais – e a busca de uma harmonia na mistura deles – é a espinha dorsal da marca. Metal com palha e chifre, pedras e cabaças com ossos, palha com madrepérola e corais, cerâmica com metal e pena, pedras semi-preciosas com palha, ossos com palha e conchas, são alguns exemplos dessa diversidade.

O principal objetivo desses talimãs vintage-glam-étnico-sem-pátria é enfeitar de forma original e levar pra sua vida a forte energia que tem os objetos feitos totalmente a mão com matérias-primas da natureza.

 
 

Como surgiu o seu projeto? Conte sua história e de sua marca, brevemente.
Depois de quase 14 anos na moda, ja fazia um tempo que eu estava desiludida e cansada de roupas, pences, ganchos, mangas, precisando muito trocar de ares, foi quando tive uma oportunidade e pedi para desenhar os acessórios onde eu trabalhava, na Alcaçuz. Eu já tinha uma experiência anterior, de quando criava os acessórios pros desfiles da Maria Garcia. Em paralelo, as etnias ricas em ornamentos, as raízes brasileiras indígenas e africanas, o candomblé, sempre foram uma paixão que foi crescendo à medida que eu ia pesquisando imagens novas ou viajando pelo mundo.

Fiquei muito doente e quando eu pedi demissão não tinha ideia do que eu ia fazer, só do que eu não ia mais fazer. Dei início a uma "viagem" junguiana interna e externa, e deixei as coisas irem acontecendo sem o meu controle, como nunca tinha sido até então.

Quando eu vi já estava montando peças quase que instintivamente... Escolhi fazer peças para casa (mas que agora as pessoas estão querendo usar) por não ter empecilhos como peso, desconforto, materiais ásperos e que não podem molhar, tamanho,etc… para ter a liberdade de criar, que eu não tinha mais com as roupas… Fui aprimorando a pesquisa de materiais e artesãos e a partir daí conheci a ONG Artesol, fiquei encantada com o trabalho delas e fui incorporando novos materiais e conhecimentos - o que acredito que seja um movimento que não vai mais parar.

Quais os propósitos que te movem em sua criação?
Fazer peças originais, que enfeitam os ambientes, as casas, com uma riqueza de energia, peças que carregam a força da natureza e que além disso, ajudam a empregar pessoas. Que mantém vivo o artesanato de raiz.

Como as feiras, bazares e mercados, como o Mercado Manual, são significativos para a sua marca?
Eles trazem visibilidade, muito mais pessoas passam a conhecer a marca. Também une muitas pessoas que não tem ponto comercial e esse trabalho coletivo, essa rede que se forma é muito poderosa e prazerosa.

Qual a dor e a delícia de ser um pequeno empreendedor criativo, no Brasil?
Delícia máxima do universo é a pessoa fazer o que ama e ser reconhecida! Mas até a delícia prejudicou um pouco no meu caso…rsrs. Ja é muito difícil “precificar” o trabalho manual, eu ainda fiquei tão feliz que estava fazendo o que amava, que queria “dar” as peças pra todo mundo! (Exagerando um pouco, claro). Eu não soube fazer isso direito, colocar valor no meu trabalho. E em na minha primeira feira eu não ganhei quase nada e fiquei de cama uma semana de tanto trabalhar. Fora isso os preços das matérias-primas, dos aluguéis, da mão-de-obra, enfim, tudo no Brasil estão absurdos, mais a burocracia, impostos… a lista é grande viu?

Quais dicas você daria para quem quer começar nesse caminho?
As dores citadas acima ja são um bom aviso, né? Se forem iniciantes como eu, e querem empreender no que amam, sejam honestos com seu produto, com seus clientes, e principalmente com vocês mesmos. Tenham muita paciência e obstinação: porque leva tempo até que tudo se alinhe e são muitos os obstáculos que surgem que não foram previstos.