O projeto Bordados de Passira surgiu em 2014, com a vontade promover o fazer manual da cidade Passira, no agreste de Pernambuco. Ele foi fruto da interação entre as artesãs da AMAP (Associação da Mulheres Artesãs de Passira) e dez colaboradores que se disponibilizaram em prol da valorização do artesanato daquela localidade.

 
 

Uma imagem muito recorrente nas minhas memórias, quando penso no Ceará (estado onde nasci), é de mulheres tecendo, bordando, produzindo, transformando seu fazer manual em resistência e força. Essas lembranças voltaram muito forte quando fiz minha graduação em Design de Moda, na UFC. Naquela época, já percebia que me identificava muito com o trabalho manual e que minhas pesquisas seriam voltadas ao artesanato nordestino.

No meu trabalho de conclusão de curso, pesquisei o universo das rendeiras de bilro de Aquiraz, no litoral cearense, e a sua relação com o design de moda. Percebi o quanto os processos presentes naquele fazer eram especiais. Cada objeto produzido por elas carregava a própria história da artesã, uma infinidade de conhecimentos acumulados por gerações.

Em 2011, já em São Paulo, iniciei meu mestrado em Têxtil e Moda pela USP. Com o mesmo intuito e as mesmas dúvidas, continuei estudando a atividade artesanal feminina e a relação dela com a moda. Pesquisando o histórico desses contatos, conheci o trabalho das artesãs de Passira, uma cidade no agreste de Pernambuco, que já haviam trabalhado com designers brasileiros.

Para que eu pudesse documentar os processos produtivos e criativos do artesanato de Passira, era fundamental que eu fosse até lá, conhecesse as histórias das artesãs e vivenciasse o fazer do bordado. A primeira vez que estive na cidade me surpreendi com a organização e a força das bordadeiras.

Desde 2008, elas haviam se organizado em torno de uma associação para fortalecer o trabalho manual da cidade e melhorar a autoestima daquelas mulheres. São 40 artesãs, que juntas buscam sobreviver por meio do seu bordado. O encantamento foi imediato: primeiro, por ser mulher como elas e me espelhar no sentido que elas dão ao trabalho; segundo, pela riqueza e cuidado em fazer aqueles objetos com tanta dedicação e habilidade.

Escutei muitas vezes em Passira que a fórmula para se saber se um bordado foi bem executado é virá-lo ao avesso. O verso do bordado, por mais que não fosse o destaque da peça, era sempre perfeito, como o outro lado.

Ao concluir o mestrado e desenvolver toda a pesquisa teórica, meu lado designer falou mais alto e veio a vontade de fazer algo junto com as artesãs. Um dos problemas apontados por elas era a distância entre os produtos de Passira e os mercados consumidores. Essa dificuldade fazia com que surgissem inúmeros intermediários e o valor da peça comprada em Passira era sempre muito baixo, desvalorizando um saber tão rico e tornando quase inviável continuar a viver do bordado.

O projeto Bordados de Passira surge em 2014 com essa vontade: atuar com uma ponte entre as artesãs e as pessoas que admiram e consomem o trabalho manual. Ao pensar nessa iniciativa, tinha algumas diretrizes em mente das quais não queria abrir mão.

Uma delas era que o projeto não interferisse na autonomia das artesãs, que ele pudesse fortalecer a associação e o bordado manual. Em Passira, eu aprendi que a força se constrói no trabalho coletivo, por isso queria movimentar mais e mais pessoas em torno dessa ideia. E assim foi feito.

O projeto não teria acontecido se não tivesse recebido o apoio de 10 amigos, que se tornaram colaboradores do Bordados de Passira e, cada um com suas ferramentas, desenhou um pedaço dessa história. Entramos em campanha de crowdfunding no Catarse em 2014. Tínhamos 60 dias para alcançar a meta de 30 mil reais, que seriam usados para viabilizar oficinas, a criação de uma loja virtual para as artesãs e da marca “Bordados de Passira”. Foi um sufoco! No último dia, nas últimas horas, conseguimos atingir a meta e o projeto foi financiado por mais de 300 pessoas.

O processo com as artesãs foi muito interessante. Elas ficaram surpresas de que haviam tantas pessoas entusiastas do seu trabalho. Até hoje, muitos ligam na associação para saber como vai o projeto, ou apenas para bater um papo com a D. Lucia (Maria Lúcia Firmino), fundadora da AMAP (Associação das Mulheres Artesãs de Passira) e conhecedora de todos os pontos tradicionais da cidade.

Aliás, a história da D. Lucia foi algo que me impressionou muito. Ela aprendeu a bordar aos 8 anos e nunca mais parou. O bordado foi uma maneira de cuidar da família e de ajudar as mulheres de Passira, transmitindo seu saber para quem tivesse disposta a aprender. Foi com ela que aprendi a bordar, nas vezes que estive em Passira.

Em 2015, finalizamos o projeto e lançamos a loja virtual. Mesmo com o nosso apoio, ela é conduzida pelas artesãs de Passira, pois na raiz do Bordados de Passira sempre esteve a transparência e a vontade de fortalecer o trabalho e os saberes das artesãs. Acredito que esse é o caminho para que o artesanato se mantenha firme e vivo, nas mãos de quem o faz.

Ana Julia Melo
Pesquisadora e Designer

Foto: Valdinei Souza

Foto: Valdinei Souza