Carol Delleva e a cerâmica que celebra a beleza da imperfeição

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Vasos sustentam plantas. Os moldados pelas mãos da ceramista Carolina Delleva são em forma de cabeças, como se a vida que brota dali fosse um universo de ideias e criações. Os rostos, muitas vezes trincados ou com pequenos desajustes, mostram que o belo pode existir no erro ou no inesperado, não apenas na perfeição. “Dependendo do olhar, pode ser bizarro ou bonito”, diz, deleitando-se com a criação livre de amarras. Parece simples mas, para chegar até aqui, a arte de Carol percorreu longo caminho.

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Começou ainda criança, com a terra em contato com as mãos. Os dedos encostavam na textura fria, embaixo da superfície. Foi assim, ao brincar na terra, que ela começou a desbravar o poder do manual, do toque. “Isso sempre me encantou, desde pequena. Mais tarde, já adolescente, comecei a fazer esculturas de bichos com a terra e ficava impressionada com as formas que conseguia criar”. Passou pela fase de descoberta física, de despertar a consciência corporal por meio da massagem. Foi estudar o assunto e percebeu que sua paixão não era a massagem em si, mas o trabalho com as mãos.

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SAIR DE CASA PARA SE ENCONTRAR
Se tinha essa certeza por um lado, por outro enfrentava uma série de dúvidas. Era a aluna inadequada, que não se encaixava na caixinha da educação formal. “Sempre fui péssima na escola, aluna problema. Depois de repetir três vezes, parei de estudar. Nada daquilo fazia sentido para mim.” Compensou o desvio na educação tradicional com um supletivo e, em seguida, resolveu que tentaria curar a sensação de inadequação em outro lugar. Juntou as coisas e partiu para se descobrir na Europa. “Fui muito criticada nos meios ditos de sucesso, em que as pessoas são todas parecidas, com tudo perfeito e no lugar. Para mim, sucesso é conseguir pagar as próprias contas com o fruto do seu trabalho.”

Longe de casa ela conseguia fazer isso como funcionária em bares de hotéis. Em paralelo, descobriu a cerâmica. “Foi um encontro incrível. Estava livre pela primeira vez e podia me arriscar porque não tinha ninguém me dizendo o que era certo.” Seguiu o instinto e foi fazer faculdade de cerâmica na Espanha, com os amigos e família certos de que Carol tinha perdido a cabeça de vez. “Todo mundo se perguntava o que eu faria com esta bagagem. Eu não tinha ideia, mas precisava sentir onde ia dar”, diz. Encarou a dor e a delícia da própria decisão. Extravasava seu potencial e brilhava nas aulas de escultura, mas apanhava para aprender a química por trás da cerâmica e reproduzir peças idênticas umas às outras. “É uma arte muito exata e nunca consegui ir bem nisso. Era um patinho feio nessa área, mas dava certo quando tinha a liberdade para criar.”

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“Para mim, sucesso é conseguir pagar as próprias contas com o fruto do seu trabalho.”
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“COMECEI A VER MUITA BELEZA NA IMPERFEIÇÃO. CADA DETALHE TORNA A PEÇA ÚNICA. NÃO HÁ MOLDE PARA ISSO: É MUITO VERDADEIRO E MUITO DIFÍCIL DE REPRODUZIR”

Enquanto isso, descobria um talento que era mais fluido naquele momento: a música. “Comecei a cantar lá fora e as coisas começaram a rolar”. Teve uma série de bandas, participou de festivais e, formada, acabou por deixar o conhecimento sobre a cerâmica adormecido por algum tempo. Antes de se acomodar, no entanto, a maternidade tirou ela da nova zona de conforto. Ao virar mãe, Carol precisou construir uma rotina completamente incompatível com a vida noturna da música. A transformação foi tão grande que fez ela voltar ao Brasil após mais de uma década fora. Deixou para trás trajetória firme como cantora na Europa e chegou de volta em casa com a mesma sensação de desajuste de quando saiu, mas com uma filha nos braços.

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O REENCONTRO COM O FAZER MANUAL
“Fiquei completamente imersa na maternidade”, diz. O recomeço no Brasil trazia certo gosto de frustração: a sua música não tinha tanto espaço por aqui e, assim, precisou da ajuda financeira da família para ir em frente. Foi então se arriscar novamente na cerâmica. A primeira ideia era dar aulas, mas ela sentiu que tinha espaço para ir além. “Estava acostumada com as coisas na Europa e, ao pesquisar lugares para comprar argila, vi que as coisas ainda eram muito iniciais aqui, com pouca oferta tanto de materiais quanto de uma variedade de produtos.” Comprou um forno a gás, que era o que conseguia bancar naquele momento, e começou a fazer as peças próprias, com a sua identidade:, as cabeças belas e bizarras.

A queima dos vasos não dava tão certo quanto a feita no forno da faculdade na Espanha, sempre saia com um trincado, uma imperfeição. “Comecei a ver muita beleza naquilo. Cada detalhe torna a peça única. Não há molde para isso: é muito verdadeiro e muito difícil de reproduzir”, diz Carol, que começou a entender aí o poder de fazer uma arte desajustada, que rompe padrões. Devagar, ao valorizar a beleza na imperfeição de seus processos, levou o mesmo movimento para a própria vida. “Cresci ouvindo que não era boa o bastante e por muito tempo busquei a perfeição que os outros queriam, mas hoje descobri que o meu errado sempre foi certo.”

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“CRESCI OUVINDO QUE NÃO ERA BOA O BASTANTE E POR MUITO TEMPO BUSQUEI A PERFEIÇÃO QUE OS OUTROS QUERIAM, MAS HOJE DESCOBRI QUE O MEU ERRADO SEMPRE FOI CERTO.”

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Carol diz que se libertou da exigência dos outros, da busca por ideais inalcançáveis e aprimorou a própria técnica. “Hoje consigo controlar as imperfeições, mas ainda há o imprevisível. Errar não é necessariamente feio. Há erros deliciosos”, diz. E eles, enfim, passaram a ser valorizados: os vasos em forma de cabeça feito por ela encontraram público no Brasil e hoje Carol alcançou o próprio conceito de sucesso, pagando as contas com um trabalho criativo.

“Hoje sou muito feliz porque sinto que, se isso não desse certo, nada mais daria. Sou muito visceral, intensa e sempre estive desencaixada. Não conseguiria trabalhar em uma empresa. Passei a vida toda sendo chamada de louca por querer extravasar essa energia na arte, mas agora está dando certo”, conta. A força criativa que Carol encontrou ao ver seu projeto dar certo transbordou ainda para outra iniciativa: a banda Delleva, uma incursão musical da artista no Brasil. “Estamos gravando o nosso primeiro disco”. Depois de algumas voltas, a loucura enfim fez sentido.

"Valeu a pena ir contra o que todo mundo esperava. No fim, o melhor é sempre perseguir a nossa verdade."
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Fotos: Gleice Bueno