Coletivo naLã usa arte têxtil para transformar as pessoas e a cidade

Projeto nasceu para ocupar o espaço urbano, mas encontrou a sua essência no impacto positivo que é capaz de ter nas pessoas

Projeto nasceu para ocupar o espaço urbano, mas encontrou a sua essência no impacto positivo que é capaz de ter nas pessoas

“Em cada nó e ponto dado são entrelaçados objetivos em comum: nós atados. Uma (r)evolução de ideias criativas, de (r)existência dos nossos saberes.” É assim que as amigas Fernanda Mafra e Priscila Curse resumem o Coletivo naLã, projeto liderado pelas duas que usa o crochê para levar arte para o espaço urbano e, principalmente, conectar pessoas, compartilhar conhecimento, destravar a força produtiva e o potencial criativo de cada um. Além de projetos de cenografia e arte visual, elas promovem uma série de ações voluntárias de arte urbana (o chamado Yarn Bombing, uma espécie de graffite em crochê), oficinas e laboratórios gratuitos para multiplicar o conhecimento sobre o assunto.

Elas falam que a iniciativa nasceu voltada às cidade, à ocupação do espaço urbano. Não demorou para perceberem, no entanto, que a essência não estava exatamente ali, mas sim nas pessoas: no impacto positivo em cada indivíduo e no poder extraordinário que o fazer manual tem de transformar o olhar e as relações.“Além de compartilhar e multiplicar o conhecimento, o maior desafio é fazer com que as pessoas acreditem no potencial de transformação através do trabalho manual e o quanto isso impacta na sociedade”, contam.
 

Fernanda acredita no trabalho manual como força de transformação

Fernanda acredita no trabalho manual como força de transformação

Elas já se surpreenderam uma série de vezes com o poder que a arte têxtil tem de extrair a bagagem de dentro de cada um. “Já vimos pessoas se alegrarem ao olhar para um novelo rosa, outras chorarem de emoção enquanto faziam crochê pela lembrança de algo que viveram ou olharem por longos minutos para um projeto nosso, contemplando de uma forma tão linda, que só de lembrar nos emociona. Já ouvimos muitas e muitas histórias, tristes e felizes”, lembram as líderes do projeto, que consideram esta a maior recompensa do trabalho do naLã, um retorno inestimável e infinito, apontam.
 

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“É UMA MOEDA VALIOSA VER PESSOAS SUPERAREM LIMITES QUE FORAM IMPOSTOS A ELAS E SE SENTIREM PARTE DE ALGO MAIOR COM O FAZER MANUAL”

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Quanto às recompensas financeiras, o naLã ainda não é a principal fonte de renda das duas amigas. O projeto começou por diversão, mas ganha mais importância a cada dia. Os trabalhos pagos feitos pelo coletivo geram receitas para que elas conduzam os projetos sociais. Enquanto isso, seguem com carreiras paralelas: Fernanda é arquiteta e Priscila toca vida agitada no mundo da comunicação digital. “Se você abrir nossas bolsas, você sempre vai encontrar uma agulha de crochê, um novelo e muitas ideias. Transformamos o tempo livre em tempo para se criar: gostamos de transformar o ócio em ócio criativo seja através de experimentações têxteis.” Em muitos projetos e ações a dupla conta com a colaboração de Andrea Rocha no coletivo.

Priscila trabalha com comunicação digital, mas encontra seu equilíbrio no fazer manual

Priscila trabalha com comunicação digital, mas encontra seu equilíbrio no fazer manual

Enquanto a maioria usa o tempo livre para descer o olhar para a tela do celular, elas desviam a atenção para as próprias mãos, para criar peças de impacto visual a partir de um simples fio de lã. As crocheteiras dizem que é nos tecidos coloridos que encontram o necessário ponto de equilíbrio entre a agitação do dia a dia de uma grande cidade e as próprias emoções. É ali que elas transbordam e extravasam. Fazem cada nó e contorno com a lã com a dedicação e perfeccionismo que destinam a qualquer trabalho. Assim, o resultado da arte do naLã é fruto de tempo e carinho.

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Com tanta história, o naLã carrega a sabedoria de uma anciã mas, na verdade, vive o vigor da juventude: o projeto tem apenas um ano, a serem completados em setembro, com direito à comemoração no #ManualnoMCB, que acontece nos próximos dias 2 e 3 no Museu da Casa Brasileira. Elas serão, mais uma vez, responsáveis pela cenografia lindamente artesanal do festival e por uma oficina gratuita de macramê. “O Mercado Manual tem grande parcela de culpa pelo nascimento do naLã. Crescemos junto com o evento. Foi no MM que sentimos o empurrão para seguir com nossos sonhos e continuar colocando em prática nossas ideias”, contam. E, com a ajuda delas, a Rede do feito à mão segue a se fortalecer: estreita laços e se expande com novas relações.

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