Conheça Luiza Morandini, responsável pelos shows do Mercado Manual

Foto Leonardo Sang | Casa Dobra

Foto Leonardo Sang | Casa Dobra

Se você já foi a alguma edição do Mercado Manual, provavelmente viu uma moça alta, branquinha de cabelos escuros curtindo os shows gratuitos que sempre oferecemos no festival. Ela não é (só) uma apreciadora das apresentações do evento. Luiza Morandini é a curadora musical das nossas festas, uma das grandes responsáveis por encontrar e selecionar projetos musicais independentes e interessantes para o público de cada edição do festival.

Quando pequena ela adorava fuçar discos, livros e lojas de CDs. Devorava encartes para acompanhar as letras das músicas e identificar os músicos enquanto desbravava cada novo álbum. Na adolescência expressou a paixão pela música em aulas de canto, teve uma banda formada com amigos e, mais tarde, frequentou o Supremo, bar referência da música em São Paulo que funcionou dos anos 1980 até o começo de 2000. Ainda batia cartão nos shows do Sesc para conhecer novas bandas e artistas.

Formada em comunicação, enveredou para o caminho da produção cultural e, como se o fluxo natural a empurrasse, sua carreira desembocou na música: trabalhou com Jorge Mautner, com o pianista, produtor e curador, Benjamim Taubkin, coproduziu shows, festivais, séries musicais e mais uma pilha de projetos relacionados a encontrar e valorizar o fazer sonoro. Ainda que rejeite o rótulo, Luiza encontrou, enfim, um para chamar de seu: é curadora musical. “Ainda resisto a este nome porque acredito que é um longo aprendizado e ainda estou no caminho. Por outro lado, ‘produtora’ não é o suficiente. Estou em eterna construção”, conta.

Apresentação da Delleva na 5ª edição do #MANUALnoMCB | Foto Danilo Mantovani

Apresentação da Delleva na 5ª edição do #MANUALnoMCB | Foto Danilo Mantovani

Hoje, além de integrar o time do Mercado Manual e fazer, ao lado da Floristas, shows incríveis acontecerem, Luiza cuida da programação e curadoria das respeitadas JazzNosFundos e JazzB ao lado de Maximo Levy, o fundador das casas. “São cerca de 60 shows por mês, com foco principal no jazz e na música instrumental, mas com espaço para a canção, os cantautores, para a música do mundo, eletroacústica, etc.”, enumera. A dupla ainda faz a curadoria de projetos como o FAM Festival (Scheeeins!), o Pátio Jazz Sessions (Shopping Pátio Higienópolis), entre outros. “É um trabalho intenso e muito prazeroso”, resume.

Na entrevista a seguir, Luiza fala mais da sua carreira, da cena musical e dos pontos importantes para a curadoria musical do Mercado Manual. De quebra, ainda recomenda os discos e projetos pelos quais se apaixonou recentemente.

 

Quais são os desafios da curadoria musical?

Entendo a música como algo vital para nossa cultura e expressão artística. Nunca conheci alguém que não gostasse de música, seja qual for seu gosto musical. Estive em alguns festivais de música na Europa, e em alguns outros em lugares como Marrocos, Israel e Turquia. Conheci muitos artistas destes países e percebi que, quando a música começa, ela é ponte. Sempre penso nesse trabalho com muita seriedade, como algo que conecta pessoas e culturas, ainda que não seja possível agradar a todos ou integrar todos os artistas.

É algo que requer muita pesquisa, atenção a novos projetos e artistas, busca por recortes interessantes, escolhas. É preciso relacionar tudo isso de forma coesa, sem nunca deixar de pensar objetivamente no orçamento de cada evento, nas condições técnicas, no público que queremos atingir e, também, nas instituições ou patrocinadores envolvidos. Tudo tem que ser muito ponderado. A viabilidade financeira sempre é o grande desafio na área cultural.

 

Como você se mantém abastecida de inspiração e referências para desenvolver o seu trabalho?

Busco ler, pesquisar e, principalmente, escutar muita música o dia todo. Ir a shows e festivais e ficar atenta a programações que são referência para mim dentro e fora do Brasil em programas de rádio, podcasts e publicações. Alguns festivais ou curadores são inspiradores e fontes importantes para meu trabalho.

 

Yannick Delass em show no #MANUALnoMCB | Foto Gleice Bueno

Yannick Delass em show no #MANUALnoMCB | Foto Gleice Bueno

Quais são as suas preocupações na hora de pensar na curadoria musical do Mercado Manual?

O Mercado tem algo de muito especial que é o fato de apresentar projetos artesanais com linguagem elaborada, técnica e estética. Na música não é diferente. Realizo esse trabalho ao lado da Karine Rossi, uma das organizadoras do Mercado. Buscamos projetos autorais - especialmente nas composições - mas também nos arranjos. Projetos que tenham expressividade, originalidade e identidade. Não se trata de buscar apenas projetos tradicionais, não mesmo, mas de encontrar iniciativas que deixem claras as suas raízes.

Outra preocupação são as questões técnicas. Os artistas têm que ser bem recebidos e com boas condições de som para apresentarem seus trabalhos em ótima performance. O Hernan Romero é o responsável técnico. Trabalho com ele há mais de 4 anos e o chamei quando fui convidada para integrar a equipe do Mercado. Ele é um excelente profissional e virou nosso parceiro oficial de som.

Sganza se apresenta para o público do 3º #MANUALnoMCB | Foto Tati Abreu

Sganza se apresenta para o público do 3º #MANUALnoMCB | Foto Tati Abreu

Caso se lembre de algo, conte casos interessantes do trabalho como curadora musical do festival.

Muito comumente tenho a sorte de me surpreender com o próprio público, já que algumas vezes programamos artistas considerados mais herméticos e o público adora e embarca no show. Quanto aos artistas, acho que quanto mais eles compreendem onde estão, mas eles se conectam com o público na hora do show. Já tive experiências de grandes artistas se apresentando em festivais sem entender bem o contexto e se perderem. Tem um músico mexicano, o Juan Pablo Villa que participou do Mercado Cultural da Bahia. Ele era a abertura da noite e seu show era solo. Ele arrasou muito mais do que a atração principal seguinte. Foi uma diferença gritante. 

 

Silibrina durante o 6º #MANUALnoMCB | Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Silibrina durante o 6º #MANUALnoMCB | Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Qual é a sua análise do cenário atual para a música independente em São Paulo? Ao abrir espaço para estes artistas, o Mercado Manual contribui para cena?

A cena está muito viva. Temos artistas de todos gêneros lançando novos discos, compondo e arranjando diferentes projetos. Seja da cena da música instrumental ou de cantautores. Assim como há espaços que têm contribuído muito com este cenário, como os Sescs, claro, e as casas independentes como o Centro Cultural da Música Instrumental, JazzNosFundos, JazzB, Mundo Pensante, Casa de Francisca, Tupi or Not Tupi, há ainda muitos festivais acontecendo e ocupando a cidade com música autoral e festivais e feiras que servem como plataforma para conhecermos novos artistas, que realizam debates e encontros sobre música, ajudando a formar massa crítica sobre o atual cenário. Vale ressaltar várias iniciativas que têm fomentado a igualdade de gêneros e discutindo e valorizando o papel das mulheres na música.

O Mercado Manual é uma dessas iniciativas. Acredito que as realizadoras, as Floristas, estão muito compromissadas com a música no evento. É uma postura que nos inspira a trabalhar e nos dá força para buscar jovens artistas a integrarem a programação. O público do Mercado dá fôlego também ao nosso trabalho e ao dos artistas, recebendo muito bem, de corações e ouvidos abertos, músicas que muitos deles nunca escutaram.   

MM2 | Foto Gleice Bueno

MM2 | Foto Gleice Bueno


Indique cinco discos ou projetos musicais que descobriu este ano e recomenda fortemente?

Estes são projetos especiais que têm me chamado a atenção nos últimos dois anos (entre muitos e muitos):

 

Lourenço Rebetez

O jovem guitarrista, compositor e já grande arranjador, mergulhou no universo de Moacir Santos e de Letieres Leite para fazer um disco arrebatador.

 

Foto Diego Moraes Divulgação (2).jpg

Diego Moraes

Compositor e cantor, com uma performance de palco incrível e muito cativante, Diego integra o grupo Não Recomendados e vai lançar em breve seu disco #ÉqueeuandodeÔnibus. Suas composições são ótimas, com muito groove, e ele é realmente um grande cantor. Estará no #MANUALnoMCB neste fim de semana, dias 2 e 3 de dezembro, no Museu da Casa Brasileira.

 

Proyecto Pato

Grupo argentino que traz o cancioneiro da música popular do país, mas com leituras contemporâneas. A cantora do grupo, Nadia Larcher, tem uma voz e uma interpretação especiais.

 

Orquestra Mundana Refugi

A Orquestra Mundana Refugi é um projeto criado pelo compositor e multi-instrumentista Carlinhos Antunes no aniversário de 15 anos de sua Orquestra Mundana. Neste projeto ele integrou músicos da França e de Cuba e de diversas regiões do Brasil, que já estavam na Orquestra e trouxe músicos e cantores da Palestina, Síria, Congo, Haiti, Irã e Guiné-Conacri.

 

Ludere

Quarteto formado por grandes instrumentistas - Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Bruno Barbosa e Daniel de Paula. Composições e arranjos sofisticados de jazz com raiz brasileira.

 

Yangos

Quarteto gaúcho que tem se destacado na cena da música instrumental. Foram indicados este ano ao Grammy Latino. Exploram nossas raízes sul-americana com o universo jazzístico. Tem ritmos do sul do continente que me encantam como chamamés, chacareras, tangos e milongas.

 

Cosmopolita

O quarteto explora o universo sonoro das décadas de 60 e 70. Já se apresentaram no Mercado Manual. É muito bom para ouvir e dançar.

 

Maria Beraldo

A cantora, instrumentista e compositora, Maria Beraldo, já vinha se destacando em grupos como Claras e Crocodilos do Arrigo Barnabé e em seu grupo Quartabê. Ela surgiu agora cantando, compondo e interpretando canções. Seu canto e expressão é muito particular e potente como um corte seco, mas profundo. Tenho curtido muito escutá-la.  

Isadora Canto MM6 | Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Isadora Canto MM6 | Foto Leonardo Sang / Casa Dobra

Maloya em show no #MANUALnoMCB edição 2 | Foto Gleice Bueno

Maloya em show no #MANUALnoMCB edição 2 | Foto Gleice Bueno

Texto: Giovanna Riato