Comas inverte lógica da moda para entregar design atemporal e sustentável

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Empreender não é um processo simples. Agora imagine empreender com a criação de uma marca de roupas que subverte a lógica da cadeia produtiva da indústria da moda e se dispõe a entregar peças atemporais às clientes, longe do apelo fast fashion das coleções. É justamente isso que decidiu fazer Agustina Comas, uruguaia que vive no Brasil há mais de 10 anos e, depois de estudar moda e construir carreira em grifes como Jum Nakao e Daslu, usou o sobrenome para batizar sua própria marca de roupas, a Comas Upcycling, que transforma em peças únicas roupas descartadas antes de chegar às lojas.

A ideia nasceu no fim de 2014, quando a estilista tinha acabado de encerrar a sociedade que mantinha em um negócio anterior, a Inuse. Cabeça e mãos ociosas são oficina para novas ideias em mentes criativas, então não demorou para ela ser picada pelo desejo de começar um novo projeto. “Eu já tinha trabalhado com o conceito de upcycling e tinha ainda atuado em moda masculina na Daslu, então sabia que as camisas são material muito nobre que muitas vezes sobra nas fábricas. Peças com pequenos defeitos acabam apodrecendo em caixas sem um destino adequado. Comecei a ir atrás deste material e desmanchar as peças para criar novas roupas ”, conta.

Assim, Agustina criou o seu próprio jeito de transformar palha em ouro. Das camisas masculinas que seriam descartadas, nasceram saias, blusas e vestidos da marca -  sempre desenhados com preocupação de garantir atemporalidade.

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Assim, de um jeito bem intuitivo, ela decidiu simplesmente fazer. E as coisas tomaram corpo antes que ela estivesse pronta para projetar os desafios que teria pela frente. “Não consigo ficar planejando. Preciso sair fazendo”, diz, com o simpático e característico sotaque uruguaio. Antes de desenvolver um logotipo para Comas ou começar a colocar etiqueta nas roupas ela já estava vendendo as peças em alguns eventos. Foi justamente nesta etapa que o caminho dela cruzou com o da Rede Manual. “Recebi o convite para expor no primeiro Mercado Manual no Museu da Casa Brasileira, em 2015. Fui e lá tive um resultado impressionante para aquele momento, parecia ter encontrado o meu público, as pessoas que pareciam comigo”, lembra.

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OS ACERTOS, OS ERROS E AS DÚVIDAS

Com o tempo, Agustina foi estruturando as coisas na Comas. A marca ganhou logotipo, site e tudo o que tem direito. A estilista criou um time pequeno, mas completamente engajado, com profissionais para cuidar da produção, do comercial, da comunicação e da estratégia. Desenvolveu vendas on-line pelo WhatsApp e a Maleta Comas, um conjunto de roupas da marca que é enviado para a casa da cliente para que ela experimente com calma e escolha, eventualmente, qual peça quer comprar – um jeito mais slow que faz todo o sentido com a proposta da marca. Há poucos meses a Comas deu mais um grande passo e saiu da casa de Agustina para ganhar o próprio espaço, um galpão em São Paulo.

Enumerando assim parece que a jornada da marca é feita só de acertos, mas Agustina admite que criar o próprio negócio é ter muitas dúvidas e, claro, levar alguns tombos. “Fico sempre construindo, quebrando a cara e pedindo ajuda para tudo, mas tem horas em que bate uma crise e não sabemos se estamos no caminho certo”, confessa. Ela diz que o conceito upcycling da marca torna a produção muito mais complicada – e cara. “Preciso ir nas fábricas de camisa, garimpar as peças boas, compra-las por um preço que sempre é elevado, bem mais caro que o de um tecido novo. Depois desmonto cada uma das peças para, enfim, fazer refazê-las com o nosso design”, conta.

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Com um processo tão complexo, o preço das roupas acaba ficando mais alto do que ela gostaria. “As peças são, em geral, básicas e poderiam alcançar um público muito maior, mas preciso escalar para reduzir custos e, de fato, gerar o efeito benéfico que o upcycling pode trazer para a indústria da moda”, diz. A equação de aumentar o volume de um produto tão artesanal é algo que Agustina está tentando resolver. Uma das opções, conta, é oferecer uma linha simplificada, mais acessível. “Mas este é um caminho longo, preciso criar uma cadeia de fornecimento muito especial porque hoje faço meu produto a partir de algo que tem oferta limitada e sem padrão”, fala, citando o desafio que tem de encontrar matéria-prima em boas condições para a marca.

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A estilista também quer espalhar o conceito do upcycling de outra forma, em palestras e workshops para empresas – algo que também representaria outra fonte de receitas para a Comas. “Adoro ensinar e as corporações precisam cada vez mais encontrar novos caminhos. Poderia levar ideias para os departamentos de estilo, mostrar técnicas, ou até chegar a indústrias de outros segmentos”, conta, cheia de planos e ideias.

Mesmo entre incertezas, nos poucos anos de vida que tem a Comas já rendeu frutos. Ao lidar diariamente com tecidos descartados, Agustina conseguiu desenvolver um tecido ecológico feito a partir de sobras das fábricas. “Quando o rolo de tecido é cortado, as bordas vão para o lixo. Desenvolvemos um jeito de reaproveitar isso.” A solução virou um negócio paralelo e já é usada por marcas como Fernanda Yamamoto.

Mesmo com resultados importantes, Agustina diz que em alguns momentos tem dificuldade para olhar o todo e fica perdida entre tantas responsabilidades. “Você trabalha por algo que é o seu sonho, mas acaba sobrecarregada com as obrigações do negócio”, desabafa, citando um problemas que tantos empreendedores tem.

Por outro lado, já volta a sorrir quando lembra da alegria de ver a sua equipe dedicada e acompanhar o movimento lindo que é o de um projeto ganhar forma, encontrar caminhos e clientes. “Fico muito feliz quando chego no galpão da Comas e vejo as pessoas trabalhando com um monte de alegria e as coisas acontecendo. Não é mais um sonho só meu”, diz, mostrando que o caminho pode ser desafiador, mas que existe sim combustível para continuar.

COMAS NO #MANUALNOMCB
Quer conhecer a Agustina e as peças incríveis que ela faz na Comas? A marca está entre as expositoras do #MANUALnoMCB, que acontece nos dias 2 e 3 de dezembro no Museu da Casa Brasileira. Confira aqui a programação completa e programe-se.

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Texto: Giovanna Riato | Fotos: Gleice Bueno