As dicas de Nicole Tomazi no #MANUALnaPinacoteca

"Não posso me desconectar do meu meio para criar produtos bonitos. Este não é o caminho.” Esta foi uma das grandes mensagens que a designer e artífice Nicole Tomazi deixou em sua palestra no #MANUALnaPinacoteca, no dia 5 de agosto. A conversa foi super especial: marcou a estreia do talk realizado pela Rede Manual e trouxe uma série de ensinamentos para artesãos que buscam consolidar uma carreira com o fazer manual.

Para quem não conseguiu acompanhar o papo ao vivo durante o festival, separamos alguns destaques do que rolou por lá e ainda o vídeo completo da apresentação de Nicole. Você confere tudo a seguir.


- PARA COMEÇAR, É PRECISO ENCONTRAR A IDENTIDADE

Nicole tem história comum a muitos artesãos que precisaram se perder antes de se encontrar. Os primeiros passos da carreira dela foram na arquitetura. Só depois ela começou a olhar para o feito à mão como possibilidade profissional e, enfim, vislumbrou a chance de unir a tradição com o design. O caminho, contou ela, foi difícil. Quando mudou de profissão, apesar de fazer o que gostava, não conseguia rentabilizar a ideia. “É um sofrimento muito grande realizar um sonho e ainda assim sentir que algumas coisas estão em desacordo.”

Ela só encontrou um caminho mais pleno quando conseguiu se desprender das técnicas e do compromisso de fazer produtos comerciais para criar com mais liberdade, em outro ritmo e escala. Segundo Nicole, foi assim que ela resgatou as referências da própria história e foi capaz de desenvolver um trabalho único. “Onde não há comparação, há liberdade”, lembra. “Minha avó é polonesa e sempre me acolheu com o feito à mão, com linhas e tecidos. Foi com ela que entendi essa ligação”, contou, apontando que parte de sua inspiração vem das próprias raízes. “Preciso contar uma história por meio de um produto. Buscar a essência”


- O CAMINHO EXIGE OBSERVAÇÃO DO MEIO E ESTUDO DA TEORIA

A rica bagagem familiar não é o único componente do trabalho de Nicole. Quando entendeu o caminho que queria seguir, ela foi estudar e passou a olhar melhor o entorno. “Precisamos observar o meio, saber o que outros profissionais estão fazendo. Só assim somos capazes de entender onde estamos e para onde devemos ir. O aprofundamento teórico também é essencial: é importante entender o que a ciência diz”, defende. Ela fala que encontrou nesta trajetória referências capazes de abrilhantar o pensamento e enriquecer seu fazer. “Construir um produto que se destaque entre os outros leva tempo. É um diálogo com a matéria-prima”, aconselha.


- DEIXE O COMPLEXO DE VIRA-LATA PARA TRÁS

Nicole diz que, antes de ser aceita no Brasil, seu trabalho precisou ser validado internacionalmente, com reconhecimento no Salão do Móvel de Milão. Esta lógica deixa claro que os olhares brasileiros sempre estão voltados para fora, inclusive no caso dos artesãos. “Aqui todo o ensino do design é alicerçado nas referências de fora. Viramos as costas para a riqueza manual do Brasil.” E lembra, ainda, que o design nacional não tem apenas uma identidade, o que permite diversificar as referências para criar algo realmente único. “O desafio do design baseado na cultura está em sair do óbvio", provoca.


- A CHAVE PARA O TRABALHO AUTORAL

Nicole entende que amadurecer um trabalho autoral envolve buscar a essência e evitar a repetição do que já está disponível. Além disso, ela reforça que o artesão não deve servir ao meio, atender ao estímulo à concorrência. “Não podemos competir. Não podemos nos odiar. Precisamos valorizar todo mundo”, resume. Assim, ela assegura que a colaboração rende muito mais frutos do que a disputa por um só espaço.

Texto: Giovanna Riato | Fotos: Leonardo Sang - Casa Dobra | Vídeo: Casa Dobra