Cris Bertoluci: “Sou defensora do valor da criação. Não precisamos copiar de fora”

Cris tricotando: jeitão de modelo e alma de artesã

Cris tricotando: jeitão de modelo e alma de artesã

Cris Bertoluci é uma gaúcha com jeitão de modelo: esguia, com um par de olhos verdes que parecem falar em voz alta e estilo fashionista. Tinha tudo para estar na passarela, mas nunca pisou em uma. Natural de Caxias do Sul, ela não pensou em buscar da carreira de modelo que tantas meninas da região perseguem. O negócio dela sempre foi atrás dos holofotes: decidiu se tornar estilista. Estudou e, ao chegar na indústria da moda com a bagagem cheia de memórias e inspiração do feito à mão, percebeu rápido que seu lugar não era ali, mas na produção artesanal.

“Passei por algumas empresas. Nós temos um certo distanciamento dessa questão ética, do trabalho escravo, mas uma vez eu precisei encarar de frente esse assunto e não consegui mais fugir”, conta. Cris trabalhava em uma marca de mochilas que eram desenhadas no Brasil, mas feitas na China. Um dia ela recebeu um vídeo da produção em que ela podia ver uma das costureiras dormindo no meio da fábrica. Foi a gota d‘água. O susto deu a força que ela precisava para se reconectar, entrar em contato com a sua própria história.  

“Minha mãe sempre tricotou e a minha avó me ensinou crochê. Fazia isso desde cedo e tenho essa lembrança das mulheres juntas na sala trabalhando com as mãos. Esse momento de união e troca”, diz. Decidiu resgatar a força do ofício artesanal: juntou a memória afetiva com novas referências em um curso em Brighton, na Inglaterra, focado no fazer manual. “Foi um despertar para mim. Lá aprendi que a criação é cabeça, mão e coração. A Europa valoriza muito o artesanal. Aqui temos uma herança cultural muito linda ligada a isso, mas não damos atenção, não oferecemos cursos, não enxergamos como uma opção profissional”, diz.

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RESGATE DAS TRADIÇÕES

Cris escolheu então voltar ao Brasil e colocar em prática o que achava que precisava ser feito, o que acreditava, que é trabalhar com o feito à mão. Encarou a ironia de enfrentar resistência dentro de casa. A própria mãe, que tanto inspirou a decisão, achou que ali não tinha futuro para Cris. “A nossa geração tem essa questão. Nossas mães desejaram uma carreira e, por isso, não se preocuparam em nos ensinar fazeres tradicionais. Não aprendemos a cozinhar, crochetar ou cuidar das plantas.”

Para provar seu ponto, o jeito foi ir em frente. Com o tempo, ficou claro para a família de Cris que existia sim um caminho ali. Ela começou a difundir este conhecimento hoje tão deficitário, a mostrar a força do processo artesanal ao dar aulas, resgatando fazeres tradicionais. “Sou uma defensora do valor da criação. Temos muita coisa no Brasil, não precisamos copiar tudo de fora.”

Passo a passo, a voz de Cris ganhou força. Como professora, hoje ela dá cursos no Sesc, na Novelaria e na Faap. “Muita gente me pede para começar a ensinar no YouTube, a trabalhar mais na internet, mas sou resistente. Meu rolê é um para um: gosto desse esforço de formiguinha. Prefiro transformar uma pessoa do que fazer um discurso bonito que não tem adesão. É muito mais poderoso.” Além das aulas, ela desenvolve outros projetos, como o retiros, viagens para desconectar e fazer à mão - a próxima acontece em maio do ano que vem, em um barco na Amazônia, pela Novelaria.

Criou ainda o tricoaching, uma parceria que propõe aproveitar a vocação contemplativa do trabalho artesanal, fazer dele uma meditação. “A ideia é colocar uma intenção no seu tricô, prestar atenção nos sentimentos enquanto trabalha com as mãos”, conta. Para ela, a motivação está em pensar que as pessoas podem se encontrar no fazer manual, desenvolver voz própria, linguagem, algo autoral. Com o mesmo apetite que tem para ensinar, Cris continua aprendendo. “A minha busca é por conhecer cada vez mais, valorizar as técnicas, entender o que é realmente brasileiro.” Parte deste processo foi o mestrado que fez na USP, sobre moda voltada para o manual.

Para ela, resgatar o fazer manual talvez nunca tenha sido tão necessário quanto agora. “A indústria da moda sempre foi ruim, vemos isso há mais de 300 anos. Mas estamos no pico do exagero. As pessoas estão cansadas e encontramos muitas marcas querendo fazer green washing, tentando contar uma história bonita que, na verdade, é do artesão.” Por isso ela entende que informar é essencial para que os consumidores tomem responsabilidade pelas marcas que apoiam.

“Fazer é uma libertação”, defende. Firme feito as raízes mais robustas, ela segue na missão de espalhar essa liberdade. Nos 10 anos em que trabalha com tricô, Cris calcula já ter ensinado cerca 900 pessoa, mas sempre do jeitinho que ela gosta, uma a uma - com alma, mãos e coração.

CRIS BERTOLUCI NO #MANUALNAPINACOTECA

A Cris Bertoluci vai levar esse monte de conhecimento e inspiração para o #MANUALnaPinacoteca, que acontece neste fim de semana. No domingo, às 14h, tem oficina gratuita de tricô de braço com ela. Uma chance linda de trocar referências e inspiração. O festival traz mais um monte de oportunidades imperdíveis na programação, incluindo o talk com Nicole Tomazi sobre Design e Manualidade, essencial para quem quer construir uma carreira no fazer artesanal. Para ver a agenda completa é só clicar aqui.

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Texto: Giovanna Riato | Fotos: Juliana Souza