Nicole Tomazi aposta no design para valorizar o feito à mão

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Nascida na Serra Gaúcha, a designer e artífice Nicole Tomazi é dona de uma daquelas biografias que tinha tudo para seguir por um caminho quase óbvio na vida profissional. Sorte a nossa que a protagonista, obstinada, fez questão de mudar o trajeto e construir uma nova história, bem mais alinhada à sua própria verdade. Ela se formou em arquitetura, trabalhou alguns anos na área, mas sentiu que simplesmente não era o suficiente. “Queria significado, fazer algo que me permitisse atuar na sociedade de forma mais ativa e viver de acordo com a minha própria filosofia”, conta. A insatisfação foi combustível da mudança.

Nicole decidiu dar um passo ambicioso: unir a paixão pelo design à sua herança de artesã, combinando inovação e ancestralidade para fazer produtos autorais. Era 2007 e o cenário da cultura maker, completamente diferente. “Ali ainda não existia essa força, esse movimento que temos hoje”, lembra. Começou, então, a construir tijolo por tijolo da parte que lhe cabia, sem nem imaginar que a sua contribuição seria tão importante.

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Coleção Imigrante

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COMO UNIR DESIGN AO FAZER ARTESANAL?

“Me juntei a uma cooperativa de artesãos e comecei a desenvolver um trabalho com eles”, diz. Ali ela dava o primeiro passo em seu projeto, que se transformou intensamente nos anos seguintes. “Tive muitas fases: saí de lá, formei meu próprio grupo, trabalhei com material de descarte da indústria têxtil... Hoje sinto que o que faço é muito mais autoral do que comercial. Busco o design arte, mas sempre resgatando o fazer manual.”

Ao longo da trajetória, Nicole fez um mestrado em design para reforçar as bases de seu trabalho e conseguir se desenvolver também em teoria, não apenas baseada em sua vivência. Hoje ela atua em três frentes. A primeira é o trabalho autoral, que faz por meio de duas linhas de produtos: Oferenda Objetos, que traz utensílios com preços mais acessíveis, e a gama de peças Nicole Tomazi, com apelo exclusivo e limitado.

Outro pilar é a atuação como consultora para levar design e artesanato para a produção industrial. O terceiro ponto do tripé de Nicole é a coordenação de um trabalho de resgate territorial com grupos de artesãos tradicionais, uma forma de fomentar culturas regionais.
 

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RECONHECIMENTO INTERNACIONAL PARA GANHAR ESPAÇO NO BRASIL

Desde que começou amadurecer o próprio projeto, Nicole investiu em internacionalizar sua produção para dar visibilidade ao design feito à mão no Brasil. Participou de diversas edições do Salão do Móvel de Milão e, em 2012, ganhou notoriedade com a coleção Fractal, que misturava produção industrial com técnicas artesanais. No ano passado foi assunto de uma matéria do New York Times e, há alguns meses, apareceu no Financial Times em uma prestigiosa lista de artífices do mundo. “É engraçado que precisei ser reconhecida internacionalmente para conquistar meu espaço no Brasil, onde está hoje o meu mercado”, diz.

O segredo para atrair tantos holofotes, conta, foi apostar no design como ferramenta de valorização do trabalho manual. “Também sempre tive uma preocupação muito grande em comunicar bem o meu trabalho, em ter boas fotos. Percebo que isso é tão importante quando ter um bom produto.” Desenvolver produtos autorais, cheios de identidade, também foi peça-chave para construir uma carreira nesse universo, acredita.

“Precisamos da vivência, da ancestralidade. O artesão tem de criar algo genuíno, que venha da sua própria história. É isso que faço a cada coleção”, diz, contando que recentemente mergulhou em uma incursão à Serra Gaúcha para resgatar e entender uma técnica artesanal com vime que era parte da sua memória afetiva. “É uma construção: pego algo que é importante para mim e vou estudar suas raízes antes de desenvolver a minha leitura daquilo.”

TALK NO MANUAL NA PINACOTECA

A pedido da Rede Manual, Nicole Tomazi vai falar mais de sua história e experiência no #ManualnaPinacoteca. Ela conduzirá um talk no dia 5, domingo, às 10h30, sobre Design e Manualidade. “Vou levar para a conversa um pouco de teoria e muito da minha experiência pessoal e da observação do meio, da evolução de outros artesãos”, diz.

Criado para promover uma troca verdadeira sobre o desafio de construir carreira focada no feito à mão, o encontro é uma chance de trocar experiências e inspiração, de estabelecer diálogo relevante sobre o tema. O talk é gratuito e acontece no auditório da Pinacoteca, que está sujeito à lotação. Por isso, é importante chegar cedo, a partir das 10h, para garantir o seu lugar.

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Coleção Urbaneza

Coleção Urbaneza

Texto: Giovanna Riato | Fotografia: Marcelo Donadussi